Durante a Copa de 98 eu estava em Paris e assisti aos jogos pela televisão.
Foi uma experiência estranha, pois como todo brasileiro, estou acostumado
a narrações emocionadas, muitas vezes com berros e xingamentos.
Transmissão de futebol na TV francesa é um programa blasé,
onde dois apresentadores conversam o tempo todo em voz baixa, num tom moderado,
como se estivessem entediados trocando idéias a respeito “desse
interessante esporte bretão”. O tom de voz não muda nem
quando sai um gol.
Pois foi nessa situação insólita que comecei a me dar conta de uma tendência do futebol mundial, a rima. Como não entendo quase nada de francês (para tristeza de minha saudosa professora Madame Gildá) eu ficava acompanhando as imagens do jogo e me deliciando com aquele lero-lero monocórdico de palavras oxítonas. O Brasil atacava com Ronaldô, Rivaldô, Leonardô, Bebetô... todos sob o comando do técnico Zagalô. A rima era rica, mas no fim a seleção se ferrô.
A sensação que tenho é que, apesar dos resultados, a moda pegô. Como se já não bastasse a obsessão por táticas, compactações e outros que tais, agora os treinadores querem também fazer poesia com o nome dos jogadores.
Na Copa da Coréia e Japão, vamos estar representados por um ataque de “aldos”: Rivaldo, Ronaldo e Ronaldo. Mas a grande maioria da nova seleção rima com “son”. Emerson, Kleberson, Anderson, Edmilson, Edílson, Denílson... e Júnior, que também se chama Denílson. Ah, e o Kaká, que é Ricardo Izecson e o Dida, que quando nasceu foi batizado de Nelson.
Minha grande preocupação é com a falta de harmonia da defesa. Lúcio, Polga e Roque Júnior não rimam nem entre eles, nem com o goleiro Marcos. Acho que deviam usar algum nome artístico como Lucião, Polgão e Rocão. Além de assustar os adversários, combinaria com Felipão.
O problema, quando começa essa brincadeira de rima, é com o Vampeta e o Cafú. Sempre tem um engraçadinho pra fazer um verso chulo com o nome dos coitados. O Cafú pelo menos tem uma saída, pode mudar de nacionalidade e ir jogar na seleção da China junto com Wu, Pu, Xu, Du, Yu, Su e... Qu. Já o Vampeta, não tem jeito.
Pra você não dizer que estou exagerando com essa história de treinadores-poetas, preste atenção. A Dinamarca vai entrar em campo com Sorensen, Christiansen, Henriksen, Jensen, Laursen, Poulsen, Gravesen, Michaelsen, Jorgensen e Madsen. O México escalou Perez, Sanchez, Marquez, Rodriguez, outro Rodriguez, Morales e Hernandez. A Rússia chamou Filimonov, Khlestov, Nikiforov, Chugainov, Titov, Panov e Izmailov. Podiam botar o Baryshnicov dançando no meio de campo.
A Suécia, além de já copiar as cores do uniforme da seleção brasileira, resolveu agora imitar a nossa rima: Isaksson, Jakobsson, Andersson, Svensson, outro Svensson, mais outro Svensson (acho que a família inteira foi escalada), mais 2 Andersson, Larsson, Jonhsson, Alexandersson... Mas como eles são ruins em português, escreveram tudo com 2 Ss. Vão perder ponto neste detalhe.
A Eslovênia vai de Dabanovic, Simeunovic, Milinovic, Sandovic, Acimovic, Pavlovic e Zahovic, seguindo a tradição da antiga Iugoslávia de Petkovic que sempre foi nota 10 nesse quesito. Mesmo assim nunca conseguiram vencer uma Copa e ainda por cima o país se desmantelou.
Dizem que essa mania de fazer versos é o verdadeiro motivo do corte do Romário. Além de não encontrar nenhum Mário pra compor o ataque, Scolari ficou com medo porque o nome do baixinho rima com “sedentário”.
A meu ver, tanta preocupação com a poética faz sentido, pois anda circulando um boato de que a quantidade de rimas no time poderia servir de critério de desempate. Não sei, pode ser uma nova regra do jogo.
O campeonato deste ano traz também outras curiosidades, não
sei se são coincidências ou superstições. Os 3
goleiros da Arábia Saudita e mais um zagueiro têm o mesmo nome:
Mohamed. Outros 4 jogadores se chamam Abdulah. Acho que vai dar a maior confusão
em campo, mas eles que são árabes que se entendam.
Depois falam que os portugueses só têm Manuel e Joaquim. Não é verdade. São apenas 8 manuels na seleção de Portugal, entre eles os 3 goleiros (acho que está virando uma tendência). Os joaquins foram discriminados e somente um jogador com este nome foi convocado, mesmo assim porque se chama Joaquim Manuel. E é bem possível que fique na reserva.
A Polônia tem 5 jogadores chamados Tomasz.
A Coréia tem 7 Lee e 4 Kim.
E o que é que isso tudo tem a ver com futebol? Nada, absolutamente
nada. Na Argentina ninguém rima com ninguém, cada um usa o nome
que quer e o time bate um bolão. Essa bobagem toda é só
uma maneira que encontrei de ocupar meu tempo, sem ficar roendo as unhas,
antes que comece o primeiro jogo.
Kledir
Tchê, não é que eu seja bairrista, mas desde que a coisa tomou esse jeitão mais gaudério, comecei a acreditar nas possibilidades da nossa seleção de futebol.
O Felipão, todo mundo sabe, é lá de Passo Fundo ("está na cara, repare meu jeito"). Foi criado em campo aberto, de bombacha e alpargata e, dizem, era campeão de guerra de bosta. Essa peculiar modalidade de batalha é uma brincadeira típica dos guris gaúchos e não tem muita regra. Ganha quem acertar o outro com mais quantidade de bosta seca de vaca, munição abundante em qualquer região agro-pecuária. É um jogo que requer muita habilidade e estratégia e acredito que grande parte da sabedoria tática do nosso treinador vem dessa experiência de infância. Ali se aprende que antes de atacar é preciso saber se defender. Não é nada agradável ser atingido por um petardo inimigo numa guerra dessa natureza. Também é fundamental ser muito cuidadoso na hora de escolher o seu arsenal. Você precisa saber onde está botando a mão. Depois, como botar a mão para só então tentar fazer lançamentos certeiros e chegar ao seu objetivo, que é a vitória. Este jogo é uma escola de vida, se você souber ler nas entrelinhas.
O Murtosa é natural de Pelotas. A gente jogava bola quando era criança no Monumental Estádio do Zoca (o campinho dos "ocaliptos", na praia do Laranjal). Ele é filho do Seu Murtosa que tinha um açougue na esquina da Quinze com a Padre Felício. Fomos criados juntos, freqüentando as mesmas escolas, namorando as mesmas gurias... Mas depois ele ficou famoso e foi embora.
O
Emerson era a resposta pra quem vive brincando com essa história de
que nós, de Pelotas, somos homens delicados. O ex-capitão da
seleção é uma experiência de alteração
genética realizada no laboratório da Santa Casa de Misericórdia.
Já estávamos pensando em produzir em série para vender
na Europa, mas depois desse contratempo da luxação vamos ter
que rever nossos planos. Quem vai querer um cabeça-de-área com
ombros de Barbie? Existe uma cidade no Rio Grande chamada Não Me Toques.
Vou tentar vendê-lo pro time local.
O Lúcio nasceu em Brasília, mas foi criado no sul, comendo churrasco
gordo e matando cachorro a grito (o que lhe deu aquela cara feia). Foi escalado
para comandar a defesa nesta Copa, pois é o único capaz de comer
churrasco de cachorro e chutar o adversário aos gritos. Tem uma enorme
vantagem sobre todos os outros, pois pode bater no peito e dizer com orgulho
que foi zagueiro do Sport Club Internacional.
Anderson Polga nasceu em Santiago do Boqueirão, é gaúcho barbaridade e um digno representante do estado na seleção gaúc... quer dizer, brasileira. O Paixão é preparador físico do Grêmio, o que o habilita a estar na comissão técnica. O Luizão é o centro avante gremista. Não interessa onde nasceu: é gaúcho.
A escalação ideal do Felipão começava com Tafarell no gol, mantinha a faixa de capitão no braço do Dunga e colocava o Renato Gaúcho de sunga e óculos escuros tomando sol sentado no banco de reservas. O Falcão só não foi convocado porque a Globo achou que ele ia ficar muito suado para fazer os comentários no intervalo do jogo. E o Carpegianni, chamado para o meio campo, não chegou a um acordo porque queria o lugar do treinador.
Abrindo
um parêntese, a título de ilustração: o Pelé,
quando era garoto, foi oferecido para o Brasil de Pelotas e foi desprezado.
Toda a carreira brilhante que depois ele fez no Brasil do Brasil foi só
para provar para aquela gauchada ignorante que era melhor do que o Joaquinzinho
(que foi o escolhido no seu lugar). Ou seja, foi movido pela raiva. Se não
fosse o Rio Grande, nunca teria chegado aonde chegou. Fecha parêntese.
O Rivaldo diz que é pernambucano, mas nasceu em Santana do Livramento.
O Uruguai inclusive tentou convocá-lo para a seleção
deles usando um registro de nascimento falso de um cartório de Rivera,
cidade que fica do lado de lá da fronteira.
O Ronaldo Nazário é carioca, mas quando criança freqüentava o CTG "Desgarrados do Pago", em Santa Cruz - RJ, onde participava do corpo de baile de danças típicas e do Gre-Nal infantil dos domingos (onde defendia com brilho a camisa colorada).
O
Kleberson e o Rogério Ceni são paranaenses e Paraná,
em tupi guarani, quer dizer "Rio Grande". Tá explicado.
Caetano Veloso decretou há pouco tempo que "a verdadeira Bahia
é o Rio Grande do Sul", portanto os baianos Vampeta, Dida, Júnior
e Edílson são tri gaúchos.
O Roberto Carlos (não, não tô mais falando de cantores) tem um primo que mora em Santa Maria. A mãe do Cafu tem uma tia que visitou a Festa da Uva. O Juninho quando era pequeno (sim, eu sei que ele continua pequeno) fez uma excursão à Gramado pra conhecer a neve. O Marcos, o Edmilson, o Roque Jr e o Gilberto Silva, não sei se pra agradar o Felipão, tomam chimarrão cada vez que vão entrar em campo.
Dizem
que a falta de qualquer parentesco ou laço afetivo com a região
sul foi a verdadeira razão do corte do Romário. Some-se a isso,
como agravante, a bagunça que ele fez naquela boite em Caxias do Sul.
Faltou quem? Ah, o Ronaldinho Gaúcho. Esse tá na cara, tá
no nome. O garoto é a grande promessa do futebol brasileiro. Saiu daqui
discretamente, foi morar em Paris, ganhou dinheiro, massa muscular e mudou
de hábitos. Começou a usar roupas de grife e fez um negócio
chamado "relaxamento nos cabelos". Ainda bem que é de Porto
Alegre. Se fosse de Pelotas iam dizer que é coisa de veado.
O único defeito do guri, além dos dentes, é que jogou no Grêmio. Mas apesar desse detalhe, em breve deve chegar a número 1 do mundo, afinal de contas ele é gaúcho e isso já é meio caminho andado.
Não é que eu seja bairrista.
Kledir
Tô
ficando velho! Um dia desses, às 2 da manhã, peguei o carro
e fui buscar minha filha adolescente na saída do show do Charlie Brown
Jr. Ela e as amigas estavam eufóricas e eu ali, meio dormindo, meio
de pijama, tentei entrar na conversa.
- E aí, o show foi legal?
A resposta veio de uma mais exaltada do banco de trás.
- Cara! Tipo assim, foda!
E outra emendou.
- Tipo foda mesmo!
Fiquei tipo assim calado o resto do percurso, cumprindo minha função
de motorista. Tô precisando conversar um pouco mais com minha filha,
senão daqui a pouco vamos precisar de tradução simultânea.
Para piorar ainda mais, inventaram o MSN, essa praga da internet onde elas
ficam horas e horas escrevendo bobagens umas pras outras, em código
secreto. Tipo assim “kct! vc tmb nunk tah trank, kra. Eh d+, sl. T+
Bjoks. Jubys”. Em português: “Cacete! Você também
nunca está tranqüila, cara. É demais, sei lá. Até
mais, beijocas. Jubys”.
Jubys, que deve ser pronunciado “diúbis”, é isso
mesmo que você está imaginando, a assinatura. Só que o
nome de batismo é Júlia, um nome bonito, cujo significado é
“cheia de juventude”, que minha mulher e eu escolhemos, sentados
na varanda, olhando a lua... Pois Jubys é hoje essa personagem de cabelo
cor de abóbora, cheia de furos nas orelhas, que quer encher o corpo
de piercings e tatuagens. Tô ficando velho!
Outro dia tentei explicar pro mesmo bando de adolescentes o que era uma máquina
de escrever. Nunca viram uma. A melhor definição que consegui
foi “é tipo assim um computador que vai imprimindo enquanto você
digita”. Acho que não entenderam nada.
Eu sou do tempo do mimeógrafo. Para quem não sabe, é
uma máquina que você coloca álcool e dá manivela
para imprimir o que está na folha matriz. Por sua vez, essa matriz
precisa ser datilografada (ver “datilografia” no dicionário)
na tal máquina de escrever, sem a fita (o que faz com que você
só descubra os erros depois do trabalho feito), com o papel carbono
invertido... Enfim, procure na internet que deve haver algum site de antiguidades
que fale sobre mimeógrafo, papel carbono, essas coisas. Se eu ficar
explicando cada vocábulo descontinuado, não vou conseguir acompanhar
meu próprio raciocínio.
Voltando às garotas, a cultura cinematográfica delas varia entre
a “obra” de Brad Pitt e a de Leonardo de Caprio. Há anos
tento convencê-las a ver “Cantando na Chuva”, mas sempre
fica para depois. Um dia, cheguei entusiasmado em casa com um filme francês
que marcou minha infância: “A guerra dos botões”.
Juntei toda a família para a exibição solene e a coisa
não durou nem 5 minutos. O guri foi jogar bola, Jubys inventou “um
trabalho de história sobre a civilização greco-romana
que tem que entregar tipo assim até amanhã senão perde
ponto” e até minha mulher, de quem eu esperava um mínimo
de solidariedade, se lembrou que tinha um compromisso com hora marcada e se
mandou. Fiquei ali, assistindo sozinho e lembrando da época em que
eu trocava gibi na porta do Capitólio.
Eu sou do tempo em que vidro de carro fechava com maçaneta. E o Fusca
tinha estribo, calha e quebra vento. Não espalha, mas eu andei de Simca
Chambord, de DKW, Gordini, Aero Willis e até de Romiseta. Não
dá pra explicar aqui o que era uma Romiseta, só vou dizer que
era tipo assim um veículo automotivo, com 3 rodas, que a gente entrava
pela parte da frente (onde hoje fica o motor) e a direção era
grudada na porta. Procure na internet, deve haver um site.
Tá bom, tá bom, confesso mais. Usei camisa Volta ao Mundo, casaquinho
de Banlon, assisti à Jovem Guarda, O Direito de Nascer, mas é
mentira essa história de que meu primeiro disco gravado foi em 78 rotações.
Há pouco tempo, João, meu filho de 8 anos, pegou um LP e ficou
fascinado. Botei pra tocar e mostrei a agulha rodando dentro do sulco do vinil.
Expliquei que aquele atrito era transformado em pulsos elétricos e
transmitido através do toca-discos, dos fios, até chegar ao
alto falante onde era gerado o som que estávamos escutando... mas aí
ele já estava jogando sei lá o que no videogame. Não
é que ele seja desinteressado, eu é que fiquei patinando nos
detalhes. Ele até que é bastante curioso e adora ouvir as “histórias
do tempo em que eu era criança”. Quando contei que a TV, naquela
época, era toda em preto e branco ele “viajou” na idéia
de que o mundo todo era em preto e branco e só de uns tempos para cá
é que as coisas começaram a ganhar cores.
Acho que de certa forma ele tem razão.
Tipo assim...
Kledir
Crônicas
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