Papagaios de laboratório

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Imagino que você já deve estar cansado dos meus bichos de laboratórios. Eu também. O problema é que virou um vício. Não consigo parar. Passo o dia todo procurando alguma idéia nova de alteração genética que possa melhorar nossa fauna. Hoje acordei pensando no papagaio. É um bicho especial. As possibilidades de se mexer no papagaio são infinitas. Por isso, apesar de já haver sido citado em textos anteriores, resolvi dedicar um capítulo só para ele.
O papagaio é uma ave estranha. É o único passarinho que fala. Eu sempre desconfiei que deve ser fruto de uma mutação genética ou de um acaso da natureza que misturou, em algum lugar escondido da floresta, um pássaro colorido com um ser humano.
Um detalhe curioso é que ele vive 200 anos e com a idade avançada, perde a cor esverdeada da plumagem, vai ficando acinzentado. Como uma fotografia antiga.
Já sugeri a idéia do papagaio que não fala, ótimo para quem gosta de silêncio, e o papagaio que fala chinês, para quem quer ganhar dinheiro fácil. A China é hoje o grande mercado consumidor do mundo, um papagaio tagarelando em Mandarim vai fazer o maior sucesso.
Mas a coisa não tem fim. Anote aí:
• Papagaio que não fala palavrão – com filtro na língua para palavras obscenas. Ideal para quem tem criança em casa e também para não pagar mico com as visitas.
• Papagaio numérico - um papagaio que só fala números e pode funcionar como calculadora.
• Papagaio que conta anedotas de papagaio – humor refinado, onde o autor consegue rir de suas próprias desgraças.
• Papagaio que conta piadas muito pesadas – humor grosseiro e politicamente incorreto. Ideal para espantar visitas chatas.
• Papagaio enciclopédia – espécie de arquivo ambulante com memória privilegiada, onde armazena todo conhecimento humano. Ótimo para as crianças levarem para a escola em dia de prova.
• Papagaio de pirata – papagaio boa pinta, que está sempre sorrindo e disposto a posar para fotografias. O companheiro perfeito para animar aquelas enfadonhas fotos de família em aniversário.
• Papagaio gay – descontraído, simpático, divertido. Adora a balada, cruzeiros marítimos e sabe cantar I will survive imitando os trejeitos da Gloria Gaynor. Indicado para o público GLS.
• Papagaios sertanejos – dupla de papagaios cantores, com vozes em terças e repertório romântico. Microfones não incluídos.
E por aí vai. A coisa não pára.

Kledir Ramil

Homem de laboratório

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De tanto mexer com os bichos, cheguei inevitavelmente ao ser humano, o único animal que usa sapatos.
De todos, o homem é o bicho mais esquisito. Já falei sobre isso e não quero me repetir. A fase que estou vivendo agora é mais científica.
Tento descobrir através da biotecnologia, como as alterações genéticas podem ajudar na evolução das espécies.
O homem já evoluiu bastante desde o tempo em que desenhava bisontes nas cavernas, mas algumas coisas podem ser melhoradas. A primeira atitude que eu tomaria seria raspar o cabelo de todo mundo. Cabelo é apenas um acessório, um elemento de decoração. Dá trabalho e despesa. Em especial o das mulheres.
Orelhas. É estranho que a concha auricular seja virada pra frente, já que há sons vindo de toda parte. Precisamos um aparelho auditivo multi-direcional para podermos apreciar o mundo em 5.1. Sugiro cortar as orelhas fora e deixar apenas o furinho do ouvido.
Dizem que o homem tem 2 orelhas e uma só boca para ouvir mais e falar menos. Infelizmente tal sabedoria não é levada a sério, talvez porque a boca é muito grande. Podemos diminuí-la.
O nariz está sobrando. Aquela protuberância só atrapalha na hora de beijar. Vamos eliminar e manter o que interessa, as 2 entradas de ar.
Nossos olhos são muito pequenos, isso sem falar dos orientais. Sugiro aumentar o tamanho e a capacidade de resolução em pixels.
O cérebro com certeza precisa crescer. Como só se consegue usar 10% mesmo, a idéia é: maior massa encefálica, maior participação em numero de neurônios que trabalham. Para isso vamos precisar de uma cabeça maior.
Tenho uma amiga médica, portanto uma autoridade no assunto, que sustenta que o homem foi mal construído. Segundo ela, deveria ter na altura dos ombros, um encaixe que permitisse desatarraxar e tirar fora os braços na hora de dormir.
Com essas primeiras alterações, nós vamos ficar parecendo um ET. Careca, cabeçudo, zolhudo, sem ombros... Tudo bem, perdemos em beleza, mas ganhamos em funcionalidade. E, tenho certeza, ficando mais inteligentes vamos conseguir diminuir o aquecimento global e resolver o problema do tráfego aéreo no Brasil.
Várias parte do corpo humano são uma incógnita para mim. Algumas internas, como a vesícula biliar, o apêndice e aquela quantidade absurda de intestino grosso. Pra que tanta tripa?
Para que servem as unhas? Os artelhos? Os pêlos pubianos? A meleca do nariz? Pra que 2 pulmões? São coisas que, um ignorante como eu, não consegue entender.
Mas a questão central, a dúvida que angustia e persegue todo ser humano através dos séculos continua sendo a mesma:
Por que, meu Deus, por que o homem tem tantos dedos e só um pênis?

Kledir Ramil


Mais homens de laboratório

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Na tentativa de aperfeiçoar ainda mais o ser humano, resolvi fazer novas experiências de laboratório e comecei a misturar o DNA de homens com o de alguns animais.
Certas qualidades específicas só podem ser encontradas nos bichos. São atributos testados à exaustão através dos séculos, portanto sem contra-indicações. E se funcionam neles, devem funcionar na gente.
Imagine um homem com asas de águia ou com a força de um touro. Imagine um sujeito com o apetite sexual dos coelhos.
Sei que minha idéia não é original. Já correram na frente. É o caso do homem-aranha. Todo mundo viu no cinema que o cara ficou fabuloso. É um bom projeto. Fora a fantasia, que achei de mau gosto. Mas sem dúvida ficou um ser superior, capaz de proezas incríveis, como beijar de cabeça pra baixo.
Outra mistura que faz bastante sucesso é o homem-morcego. Batman é um milionário que, na falta do que fazer, combate o crime vestido de vampiro do bem. Tinha tudo pra dar errado, mas funciona. Talvez o segredo seja esse modelo de Drácula politicamente correto. Musculoso, bonitão e sem caninos afiados.
A mulher-gato é uma gata, quer dizer, é uma mulher linda. Manhosa como os felinos e cheia de ronronares insinuantes. Mais uma que seduziu o público e foi parar em Hollywood.
Já o lobisomem não deu certo, virou um monstro. Também pudera, é feio, peludo e pelo que dizem tem desvio de comportamento. A Disney ainda tentou resgatar o projeto através de Mogli, o menino-lobo, mas ninguém garante que o guri, quando crescer, não vai querer sangue.
A idéia de misturar o homem com nosso primo, o macaco, já foi usada. E com bons resultados. Tarzan virou uma estrela. É adorado em todo mundo, da selva ao asfalto. Arranjou uma companheira, a Chita e uma namorada, a Jane. Ou será que foi o contrário?
Como dá pra perceber, muita coisa ainda pode ser feita. Imagine um centauro de verdade, meio homem, meio cavalo. Mulheres com a beleza das garças. Atletas com a velocidade dos leopardos. Jogadores de futebol com a destreza das focas... Não, esquece, esse já fizeram.
Se você pretende colocar minhas idéias em prática, tenha muito cuidado. Quem trabalha em laboratório sabe que a primeira regra num lugar desses é a organização. É preciso catalogar tudo direitinho e colocar o rótulo certo em cada vidro. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se você confundir os genomas pode ter surpresas desagradáveis.
Ninguém vai querer, por exemplo, um sujeito com características do bicho-preguiça. E muito menos um cara com cheiro de gambá.

Kledir Ramil

Bodas de prata

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Nunca prometi amar minha mulher até que a morte nos separe. Independente de não haver jurado ou feito promessas, eu amo essa mulher cada vez mais. Fui aprendendo a gostar dela no dia-a-dia. É uma pessoa inquieta, capaz de sacudir a rotina com novidades. E entre as pequenas surpresas do cotidiano, fui descobrindo virtudes escondidas que ela guardava com carinho para alguém especial. Quando percebi que aquilo tudo estava reservado para mim, me deu uma sensação estranha, que só aos poucos fui identificando como aquele sentimento que chamam de felicidade.
Logo que nos conhecemos, fomos fazer uma viagem. Saímos de férias por um mês e voltamos mais apaixonados do que antes. Viajar com outra pessoa é um ótimo test drive. Se a viagem for agradável, pode apostar, tudo vai dar certo.
Nunca formalizamos o casamento. Foi um gesto simbólico, uma maneira de dizer que a porta estava sempre aberta. Fui ficando, ficando e nunca mais saí. Quando me dei conta já havia passado 25 anos. Hoje, confesso, não sei viver sem ela. Quero ficar assim, até que a morte nos separe.
No início, quando começou o jogo de ocupação de espaço, percebi que ela era meio metida. Aproveitei e abri mão da autoridade em vários assuntos, sobre os quais não faço nenhuma questão de ter a palavra final. Roupas, por exemplo. Eu não sei me vestir. Cada vez que íamos sair, ela me olhava de cima a baixo e me fazia voltar ao guarda roupa, só porque a camisa listrada não combinava com a calça xadrez. Detalhe sem importância, mas pra ela, fundamental. Agora, antes de me vestir, sempre pergunto, como Noel Rosa: “com que roupa eu vou?”. Assim ela fica feliz e eu não perco meu tempo com análise de estamparias de tecidos.
Certa vez, teve um ataque pois não levei a sério a recomendação de “não esquecer de molhar as plantas”. Quase murchou ali o casamento, junto com as plantinhas. Mas o sacrifício de meia dúzia de bromélias e violetas serviu para alguma coisa: ela nunca mais me passou tarefas tão complicadas.
A vida em comum é assim, você cede aqui, ela cede ali e, entre avanços e recuos, tudo vai se encaixando. Como num quebra-cabeça.
Certo dia, pra meu espanto, saiu de dentro dela uma outra igualzinha, só que pequena. Tipo assim, uma babuska. Como se aquela mulher extraordinária já não fosse o suficiente, ainda ganhei um brinde. Um tempo depois, pasmem, mais um prêmio. Dessa vez um menino.
Hoje, olho minha mulher e meus filhos e dá uma sensação que não me é estranha. Aprendi muito bem o que quer dizer felicidade.
A vida tem sido generosa comigo.

Kledir Ramil

A medida das coisas

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Há 4 mil anos, os pés e as mãos eram usados como instrumentos de medida. Como obviamente havia gente de todos os tamanhos, a bagunça era geral. No século XVII, resolveram padronizar a unidade de comprimento de acordo com o pé e o polegar do rei. Nos EUA, até hoje essa é a referência - pés e polegadas - e, se é que há uma atualização, uma polegada deve corresponder ao dedão do George W. Bush.
Em 1791 foi instituído na França o Sistema Métrico Decimal, baseado numa “constante natural” e não nas medidas do corpo de alguém. Pegaram um meridiano da Terra, dividiram por 40000 e nasceu o metro. Atualmente, existem métodos mais modernos para definir o metro, como o trajeto da luz no vácuo durante 1/299792458 segundos. Mas o mais prático mesmo é ir até o armarinho da esquina e comprar uma fita métrica.
Medir é importante. E usando uma régua determinada. Imagine um mundo sem medidas, onde cada um faz o que bem entende. Você compra uma lâmpada, chega em casa e ela não encaixa no bocal. Vai tomar uma sopa e a colher não cabe na sua boca. Diz a lenda que Tim Maia chamou um arquiteto, mostrou mais ou menos onde era o terreno e mandou construir uma casa. Metade ficou em cima do terreno do vizinho.
Além de regras para avaliarmos o tamanho das coisas, também foram criadas bases de comparação para a temperatura, o peso, a pressão, o volume. Está quente ou frio? É leve ou pesado? O pneu está vazio? Quanto vai de gasolina?
E qual o valor das coisas? Foi preciso inventar a moeda para podermos estabelecer uma escala de valores. Quanto dinheiro vale meu trabalho? E o seu? Quanto vale um cavalo? Depende. Ricardo III, num momento de desespero, chegou a oferecer “meu reino por um cavalo!”. Quanto vale uma canção? Mais que 1 kg de alcatra? O RadioHead acaba de lançar um novo disco e o preço quem estabelece é o cliente. É um acontecimento histórico. Poderia ser assim nos supermercados.
Quanto vale uma obra de arte? Picasso tinha o hábito de pagar suas contas em restaurantes desenhando um pomba num guardanapo de papel. Era simples para ele e um ótimo negócio para o dono do estabelecimento. Certa noite, depois de pagar o jantar com um rabisco qualquer, recebeu do bem-humorado garçom um papel com o desenho de uma árvore. Era o troco.
Há pouco tempo, uma amiga por quem tenho o maior carinho, me apresentou seu “melhor amigo”. De brincadeira, questionei indignado: “por que não eu? Qual o seu critério de avaliação?”.
Como se mede os sentimentos? Minha filha, quando pequena, dizia que me amava “mais que o infinito do universo”. Quanto você gosta? Quanto deseja? Quanto machuca? Qual o peso da sua dor? O tamanho da sua alegria? Se alguém tiver um aparelho, me diga.
Sempre que tento mensurar coisas que não são palpáveis, lembro do ensinamento daquele grande Mestre:
- A medida de todas as coisas é o amor.


Kledir Ramil

Calendário


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Calendário é um negócio muito estranho. Só para começar, setembro, outubro, novembro e dezembro – que deveriam ser os nomes dos meses 7, 8, 9 e 10 – correspondem respectivamente aos meses 9, 10, 11 e 12. Dá pra entender?
Oficialmente, estamos no ano de 2007, uma contagem que começou com o nascimento de Jesus Cristo. Antes disso, tínhamos os anos AC (antes de Cristo). Matematicamente falando, seriam anos de números negativos. Número negativo é uma dessas teorias esdrúxulas que tentam ensinar para as nossas crianças, mas elas não conseguem engolir. E não dá mesmo pra entender o que seriam “menos quatro laranjas”.
Essa homenagem cristã, de um calendário baseado no nascimento de Jesus, é até hoje utilizada na maior parte do mundo ocidental. Mas como nem todo mundo é cristão, a coisa fica ainda mais confusa, pois existem outros calendários. Os judeus, por exemplo, mais avançados, já andam lá pelo ano 5768. Os islâmicos seguem um calendário lunar que começou com a fuga de Maomé de Meca, em 622. Por sua vez, os chineses dizem que estamos no ano do Rato. Acho simpática essa história de homenagear cada ano com um animal, mas não é muito exato eu dizer que nasci no ano do Dragão. Sem falar do constrangimento que é para alguém ter que confessar que nasceu no ano do Porco.
Talvez por isso e pelo fato de que com números a coisa fica mais definida, o que pegou mesmo foi a contagem, a organização dos anos através de algarismos. Pelo menos enquanto 2 + 2 for igual a 4.
O problema é que através da história muita gente foi dando palpite sobre esse assunto e metendo a colher na panela. Havia o calendário romano, aí Julio César deu um jeito de incluir um mês que homenageasse o seu nome. Depois veio Augustus e inventou o mês de agosto. Cada imperador ia mexendo no calendário a seu bel prazer, para saciar seus delírios de vaidade.
Foi então que, em 1582, o Papa Gregório XIII resolveu colocar ordem na bagunça. Juntou um grupo de especialistas e promulgou o calendário cristão que é usado até hoje. Ah sim, batizado de Calendário Gregoriano. Uma das atitudes mais drásticas dessa reforma foi a exclusão, pura e simples, de 10 dias. De 5 a 14 de outubro de 1582, os dias simplesmente foram apagados do mapa. Desapareceram. As pessoas foram dormir na noite de 4 de outubro e acordaram no dia 15. É ou nao é coisa de maluco?
Eu andei pensando em criar um novo calendário, que começaria no dia 17 de dezembro de 2006 – data histórica da conquista do Campeonato Mundial pelo Sport Club Internacional - mas cheguei à conclusão que só iria confundir tudo ainda mais. O melhor é aproveitarmos o que cada calendário já tem de bom, inclusive os bichinhos chineses, e fazermos um calendário universal, que possa ser aceito por todo mundo.
Como diz o sábio provérbio chinês, “só todos sabem tudo”.

Kledir Ramil

Coisas estranhas

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O mundo é cheio de coisas estranhas. Coisas com as quais nos acostumamos a conviver, mas se formos pensar direito, parecem de outro mundo. Apesar de nós mesmos termos inventado.
Dizem que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus por sua capacidade de criar. Só que o Todo Poderoso criou as flores, os pássaros, as mulheres... Nós, os homens, até que conseguimos fazer algumas coisas interessantes, mas outras, sinceramente, são bem esquisitas. Por exemplo:
Saca-rolhas - um pedaço de ferro retorcido, imitando um rabo de porco, que serve para abrir garrafas de vinho. O homem já inventou coisas admiráveis, no entanto o vinho continua sendo tampado com uma bucha de cortiça. Deve ser por uma questão sentimental. Ou talvez esteja aí o grande segredo de certos bouquets e sabores que os enólogos não querem revelar. Mais esquisito que o saca-rolhas, só o saca-rolhas para canhoto. Sim, existe isso, a espiral é pro outro lado.
Eletricidade - é a prova de que Deus existe, ou pelo menos de que “há muito mais coisas entre o céu e a terra do que possa imaginar nossa vã filosofia”. Não se vê, não se ouve e não tem cheiro, ou seja, é um negócio sobrenatural. Você só descobre o que é a eletricidade quando enfia os dois dedos na tomada e sente um força poderosa, que queima até a raiz dos cabelos.
Lâmpada - um bulbo de vidro, com uma pequena resistência em forma de mola, que ao ficar incandescente ilumina tudo à sua volta. Não me pergunte como. Pra mim, é coisa do além.
Telefone celular – aparelho que toca musiquinhas chatas, em alto volume, com os sons mais desagradáveis que a engenharia eletrônica conseguiu produzir até hoje. Serve para você compartilhar seus problemas pessoais com as pessoas à sua volta. E também para conversar com os outros, à distância.
Elevador – caixa grande, cheia de botões, usada para carregar verticalmente pessoas de um andar a outro. Substitui, com vantagens, a escada, desde que haja energia elétrica.
Porta automática – um tipo de porta inteligente que percebe que você chegou e quer entrar. Ou sair. É uma evolução do famoso portão da caverna dos tesouros de Ali Babá, que funcionava ao comando da voz pronunciando a frase mágica: abre-te Sésamo!
Internet – entidade abstrata que cresce de forma assustadora e descontrolada. Há teorias que sustentam que é um vírus de origem alienígena.
Computador – máquina de escrever que também serve para jogar paciência. O grande prejuízo é que, ao escrever, o computador não imprime automaticamente cada letra. Você precisa primeiro terminar o serviço. Depois, vai necessitar um outro equipamento para fazer essa função. Claro, você terá que comprar uma impressora. Mas o pior não é isso, é o preço do cartucho de tinta que é preciso trocar o tempo todo. Mais uma armadilha do mercado de consumo.

Kledir Ramil

Contando histórias

 

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Existem muitas maneiras de contar histórias. Eu gosto de todas, mas a minha preferida é a literatura. Antigamente, havia uma tradição de cultura oral, contava-se histórias de lábio a ouvido. O avô contava pro pai, o pai passava pro filho e assim por diante. O teatro enriqueceu a narrativa, inventando a representação das histórias através de um elenco que assumia a condição dos personagens. Com espaço cênico e figurinos, o mundo das histórias ganhou um novo colorido.
Depois, as tramas começaram a ser registradas. Dizem que Shakespeare escrevia suas peças com uma pena de ganso, o que torna ainda mais incrível a dimensão de sua obra. Com o advento da prensa de Gutemberg, surgiram as publicações. E veio o rádio, o cinema, a televisão, a internet... Os meios de comunicação passaram a mostrar a vida on-line e a quantidade de informação disponível se aproxima do infinito. Mesmo assim, com tanta novidade circulando em alta velocidade e disputando a atenção do público, há sempre alguma história sendo contada. Acho que essa mania nunca vai acabar. O ser humano gostar de ouvir e contar histórias.
Hoje em dia, os efeitos especiais da mídia virtual levam nossa imaginação a lugares que nem ousávamos sonhar. É deslumbrante, mas são resultados definidos, um pacote fechado que não nos deixa escolha. É por isso que eu gosto de literatura, uma arte interativa por natureza. O leitor é cúmplice do autor, ajuda a desenhar cada personagem, acrescentando detalhes segundo seu gosto pessoal. O rosto, o caráter, até mesmo uma muda de roupa. E o ambiente é um cenário nunca visto, com móveis e objetos de características próprias.
Assim, um livro é interpretado dentro do universo pessoal de cada um, decodificado através de um determinado ponto de vista. E é isso que faz da literatura uma arte tão especial, um mesmo texto é capaz de criar em cada leitor uma obra única, exclusiva. É a idéia do interativo levado ao extremo.
Quando eu era criança, minha mãe contava histórias para me fazer dormir. Narrativas fascinantes, onde ela imitava as vozes dos personagens. Era um teatro particular - ou seria literatura falada? – com apenas um espectador. Ela entrava com o texto, o enredo, o som das vozes e eu, sem perceber que estava participando do processo criativo, imaginava os personagens, o cenário, a trilha sonora. Uma obra íntima, criada por uma equipe de dois. Uma obra volátil, sem registro físico, mas que ficou para sempre marcada em minha memória.
E fez de mim um contador de histórias.

Kledir Ramil

Dupla de um

 

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Em toda minha vida profissional, como integrante da dupla Kleiton & Kledir, nunca deixei de cumprir meus compromissos. Jamais faltei a um espetáculo que estivesse agendado. Bem, houve uma vez em que não cantei, mas estive lá.
Eu andava cansado. Havíamos chegado de Nova York e seguimos direto de Guarulhos para Brasília. O avião estava uma geladeira. Acho que certos comandante se divertem com o frio que os passageiros têm que aturar. Com certeza, na cabine usam calefação. Ou acendem a lareira.
Chegamos a Brasília, tomei um banho e fui para o parque de exposições onde faríamos um espetáculo para 30 mil pessoas. O planalto central é seco, vocês sabem, a garganta fica parecendo o deserto do Saara. Entre o gelo do avião e o calor seco do serrado, terminei o show completamente afônico. Tudo bem, não fosse meu compromisso no dia seguinte no Rio de Janeiro.
Acordei sem voz. Pegamos mais um vôo gelado. Chegamos ao aeroporto do Galeão e fomos correndo para o local do show. Pelo menos na van meus gestos conseguiram ser entendidos e desligaram o ar condicionado. Nossa empresária me apresentou ao contratante como incapacitado fisicamente. Eu não conseguia emitir nenhum som. Sugerimos cancelar o espetáculo, mas o cara pediu que fizéssemos qualquer coisa, do jeito que desse. “Um canta e o outro dança”. O público estava aguardando, impaciente.
Sem poder falar, escrevi um texto de apresentação e passei pro Kleiton. Subimos ao palco, Kleiton foi até o microfone e anunciou:
- Kleiton & Kledir, o maior quinteto do mundo. Um quarteto extraordinário. É o único trio que atua com uma dupla de um.
Ninguém entendeu nada. Mesmo assim, aplaudiram e começou o espetáculo. Eu, entrei mudo e saí calado. Kleiton cantou sozinho o tempo todo. Fiquei tocando o violão, quieto no meu canto, como se fosse mais um músico da banda. O show foi um sucesso, o público cantou junto o tempo todo. Ou seja, não fiz a menor falta.
Minha auto-estima foi lá embaixo.
Dias depois encontrei com um amigo que estava na platéia e me cumprimentou pelo belo espetáculo. Quando comentei que, infelizmente, naquele dia eu estava sem voz e não pude cantar ele disse que nem havia notado, que o show tinha sido ótimo. Aliás, o melhor show de K&K a que havia assistido em toda sua vida.
Comecei a ter palpitações, a pressão subiu e tive que ser internado às pressas.
Acho que vou precisar de um acompanhamento psicológico.

Kledir Ramil

À medida que o tempo passa

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Depois de aprender a medir as coisas - pois elas tinham tamanhos, pesos, temperaturas, pressões e valores diferentes - o homem percebeu que também era preciso saber medir a passagem do tempo.
Tudo começou com a combinação dos encontros amorosos, que eram muito imprecisos. “Daqui a 3 luas, ao entardecer...”. Hoje, com o celular, essa questão está resolvida, mas no tempo das carruagens era angustiante esperar a mulher amada, com o coração na mão.
Aos poucos, os amantes foram se dando conta que o céu e as estrelas, além de inspirar poemas de amor, podiam ajudar na exatidão dos encontros marcados. Começaram a estudar os movimentos da Terra e estabeleceram alguns critérios. Um giro no próprio eixo, significa um dia. Uma volta em torno do sol, um ano. Cada fase da lua leva uma semana. Depois, dividiram o dia em 24 partes e chamaram de hora. Cada hora foi subdividida em 60 minutos e cada minuto em 60 segundos. E mais, ainda dividiram o segundo em décimos, centésimos, milésimos... Mas isso é coisa de maluco, não faz a menor diferença pra nós, pessoas normais.
Aí, inventaram o relógio para poder marcar tudo isso. O problema é que o cara que inventou o relógio, em vez de dividir o círculo em 24 partes como seria lógico, dividiu o mostrador em 12 partes, acrescentou 3 ponteiros com velocidades diferentes, criando um instrumento de difícil leitura. Um negócio tão complicado que, por exemplo, quando o ponteiro menor está perto do número 9 e o maior sobre o 11, pode significar que são 20 horas e 55 minutos.
Esse método de leitura da passagem do tempo, graças a Deus, está em desuso, depois do advento do relógio digital.
Tentando organizar o mundo através da medição do tempo, o homem criou o calendário. Mas esse é um assunto tão complexo que vai ficar pra outro dia. O importante é que, mal ou bem, a coisa vem dando certo. Só não encaixa perfeitamente porque um giro da terra em torno do sol não é exatamente 365 dias. Todo final de ano sobram mais de 5 horas e ninguém sabe o que fazer com elas. Por isso, a cada 4 anos, temos um dia especial, o 29 de fevereiro para tentar compensar essa falha celeste.
Tal aberração - um dia que só existe a cada 4 anos - cria situações inusitadas. Conheci uma garota que nasceu num 29 de fevereiro. Apesar de oficialmente ter apenas 15 anos, o corpo está envelhecido como se tivesse 60. Um fenômeno muito estranho.
Mesmo com todas as deficiências, nosso sistema de medir o tempo funciona bem. Os horários são sincronizados e respeitados por todos. Os únicos que ainda não conseguiram entender os fundamentos básicos dessa idéia são as companhias aéreas brasileiras.

Kledir Ramil

Previsões para o ano que passou

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Corajosamente, como faço toda virada de ano, aqui estou para conferir as previsões que apresentei para o ano de 2007. Digo “corajosamente”, porque muita gente prevê acontecimentos importantes a cada entrada de ano novo e depois, no final do período, disfarça e esquece de verificar se deram certo.
Em artigo que escrevi para o Brazilian Voice, fazendo presságios para o ano que passou, usei meus conhecimentos de Astrochutolomancia, uma nova ciência, supostamente exata, que utiliza o Chutômetro como instrumento de leitura. Infelizmente, mais uma vez, meu texto não chegou a ser publicado, por culpa da desorganização de Edneide, minha secretária particular. Sim, eu havia despedido essa inútil por justa causa, mas a pobre coitada é alcoólatra e foi abandonada pelo marido, grávida do quinto filho. Como o perdão é uma virtude divina, foi readmitida. Espero que o Todo Poderoso esteja observando e tenha contabilizado em meu nome, no seu caderninho, alguns pontos no quesito caridade.
Nessa época de festas de fim de ano o problema do alcoolismo de Edneide se potencializa e ela tem dificuldade de organizar seus próprios pensamentos. Imagine meus papéis. Enfim, a louca extraviou o documento, meu artigo não chegou às mãos de Roberto Lima - meu chefe de redação - e as previsões acabaram não sendo publicadas. Mas, por precaução, como sempre, guardei uma cópia aqui comigo... só não consigo encontrar. De qualquer forma, não se faz necessário, lembro tudo de memória. Vamos ao que interessa.
Os dinossauros voltarão a dominar o planeta Terra - muitos riram quando fiz essa declaração, mas foi exatamente o que se viu com a volta do Led Zeppelin, The Who, Police, Mutantes e Cat Stevens. E já no finalzinho do ano comentava-se que até o Jackson Five vai voltar. É um Parque dos Dinossauros, o retorno da era Jurássica do show business.
E a voz do rei ecoou ainda mais forte – Juan Carlos de Espanha, em plena reunião de cúpula Ibero-Americana, perdendo a paciência com o presidente venezuelano Hugo Chaves: “por qué no te callas?”.
Apóstolo de Cristo será o maior dos maiores e triunfará até mesmo sobre os outros santos - São Paulo, campeão do Brasileirão. Santos, 2o lugar.
K&K chegará ao topo do mundo - Alguns especularam que Kleiton & Kledir receberiam o Grammy pelo conjunto da obra, outros chegaram a falar de uma escalada em dupla até o Everest. Na verdade eu estava me referindo ao Kaká, eleito pela Fifa o melhor jogador do mundo.
Do meio das trevas nascerá a luz – o sol que apareceu todas as manhãs, com exceção dos dias nublados. (essa previsão eu repito todos os anos e sempre dá certo).
Feliz 2008. Estou prevendo coisas ótimas para todos nós. Depois eu conto.

Kledir Ramil

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Kledir Ramil

 


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