Começou o Pan

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Nunca fui um bom atleta. Culpa da minha professora de piano que, no primeiro dia de aula, me proibiu de jogar vôlei, basquete e, por via das dúvidas, futebol. "Esportes primitivos", segundo a avaliação dela. Eu só tinha permissão para jogar xadrez. Os conceitos radicais dessa professora terminaram por me afastar do mundo das competições e, na seqüência, do estudo do piano. Não deu pra agüentar. Mas aí, o trauma já estava configurado e o Brasil havia perdido um atleta de talento.

Eu hoje poderia estar no Pan. Não competindo, pois não tenho mais idade pra isso. Talvez como comentarista de TV, ou pelo menos ajudando a carregar a tocha. Vou sugerir à Comissão Organizadora que promova o Pan da terceira idade. Eu teria tempo para me preparar e jogar no time mirim de futebol, a seleção sub-60.

Na época da adolescência, como reação à impossibilidade de brilhar nas quadras e nas pistas - e decepcionado com as aulas de piano -, me refugiei atrás do violão, o que desenvolveu em mim uma musculatura especial. Nas mãos. Tenho dedos finos, ágeis, velozes, cheios de destreza. Como não encontrei nenhum esporte onde pudesse usar tanta habilidade - fora o jogo de xadrez - coloquei tudo isso a serviço de uma boa causa: a música popular. Mais recentemente, desiludido definitivamente com a possibilidade de um dia vir a ganhar uma medalha olímpica, acrescentei ao teclado do computador algumas técnicas aprendidas naquelas aulas de piano e enveredei pela literatura.

Ao longo da minha vida, conquistei várias medalhas e troféus, sempre em concursos de música ou literatura. Festival de música é uma competição esquisita, onde se escolhe a melhor canção. Como isso é uma questão de gosto, e gosto é relativo, sempre sai um resultado questionável. Por isso, muitas vezes se ouve a gritaria de "marmelada". Nas competições esportivas é simples saber quem leva o ouro, a prata e o bronze. É fácil medir quem chega na frente. Metros, centímetros, minutos, segundos ou quantidade de gols. Em arte, a coisa é subjetiva. Ou seja, pode ser marmelada.

Eu nunca gostei de competições de música. Participei de várias, pois era o que havia para fazer. Não acho que uma canção possa ser considerada melhor do que outra. Nem um livro, nem uma pintura. Meu único troféu em disputas esportivas é um caneco de plástico de 1^o lugar em uma corrida de kart com amigos, em São Paulo. Guardo com orgulho na minha galeria, na expectativa de que ele seja o primeiro de uma longa série.

Enquanto isso, já comecei a fazer exercícios físicos, no aguardo da confirmação do Pan da terceira idade. Mesmo assim, pra não pagar mico, vou procurar me inscrever em uma modalidade que não chame muito a atenção do público e da mídia, como softbol ou badminton.

Ou, quem sabe, xadrez.

Kledir Ramil

No embalo do Pan

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Como vocês já sabem, eu só não estou no Pan por culpa da minha professora de piano que, quando eu era garoto, me proibiu de praticar "esportes primitivos" como basquete, vôlei e futebol. Não agüentei aquele regime de clausura, dei um cartão vermelho pra ela e fui à luta. No sentido figurado, já que eu não tinha estrutura física para o judô, o boxe ou o taekwondo.

Comecei praticando Ping-Pong, atualmente conhecido como tênis de mesa. Infelizmente peguei um chinês pela frente e fiquei humilhado. Tentei a corrida de obstáculos, mas tropecei. Alguém havia enchido a pista de traves e madeiras. Me botaram na ginástica acrobática e quase torci o pescoço. Experimentei o salto com vara e quebrei um braço. Para patinação eu não tinha equilíbrio. Para equitação, não tinha cavalo.

Fui parar na piscina e foi um fiasco. É que no sul faz muito frio no inverno e naquele tempo não havia piscina térmica. Fiquei congelado, o que paralisou a maioria dos meus neurônios. Segundo exames mais recentes, continuam inativos. Mesmo neurologicamente lesionado, tentei o salto de trampolim. No primeiro mergulho de cabeça sofri uma concussão cerebral que terminou por liquidar os poucos neurônios que haviam sobrado. Só dois ficaram funcionando, em modo emergencial: o Tico e o Teco.

Foi mais ou menos nessa época que me inscreveram no conservatório, pois começava a dar mostras de que não levava jeito para o esporte.

Mesmo com o descrédito de todos, continuei insistindo. Desiludido com os esportes aquáticos, que além da função cerebral haviam aniquilado com a minha reputação, resolvi mais uma vez tentar alguma coisa no seco. Tiro ao alvo, arco e flecha... Quase fui linchado, pois colocava em risco a vida das pessoas. Eu não conseguia mais me concentrar, talvez abalado pela experiência aquática. Fiz um teste para o levantamento de peso e fiquei abaixo do índice feminino. O professor musculoso ficou rindo da minha cara. Tem gente que não tem psicologia mesmo. Um adolescente precisa de apoio, senão periga seguir pelo "mau caminho". Foi o que aconteceu. Comprei um baralho, enfiei a cara no jogo do pôquer e criei dependência. E aí não parei mais. Experimentei sinuca, totó, dados, dominó e todo tipo de jogos de tabuleiro: víspora, damas... Fui parar no xadrez. No jogo, não na prisão. Como dizia Millôr Fernandes, parafraseando Bernard Shaw, "jogar xadrez desenvolve muito a capacidade de jogar xadrez". Eu estava perdido.

Quando chegou o Natal, pedi uma bola de futebol e me deram um violão. O técnico do time da escola me incentivou dizendo que eu tinha um dom. Para a música.

Foi aí que eu me dei conta que o violão chamava a atenção das garotas. Chutei o balde e me dediquei como um atleta ao estudo do instrumento. Cheguei a ganhar disco de ouro. É o meu consolo. Disco de ouro é quase como uma medalha, só não dá pra pendurar no pescoço.

Kledir Ramil


Terminou o Pan

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Vocês já sabem que sou um atleta frustrado e só não participei do Pan por culpa da professora de piano, que me deixou traumatizado com seus conceitos radicais a respeito de "esportes primitivos". Pela vida afora, tenho usado esse episódio como desculpa pela minha preguiça para atividades físicas.

Há pouco tempo, por orientação do meu clínico geral, me inscrevi numa academia de ginástica. Academia de ginástica, hoje em dia, é um luxo tão grande que eu tive que começar a trabalhar em dobro só pra poder pagar a mensalidade. Ao chegar para a primeira aula, me entusiasmei ao ver tanta gente saudável e achei que o sacrifício valeria a pena.

Passei por uma avaliação e o professor me cumprimentou:

- Parabéns! Você tem índice de gordura igual ao do Michael Jordan: zero.

Quando fui começar a festejar ele me interrompeu:

- Em compensação, tem índice muscular igual ao do Michael Jackson.

São coisas como essa que desestimulam a gente. Às vezes, uma piadinha qualquer pode jogar um sujeito no chão. Eu sei que não era para tanto, foi apenas uma brincadeira, mas naquela noite não consegui dormir.

Quando voltei pra casa, ainda humilhado, estava passando na TV a cerimônia de encerramento do Pan. Fiquei imaginando onde eu poderia me encaixar naquela festa e o único lugar que encontrei foi a fantasia de Mariachi. Troquei de canal pra tentar esquecer o mundo dos esportes e apareceu um vídeo clipe do Michael Jackson, um sujeito que nunca participou de uma competição esportiva por falta de índice. Índice muscular. Lembrei da cara do professor rindo de mim e perdi o sono. Tive que tomar um comprimido, eu precisava dormir. No dia seguinte cedo, tinha academia.

Pra ser sincero, não consigo entender porque é preciso pagar para puxar ferros, correr numa esteira rolante e pedalar numa bicicleta que não sai do lugar. E ainda tem gente que gosta disso. Não vou para uma academia de ginástica por prazer, cumpro a missão como se fosse uma penitência. Em troca, espero ganhar um pouco de saúde. E aumentar minha massa muscular, pra não ter que ficar ouvindo piadinhas.

Meu consolo é que meu filho é um ótimo jogador de futebol. Comentei com a professora de spinning e ela disse que o garoto deve ter puxado à mãe. Engraçadinha! Pura maldade. Estou começando a ficar cansado dessa gente. Acho que vou trocar de academia.

Vou tentar a Academia de Letras.

Kledir Ramil

Kledir Ramil

Dia dos pais

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Um pai é quase uma mãe. Por mais desprestigiado que seja no ambiente familiar, ele tem a sua importância. Certo, não carregou o filho na barriga, não deu de mamar, etc, mas tambem não é um qualquer. Quando precisaram dele, foi o cara certo, na hora certa. Portanto, merece um dia de celebração.

O dia dos pais é um dos raros momentos em que os filhos lembram que o pai existe e não serve apenas como caixa eletrônico. “Você aperta aqui e ali e ele acaba entregando dinheiro”.

Este ano fomos viajar em família e tentaram me enrolar, sob o argumento de que o dia dos pais nos EUA cai em junho. “Tô nem aí”, respondi, “quero meus presentes”. E presente tem que vir em pacote. Não aceito coisas do tipo: “a viagem já é um presente”. Eu quero pacote. E não adianta vir com cartão Hallmark com desenho de coração e uma frase bonita.

Tentaram me subornar com a idéia de um vale-presente, sem limite, a ser recebido no Brasil, quando voltássemos. Não quis nem saber. Fiz questão de pacote no dia.

Como eles notaram que eu estava intransigente, resolveram ir às compras. No domingo fui acordado como um rei: café na cama, beijinhos e pacotes. Ser pai é amanhecer no paraíso.

Minha mulher me entregou um embrulho meio mole dizendo que era apenas uma lembrancinha, para não deixar o dia passar em brancas nuvens. Abri e encontrei meia dúzia de cuecas. Brancas. Tudo bem, considerei que tratava-se de um presente prático. As mulheres são assim, práticas. Vou anotar na agenda. Ano que vem, no dia das mães, comprarei calcinhas para ela. Brancas. Não vou resistir à tentação de dar o troco.

Minha filha, esperta, me entregou um pacote enorme. Dentro da caixa havia outra caixa, que continha mais uma e assim por diante. Quando consegui chegar ao objetivo final da gincana, ganhei uma caneta. Como a caneta, em vez de meu nome, trazia gravada a marca da loja, percebi que aquilo era um brinde que ela havia ganho na compra de algum aparelho eletrônico. Ok, valeu pela brincadeira.

Meu guri me deu um par de chuteiras da Nike, modelo Ronaldinho Gaúcho. No primeiro momento, fiquei contente. Só quando me dei conta que nunca jogo futebol e o número da chuteira coincidia exatamente com o tamanho do pé dele, é que percebi a segunda intenção por trás daquilo.

Tudo bem. Vou considerar que, apesar de não vir em pacote, fazer uma viagem com a família já é um presente. E é mesmo.

Kledir Ramil

Futebol verdadeiro

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Os EUA começam a descobrir o futebol verdadeiro. Há anos eles praticam um esporte esquisito que chamam equivocadamente de Football. É um jogo violento, com uma bola ovalada, que simula uma batalha medieval, uma guerra com lutadores usando armaduras, capacetes e outros apetrechos. O nosso futebol, o verdadeiro, é conhecido como Soccer e pra eles é coisa de mulherzinha. Só as meninas praticam.
Mas como o mundo está cada vez mais feminino, graças a Deus, os americanos por fim começam a se render à beleza deste que é o mais fantástico esporte jamais criado pelo ser humano. Um jogo que requer destreza, refinamento, talento e uma bola certa, redonda.
Aos poucos, os brutamontes da tal batalha de bola torta, começam a descobrir o prazer de praticar o Soccer masculino. Uma peça fundamental nessa campanha, que tenta fazer os gringos se apaixonarem pelo verdadeiro futebol, é a contratação de David Beckham, pelo Galaxy de Los Angeles. O cara, além de grande jogador, é bonitão, casado com a “Spice Girl” Vitória, deixa as mulheres enlouquecidas e, por tudo isso, lota os estádios.
Recentemente, levado por meu amigo Roberto Lima, tive o prazer de assisti-lo jogar no Giant Stadium, de New Jersey. O jogo, entre Galaxy e Red Bull, valia pelo campeonato americano. Claro, para um brasileiro, acostumado a Ronaldinhos e outros fenômenos, foi um jogo sem grandes emoções, apesar da chuva de gols: 5 X 4 para os Toro Rossos. A coisa é mais tranqüila, os zagueiros são um pouco inocentes e os atacantes às vezes correm na direção errada. Mas eles estão começando.
O que é mais impressionante é a beleza da festa no estádio. As famílias chegam cedo, estacionam suas vans, abrem a tampa de trás e o parque vira um grande pic nic. Sim, qualquer estádio tem estacionamento, exatamente o detalhe que falta para podermos sediar uma Copa do Mundo. Com a presença das famílias, as torcidas ficam civilizadas e todo mundo se diverte, sem correr riscos. Na última vez que fui ao Maracanã levar meu filho para assistir a Vasco X Flamengo, jurei que nunca mais voltaria. Fomos atropelados pela Fla Jovem na rampa de acesso, não tinha lugar pra sentar, tentaram levar minha carteira e na saída quase fomos pisoteados por um cavalo da polícia.
O Giant Stadium, além de estacionamento seguro, tem escada rolante, banheiros limpos, lugares marcados e telão com replay dos melhores momentos. A festa começa com revoada de balões e hino interpretado por uma cantora pop. No intervalo tem show e jogos de crianças. Na partida, Mr. Beckham reina como se fosse a rainha da Inglaterra. Não corre muito, não disputa a bola e se encostam nele, reclama pro juiz. Não precisa suar a camisa, afinal já está com a vida ganha. De qualquer forma é lindo vê-lo jogar. Cada vez que toca na bola sai um lançamento perfeito na cabeça de um companheiro, ou um chute certeiro em direção ao gol. Durante os 90 minutos, não errou um passe sequer. É de tirar o chapéu. Merece cada um dos 250 milhões de dólares que os americanos investiram nele.
Tomara que além das mulheres americanas, também os maridos se apaixonem por ele, quer dizer, pelo futebol verdadeiro.

Kledir Ramil

O gato antialérgico

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Todo mundo sabe que o cão é o melhor amigo do homem e que os animais domésticos são sempre fiéis ao dono. Talvez isso explique o carinho que temos por eles. É muito bom conviver com quem gosta da gente.


Ao mesmo tempo, todo mundo também sabe que bicho em casa dá trabalho, despesa e alguns até provocam alergia.


Pois agora, utilizando os mais notáveis avanços da engenharia genética, resolveram um desses problemas: lançaram um gato antialérgico. Está chegando aos bichos de estimação aquilo que a biotecnologia já vinha experimentando em outros animais, sempre com objetivos comerciais. Ouvi falar de ovelhas que produzem o dobro de lã, vacas que dão muito mais leite e perus de peitos enormes.
Daqui a pouco vão conseguir fabricar a galinha dos ovos de ouro. A questão é saber se o homem terá evoluido o suficiente para não cometer, como na fábula, a estupidez de pegar uma faca e abrir a barriga da galinha.


Se for verdade essa história de gato antialérgico, acho que vou encomendar um angorá biônico. Eu nunca pude conviver direito com os bichanos por causa de uma sinusite alérgica. Minha amiga Claudinha adora gatos e cria dois siameses lindos. Você senta no sofá e eles chegam ronronando, querendo carinho. Deitam no colo, rolam por cima e se enroscam nos braços da gente na maior intimidade. É muito bacana, mas na última vez que visitei minha amiga, fui parar no Pronto Socorro com fechamento da glote.


Sem dúvida, modificar genéticamente alguns animais pode ser um bom negócio. O problema é se começarem a inventar bichos esquisitos.

Certa vez, quando criança – já contei essa história - eu vi uma vaca de 2 cabeças num circo mambembe. Era um ônibus velho, caindo aos pedaços, que viajava pelo interior apresentando aquela aberração da natureza. Paguei o ingresso e entrei num ambiente fechado e quase sem ar. No meio da escuridão, levemente iluminada, havia uma jaula com o estranho animal deitado. Fiquei ali um longo tempo observando aquela criatura monstruosa. Na saída reclamei com o porteiro que só uma cabeça se movia. Ele respondeu que a outra devia estar dormindo, coisa que nem minha ingenuidade de criança conseguiu engolir. Depois, descobriu-se que a segunda cabeça era feita de papelão.


Hoje em dia, quando me falam desses extraordinários avanços da biotecnologia, me lembro daquele porteiro cara-de-pau e me dá uma sensação estranha de que estão querendo me enrolar.

Portanto, gato antialérgico... Só vendo!

Kledir Ramil

Bichos de laboratório

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Entusiasmado com o lançamento do gato antialérgico e com a possibilidade de se modificar geneticamente os animais, resolvi dar minha contribuição para a indústria da biotecnologia e anotei algumas sugestões. São idéias simples, mas que podem trazer alegria para quem gosta de bichos. Além de aumentar a margem de lucro de algumas empresas.
• Cachorro que não faz xixi – ótimo para quem vive em lugares frios. Você não vai mais precisar sair para passear com seu cão todas as noites. Pagando um pouco mais, você leva um cachorro que também não faz cocô. Não preciso nem dizer as vantagens de um animal desses.
• Canarinho com chip – você pode escolher o estilo de música que ele vai cantar. Bossa Nova, MPB, hip hop, funk, clássicos... Tudo ao gosto do freguês. E o melhor, se você cansar do repertório é só trocar o chip.
• Cavalo com 50 HP de potência – HP é a abreviatura de Horse Power, um seja, a força de 1 cavalo. Um animal que vale por 50 cavalos pode puxar muito mais peso ou correr mais do que os outros. Vou preparar um protótipo para o próximo GP do Jockey Club e apostar minhas economias.
• Papagaio que não fala – para quem gosta de silêncio.
• Papagaio que fala chinês – a China é hoje o grande mercado consumidor, com um bilhão e meio de pessoas. Deve ter um monte de chinês que gosta de papagaio. Vai vender que nem pastel em feira.
• Baleia de aquário – espécie de bonsai aquático. Imagine uma baleiazinha em miniatura. Faria o maior sucesso com as visitas. Na mesma linha chaveirinho, pode-se pensar em tubarões, golfinhos e até foquinhas amestradas.
• Mosquito vegetariano – imagine um mosquito que não gosta de sangue. Que maravilha! Vai picar sei lá... um pedaço de pau, uma casca de melancia.
• Cachorrinho de bolso – você pode levar pro escritório, pra escola. Não come, não late, não morde, ou seja, não serve pra nada. Tipo assim, um Tamagochi de carne e osso.
• Ursinho de pelúcia – fofinho, cheiroso, não solta pêlos... Bem, é melhor usar o que você já tem em casa. Dá no mesmo e sai mais barato.
• Bichinho de estimação com botão de liga-desliga – dispositivo ideal para quem não tem muita paciência, nem tempo. Você bota pra funcionar só nas horas em que quer relaxar e se divertir um pouco. Se der certo, podemos instalar também nas crianças.
Caso alguém aí conheça um laboratório interessado nas minhas idéias é só avisar. Podemos abrir uma sociedade e começar fazendo uma galinha dos ovos de ouro. Coisa simples, só pra capitalizar a empresa. Quem sabe?

Kledir Ramil

Eu, o magrão

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É ótimo quando falam bem da gente. Melhor do que isso, só quando elogiam alguma coisa que a gente fez: um filho, uma música, um livro. Esta semana, a revista Época publicou uma matéria do jornalista Adriano Silva sobre minhas atividades literárias. Olha só:
Kledir, magrão para sempre
Poucas sensações são tão boas quanto pegar um filme desconhecido na prateleira e descobrir que ele é sensacional. Ou achar um autor novo perdido numa pilha de livros e encontrar naquelas páginas insuspeitas horas de grande prazer. É raro. Mas acontece.
Aconteceu comigo agora. Achei um novo autor para guardar na cabeceira. Embora ele não seja exatamente um menino. E nem um desconhecido. Estou falando de Kledir Ramil. Aquele mesmo. O irmão caçula da dupla Kleiton & Kledir, que fez sucesso no começo dos anos 80. Kledir escreveu o delicioso Tipo Assim (RBS Publicações, 2003). Um livro sem grandes pretensões, que não saiu por uma editora do centro do país e que mesmo assim conseguiu reunir predicados suficientes para projetar Kledir como escritor. E dos bons.
O livro de estréia de Kledir é um apanhado de crônicas divertidíssimas sobre a relação dele com os filhos. O pano de fundo é o seguinte: Kledir foi adolescente nos anos 60. Portanto pertence à primeira geração de seres humanos que vai ser jovem para sempre. Ele foi riponga, viveu a psicodelia, é vegetariano, usa cabelo comprido. Encarna o espírito rock-‘n’-roll da geração paz-e-amor. Kledir é, tipo assim, magrão forever. O embate desse jovem cinqüentão (que durante muito tempo ao se olhar no espelho enxergou o paradigma mais acabado de jovem que o mundo já produziu) com a nova geração – epitomizada por seus filhos, uma menina adolescente e seu irmão mais novo – rende um balaio de grandes risadas e boas reflexões.
Com O Pai Invisível (Objetiva, 2006) Kledir repete a dose. Ele continua usando sua família, o dia-a-dia de sua casa, as pequenas piadas que encontra em seu cotidiano, para nos divertir. Em Tipo Assim, Kledir contava, desolado, que Evandro Mesquita nunca aprendeu seu nome e até hoje, quando o encontra, grita um “Kleidir!”, com aquele inconfundível sotaque do Arpoador. Agora, narra passagens como o dia em que, com a casa cheia de adolescentes, puxou o violão e começou a tocar uma música do Cat Stevens, tentando ser bacana e se misturar à galera – quase foi vaiado.
Kledir encara as novas gírias, estilos, músicas e costumes da molecada de hoje com humor e leveza. Suas linhas e entrelinhas vêm livres de culpas e acusações, não contêm asperezas nem ressentimentos. O estilo bonachão, pai cabeça-feita, que pode até estar um pouco perdido mas não deixa de olhar para as coisas com graça, conquista a gente. A cereja, para o leitor, é acompanhar as peripécias de um sujeito que foi filho rebelde sentar agora no outro lado da mesa, na posição de chefe de família, de provedor, com crianças a educar. Kledir escreve como se estivesse falando. Tem uma capacidade irresistível de rir de si mesmo. Ao mergulhar em seu texto coloquial, solto, dá para imaginá-lo sentado ali no sofá da sala, de bermudão florido, servindo o próximo chimarrão, e rindo muito de tudo, numa boa. Recomendo.
Adriano Silva
Revista Época – 17/09/07

Kledir Ramil

Mais bichos de laboratório

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Devido ao sucesso de minha coluna Bichos de Laboratório, onde sugeri algumas idéias de animais geneticamente modificados, minha caixa de correio entupiu de mensagens. Algumas até simpáticas.
Entusiasmado com a possibilidade de fazer história por acelerar o processo evolutivo da natureza - e, principalmente, ganhar algum dinheiro - fui correndo registrar minhas invenções. No caminho, a oxigenação forçada fez meu cérebro trabalhar mais do que o normal e novas idéias surgiram. Anote aí:
• Zebra colorida – uma evolução da ultrapassada zebra em preto e branco. Você pode escolher listras com suas cores preferidas ou até mesmo modificar o desenho e encomendar uma zebra com tatuagem de dragão.
• Minhoca com duas cabeças – uma na frente e outra atrás. Visualmente fica mais ou menos como é hoje, mas como duas cabeças pensam melhor do que uma, seria uma minhoca muito mais eficiente. Uma super minhoca. Só não sei pra fazer o quê, afinal minhoca não serve pra nada.
• Morcego sem dentes – só pra assustar os amigos. “Brincadeirinha! Brinca­deirinha!”.
• Ursinho muito peludo – nas horas em que ele estiver dormindo, você pode usar de almofada.
• Pombo correio eletrônico – já vem de fábrica com um pen drive pendurado no pescoço. Você salva sua mensagem no dispositivo e manda o bichinho voar até a casa do destinatário. Muito útil para os momentos em que cai a sua conexão com a internet.
• Burro inteligente – burro com Q.I. de golfinho. O único inconveniente é que ele vai gostar de fazer piruetas.
• Centopéia com 4 pernas – mais prática, moderna e de acordo com as leis da natureza, onde a maioria dos animais têm 4 patas.
• Porco espinho sem espinho – um presente para a porca espinha que finalmente vai poder abandonar o sexo selvagem.
• Grilo falante – aproveita o marketing agregado que já está no imaginário popular por conta da história do Pinóquio. Um grilo de laboratório que funciona como um HD externo. Armazena o que você tem de melhor - princípios morais, valores éticos - e grita como se fosse sua consciência, cada vez que você mete o pé na jaca.
• Bode de sala – com odores variados, um mais insuportável do que o outro. Na política brasileira é bem conhecida a idéia de colocar na sala de estar um bode fedorento para desviar a atenção do problema principal. Vai fazer o maior sucesso em Brasília.
Por enquanto é isso. Cansei de tanto bicho esquisito.

Kledir Ramil

Papagaios de laboratório

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Imagino que você já deve estar cansado dos meus bichos de laboratórios. Eu também. O problema é que virou um vício. Não consigo parar. Passo o dia todo procurando alguma idéia nova de alteração genética que possa melhorar nossa fauna. Hoje acordei pensando no papagaio. É um bicho especial. As possibilidades de se mexer no papagaio são infinitas. Por isso, apesar de já haver sido citado em textos anteriores, resolvi dedicar um capítulo só para ele.
O papagaio é uma ave estranha. É o único passarinho que fala. Eu sempre desconfiei que deve ser fruto de uma mutação genética ou de um acaso da natureza que misturou, em algum lugar escondido da floresta, um pássaro colorido com um ser humano.
Um detalhe curioso é que ele vive 200 anos e com a idade avançada, perde a cor esverdeada da plumagem, vai ficando acinzentado. Como uma fotografia antiga.
Já sugeri a idéia do papagaio que não fala, ótimo para quem gosta de silêncio, e o papagaio que fala chinês, para quem quer ganhar dinheiro fácil. A China é hoje o grande mercado consumidor do mundo, um papagaio tagarelando em Mandarim vai fazer o maior sucesso.
Mas a coisa não tem fim. Anote aí:
• Papagaio que não fala palavrão – com filtro na língua para palavras obscenas. Ideal para quem tem criança em casa e também para não pagar mico com as visitas.
• Papagaio numérico - um papagaio que só fala números e pode funcionar como calculadora.
• Papagaio que conta anedotas de papagaio – humor refinado, onde o autor consegue rir de suas próprias desgraças.
• Papagaio que conta piadas muito pesadas – humor grosseiro e politicamente incorreto. Ideal para espantar visitas chatas.
• Papagaio enciclopédia – espécie de arquivo ambulante com memória privilegiada, onde armazena todo conhecimento humano. Ótimo para as crianças levarem para a escola em dia de prova.
• Papagaio de pirata – papagaio boa pinta, que está sempre sorrindo e disposto a posar para fotografias. O companheiro perfeito para animar aquelas enfadonhas fotos de família em aniversário.
• Papagaio gay – descontraído, simpático, divertido. Adora a balada, cruzeiros marítimos e sabe cantar I will survive imitando os trejeitos da Gloria Gaynor. Indicado para o público GLS.
• Papagaios sertanejos – dupla de papagaios cantores, com vozes em terças e repertório romântico. Microfones não incluídos.
E por aí vai. A coisa não pára.

Kledir Ramil

 


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