No tempo da sabatina

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Perguntei pro meu filho como tinha ido na prova de geografia e ele zombou de mim. Não era prova pai, era teste. Prova mesmo só acontece a cada dois meses. Teste é um negócio mais light, uma avaliação sem muito peso na média final. No meu tempo não havia isso. Todo mês havia um exame rigoroso de tudo o que havia sido estudado.

Chamava-se sabatina e, apesar do nome sugerir um ritual de todo sábado, a periodicidade era mensal. Usava-se uma folha de papel almaço, que deveria estar impecavelmente limpa, para copiar as questões e apresentar as respostas.

No fim do ano prestava-se exame. Não tinha essa moleza de passar por média e nem a barbada da recuperação. Quem rodava tinha que fazer 2a época, o que significava ficar estudando durante todas as férias de verão. Você consegue imaginar um castigo pior do que esse?

Bem, ouvi falar de coisas mais cruéis como alunos apanhando de régua e colocados de joelhos em cima de grãos de milho no canto da sala. Mas isso foi na idade média, um pouco antes de eu nascer.

Na minha época os castigos já eram mais civilizados e o rigor da relação professor-aluno se limitava ao conteúdo da matéria. Como era o caso do Professor Caldelas. Eu suei, mas em compensação aprendi matemática pro resto da vida. Outro exemplo famoso era o meu pai, que além de engenheiro da prefeitura dava aulas de ciências. Ele era conhecido entre os alunos pelo apelido de O Satânico Dr. No, em homenagem ao vilão do filme de 007. O resultado é que até hoje encontro ex-alunos agradecidos que enaltecem seus ensinamentos, obviamente sem comentar o apelido.

Atualmente, essa gurizada tem muitas vantagens para ir à escola, a começar pela qualidade e quantidade inacreditável de opções de tênis. No meu tempo só haviam dois tipos, o Conga e o Bamba. O Kichute só veio depois, é da geração seguinte.

Hoje em dia você entra num shopping e tem loja que só vende tênis. São prateleiras e prateleiras com milhares de marcas, modelos e cores diferentes. Eu fico até meio tonto. Costumo parar admirado na frente dessas vitrines, pois elas dão uma dimensão exata de como o mundo avança a passos largos.

Além do tênis que se usava para fazer educação física, cada criança tinha, para compor o uniforme, um par de sapatos pretos. Em geral, um Passo Doble da Vulcabrás.

Tanto o Conga como o Bamba deixavam um chulé insuportável, mas mesmo com todo avanço da tecnologia da indústria de calçados, até hoje não conseguiram resolver esse problema.

Ontem meu filho convidou alguns amigos e vieram aqui pra casa depois da escola. Teve video game, internet, Off Spring em alto volume, pizza com Coca Cola... Lá pelas tantas meu filho jogou um bumerangue dentro da sala, o que para eles é considerado uma brincadeira normal. O artefato não quebrou nenhuma vidraça, mas casualmente acertou a sobrancelha do Luca. Tive que ligar constrangido pra mãe do garoto. Ele foi parar numa clínica, levou uns pontos e voltou correndo pra farra. Tudo normal.

Depois foram pro campinho jogar futebol, rolaram na grama do quintal e, como costuma acontecer, não consegui fazer ninguém tomar banho.

À noite, entrei no quarto pra ver se estavam dormindo tranquilos e passei mal. Não conseguia respirar, pois haviam 4 pares de tênis, de marcas variadas e seus respectivos sockets imundos.

Ou seja, a culpa não era dos Congas vagabundos.

Acho que são os hormônios da idade

Kledir Ramil

Um presentinho de Nova York

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A produção de um disco é um negócio fascinante, mas dá trabalho. Como tudo na vida, pra ficar bom, precisa dedicação. Quando se está gravando, não sobra tempo pra mais nada, nem pra família.

Kleiton e eu já estávamos há 4 meses dentro de estúdio preparando disco novo e partimos para Nova York, para finalizar gravações e mixagens. Eumir Deodato, que tinha acabado de trabalhar com Björk, fez uma participação luxuosa escrevendo arranjos e tocando piano. Na sequência, masterizamos o disco com Rick Rowe, um craque que trabalha com os principais artistas dos EUA e conta histórias maravilhosas do tempo em que foi técnico de Jimmy Hendrix no lendário Eletric Lady Studio.

Quando o disco ficou pronto, fui até a Toys ‘R Us, a famosa loja de brinquedos que ocupa um prédio de vários andares em plena Manhatan, disposto a compensar com presentes a atenção que não havia conseguido dedicar às crianças nos últimos meses.

Pra Julia, que na época ainda brincava de boneca, comprei várias Barbies. Barbie preta, branca, de princesa, de havaiana... Casa da Barbie, carro da Barbie, noivo da Barbie...

João, meu guri, então com 4 anos, gostava de brincar de carrinho. Cheguei na sessão para garotos e dei de cara com uma enorme moto com motor. Sabe essas motos com 4 rodas e motor elétrico? Pois bem, aquilo é um trambolho pra carregar, mas o preço era tentador, cento e poucos dólares. Uma moto dessas no Brasil custava uma fortuna, eu não poderia comprar. Mas ali, era uma pechincha. Não resisti. Mandei embrulhar e reservar. No dia seguinte, a caminho do aeroporto, eu passaria para pegar.

A produção havia reservado uma van para nos levar até o embarque do JFK. O motorista era um egípcio magrinho, meio esquisito, e consegui convencê-lo de que seriam apenas 10 minutinhos para passar na loja e pegar meu pacote. Só não falei o tamanho do pacote. Era fim de tarde, hora do rush em Nova York e o cara não conseguiu estacionar na porta da Toys. Ficou parado, junto com o Kleiton, me esperando há umas 3 quadras dali.

Na loja, quando me entregaram o embrulho, entrei em estado de choque. O negócio parecia um container de tão grande. É claro que eu não conseguiria carregar aquilo sozinho. Olhei para os lados pra ver se via alguma luz e enxerguei um músico brasileiro que eu havia conhecido uns dias antes.

Desesperado, pedi ajuda e o coitado teve que carregar comigo aquela tralha, do tamanho de uma geladeira, pelo meio da multidão de novaiorquinos mal humorados, que todo final de expediente saem correndo dos escritórios em direção ao metrô. Ainda bem que as calçadas de Manhatan são largas.

Cheguei ao ponto onde estava a van e encontrei nossas malas e instrumentos no meio da rua. O Kleiton tentava acalmar o egípcio que gritava e pulava enlouquecido, porque meus 10 minutinhos tinham virado 1 hora e 15. Consegui convencer o motorista a terminar o carreto, depois de oferecer uma gorgeta generosa e concordar em pagar a multa que tomou por parar em local proibido. Some-se a isso: carregadores no aeroporto, excesso de bagagem no vôo, mais uma van no Brasil e você pode ter uma idéia de quanto saiu a brincadeira.

Ao chegar em casa, minha filha ficou feliz com a coleção de Barbies, me encheu de beijos e foi pro quarto brincar.

Deixei o container na sala e fui acordar o moleque. Quando ele viu o pacotão, os olhinhos brilharam como dois farois. Respirei aliviado e cheguei até a pensar que afinal todo aquele esforço tinha valido a pena. Ajudei-o a abrir o imenso pacote. O que talvez me fascinasse tanto naquela moto amarela com pneus de verdade e motor elétrico é que nos meus tempos de criança, esse tipo de brinquedo era feito de lata e tinha que ficar pedalando pra poder andar.

Sentei o guri na motoca e ensinei a diferença entre freio e acelerador. Ele deu duas voltas pela sala, parou, desceu e, para minha decepção, foi brincar de casinha com a enorme caixa de papelão.

A moto ficou encostada na garagem até enferrufar, mas a caixa de papelão fez o maior sucesso.

Da próxima vez, eu trago só a embalagem.

E pequena, pra caber na mala.

Kledir Ramil

Nome de gente

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Todo mundo conhece a história do cara que se chamava Jacinto Leite Aquino Rego e acha que é piada. Não é. O sujeito foi registrado mesmo com esse nome. Como é que um juiz permite uma maldade dessas com uma criança?

Ouvi falar também de uma Bucetildes, chamada pelos familiares de Dona Tide. Pode uma coisa dessas? Ou o pai bebia ou estava de sacanagem.

Tem também o famoso Um Dois Três de Oliveira Quatro. Tem juiz que registra qualquer coisa, como é o caso da pobre Avagina, homenagem do seu pai às atrizes Ava Gardner e Gina Lolobrigida.

Pra você não achar que eu tô aqui inventando história, aí vai uma lista de nomes próprios registrados em cartórios do Brasil: Adolpho Hitler de Oliveira, Agrícola Beterraba Areia Leão, Sherlock Holmes da Silva, Última Delícia do Casal Carvalho, Himineu Casamenticio das Dores Conjugais.

E mais: Barrigudinha Seleida, Comigo e Nove na Garrucha Trouxada, Antônio Querido Fracasso... Como é que um cara desses vai vencer na vida?

Muitos pais não se dão conta, mas ao batizar o filho muitas vezes já estão traçando o destino e até mesmo determinando a profissão do pobre coitado.

Benedito Camurça Aveludado, só pode ter virado gerente de loja de tecido.

Cafiaspirina Cruz, dono de farmácia em sociedade com Esparadrapo Clemente de Sá e Magnésia Bisurada.

Aricléia Café Chá, essa podia casar com Sebastião Salgado Doce e abrir um bistrô.

Chevrolet da Silva Ford - oficina mecânica.

Colapso Cardíaco da Silva – laboratório de análises clínicas.

Graciosa Rodella – isso é sacanagem.

Hidráulico Oliveira – bombeiro, encanador.

Horinando Pedroso Ramos – fábrica de penicos, junto com Mijardina Pinto.

Hugo Madeira de Lei Aroeira – loja de material de construção.

Hypotenusa Pereira – professor de geometria descritiva.

Céu Azul do Sol Poente, poeta.

Jacinto Fadigas Arranhado – trabalhador da construção civil.

Janeiro Fevereiro de Março Abril – o pai devia ser alcoólatra.

José Padre Nosso - religioso. Companheiro de quarto, no convento, de Padre Filho do Espirito Santo Amém.

José Teodoro Pinto Tapado – sei lá, um sujeito com um nome desses deve ter tido tanto problema na infância que foi estudar psicologia.

Jovelina Rosa Cheirosa, floricultura.

Lança Perfume Rodometálico de Andrade, cantor de banda punk.

Manganês Manganesferro Nacional – chefe do almoxarifado da Usina Siderúrgica de Volta Redonda.

Manoel Hora Pontual, locutor da Rádio Relógio.

Manoel Sovaco de Gambá – o pai era metido a engraçadinho ou então doente mental.

Manolo Porras y Porras – filho de paraguaio.

Veneza Americana do Recife – prima de Napoleão Estado do Pernambuco – funcionária pública da prefeitura. Adivinha de onde.

Omenzinha – sinceramente, deve ter virado travesti ou drag queen.

Oceano Atlântico Linhares – irmão gêmeo de Oceano Pacífico – marinheiros.

Pacífico Pacato Cordeiro Manso, diplomata.

Produto do Amor Conjugal de Maricha e Maribel – não sei onde essa gente estava com a cabeça. Isso é coisa de anos 70, movimento hippie... Se a criança sobreviveu, deve ter mudado de nome.

Restos Mortais de Catarina – funcionária do Instituto Médico Legal.

Sansão Vagina – ginecologista.

Simplicio Simplório da Simplicidade Simples – rapaz complexo.

Vitor Hugo Tocagaita – se não for músico, não vai arranjar emprego.

Sete Rolos de Arame Farpado – dizem que o pai desse pobre coitado era analfabeto e pediu pra alguém anotar num pedaço de papel o nome que queria dar ao filho: Paulo. Na hora do registro, confundiu com outro papel que levava no bolso e ficou por isso mesmo.

Pobres crianças!

Porque não batizaram todo mundo de João da Silva?

Kledir Ramil

Atletas geneticamente modificados

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No futuro haverá atletas geneticamente modificados. Máquinas de músculos criadas especialmente para bater recordes. Os puristas remanescentes, adeptos do naturismo, se rebelarão com protestos, manifestações e até mesmo processos judiciais, para tentar estabelecer uma diferença entre as duas espécies. Tá certo. Como é que você vai competir, por exemplo, contra um cara com o dobro da capacidade pulmonar e o coração do tamanho de um bonde?

Mas a justiça esportiva também estará dividida entre juizes naturebas e transgênicos, ou seja, magistrados criados pelo processo natural de concepção e outros produzidos em laboratório, com alterações na espiral de DNA e, sabe Deus, com que tipo de conceitos éticos.

A coisa vai ficar confusa.

Imaginem um goleiro com 2,5 metros de altura e 6 braços. Será horroroso, mas fará sucesso. O problema é que as crianças adoram imitar seus ídolos. Hoje em dia é só o corte de cabelo, mas pense na idéia do seu filho querendo ficar igual a um goleiro desses.

Os atacantes de um time de futebol poderão ser encomendados com uma mistura de força física, domínio técnico e computador de bordo. Assim os técnicos poderão programá-los para ajudar na marcação. Já pensou?

Inevitavelmente irão surgir algumas aberrações como os “castratis”, uma linhagem de artilheiros assexuados, de voz fina e pensamento fixo: fazer gols. É o tipo de jogador que não vai perder tempo nem energia com carros importados, pagodes e noitadas com modelos-atrizes.

O mercado paralelo vai vender amostras de DNA do Ronaldinho Gaúcho para quem quiser desenvolver embriões a partir de células tronco e criar clones especialistas na posição do craque. Ou até mesmo pra quem quiser aumentar os tamanho dos dentes incisivos.

Mas a grande sensação no futebol será o técnico com cabeça. Um profissional especial, com um cérebro turbinado com pelo menos mais uns 2 ou 3 neurônios, além do Tico e do Teco.

O árbitro de futebol será totalmente criado em laboratório, portanto imune ao tradicional xingamento da mãe do juiz por torcedores fanáticos.

Os jogadores de basquete terão, em média, 3 metros de altura. Os de vôlei, braços maiores que as pernas. Os atletas de corridas de obstáculos, ao contrário, terão pernas enormes e bracinhos pequenos, como os cangurus.

O recorde de velocidade da prova dos 100 metros rasos, que hoje está em 9,77 segundos, será pulverizado depois que lançarem os corredores com pernas que começam no pescoço.

No boxe e no futebol americano, os homens-tanques irão rivalizar com os montanhas, os muros e os jamantas.

Mas não pense que todos os esportistas serão gigantescos. Não, os jóqueis e os pilotos de fórmula 1 terão mais ou menos 1 metro e 20 cm de altura e pesarão no máximo 30 quilos.

Na natação, homens anfíbios terão pés de pato, mãos de pato e pele de golfinho. As mãos desses bichos, quer dizer, desses atletas, terão uma membrana fina entre os dedos, o que irá melhorar muito o desempenho dentro da piscina. Mas vai ser difícil um cara desses conseguir tocar guitarra.

Na ginástica olímpica teremos novas Daianes apresentando, quem sabe, até mesmo um quíntuplo twist carpado ao som do Brasileirinho. Em rotação acelerada.

Vela, hipismo, judô, ping-pong, tênis, triatlo, remo, tiro com arco, halterofilismo. Nos mais variados esportes teremos campeões biônicos, recordistas e gente cada vez mais esquisita.

Enfim, a coisa vai virar um circo.

Acho melhor não mexerem na estrutura orgânica dos atletas. Tenho medo que isso vire moda e as mulheres comecem a ficar parecidas com aquelas nadadoras da antiga Alemanha Oriental. Lembra?

Tomavam hormônios para ficar musculosas e ganhavam todas as medalhas. Em compensação, depois das olimpíadas, voltavam pra casa e não conseguiam arranjar namorado.

Também pudera. Ninguém gosta de mulher de bigode.

Kledir Ramil

As aventuras de Rodeclides

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Liane certa vez comprou um fusca e batizou de Rodeclides. Como era a única da turma que tinha carro, o Rodeclides virou “o nosso carro”. Tô falando de anos 70, uma época em que vivíamos em bando, dividindo os sonhos e as despesas. Eu usava cabelos até a cintura, calça boca de sino e não lembro metade das histórias que contam a meu respeito.

Rodeclides era o nosso herói, nosso parceiro de aventuras. Quando a gente ia acampar, ele carregava a tralha: barraca, mochilas, sacos de dormir, engradados de cerveja, uns pacotes de biscoitos, toca-discos, churrasqueira, violão e o violoncelo do Jorge (sim, eu disse violoncelo). Ainda entravam, pelo menos, a dona do carro e um de nós de motorista (pois ninguém era louco de deixar ela dirigir na estrada). Quem não cabia no lotação, pegava carona na free way em direção ao paraíso das praias de Santa Catarina.

Liane não entendia nada de automóveis, só sabia que era preciso botar gasolina de vez em quando. Um dia, estava em casa vendo televisão e ficou impressionada com o apresentador ensinando a colocar água no radiador. Entusiasmada com a novidade, sem ter a menor idéia de que motor de fusca é refrigerado a ar, encheu uma chaleira e foi até a garagem. Depois de um tempo, telefonou para a oficina pedindo um reboque:

“Olha moço, eu acho que caiu um pouco de água no motor... Quanto? Umas 3, 4 chaleiras, mais ou menos!”.


Além de meio aérea, Liane também não enxerga direito. Andar com ela de madrugada era sempre uma situação de risco. Ficava atordoada com tantas luzes de faróis, postes e luminosos, e nunca sabia se o sinal estava aberto ou fechado. Imagine o perigo, um fusquinha lotado, disparado no meio da noite, a esquina cada vez mais perto e a louca no volante aos gritos:

“Qual é a cor que tá? Qual é a cor que tá?”.

E só de sacanagem cada um gritava uma cor diferente:

“Vermelho! Verde! Preto! Lilás! Cor de abóbora!...”.

Graças a Deus, nunca houve maiores problemas. Só algumas multas de trânsito.

Numa dessas noites, que para nós ficou antológica, Liane deu carona para Branquinha, minha irmã. Vinha dirigindo e conversando, distraída como sempre, e de repente o carro começou a sacolejar de maneira absurda:

“Bah, essas ruas de Porto Alegre... Cada vez mais esburacadas”.

“Cuidado!”, gritou Branquinha. A freada violenta evitou que o fusca batesse no enorme portão. Desceram assustadas e só então perceberam que estavam paradas na entrada do Pensionato Santa Cecília, no alto da ladeira.

“Liane, nós subimos de carro a escadaria da igreja!!!”.

E ela, às gargalhadas:

- “Não conta pra ninguém! Não conta pra ninguém!”.

Depois de alguns anos de serviço prestado, provavelmente cansado de tanta aventura, Rodeclides começou a engasgar. Coisa que uma boa regulagem resolveria, mas Liane decidiu que estava na hora de vendê-lo:

- “Não agüento mais! Vou comprar outro melhor”.

Foi vendido sob protestos. Ficamos a pé. Tristeza geral. O dinheiro foi guardado na poupança e ela começou a trabalhar e economizar para comprar um carro novo. Vários meses depois, com a conta recheada, ela mergulhou nos classificados e conseguiu o que queria. Ligou feliz para todo mundo e fomos correndo, na maior excitação, conhecer nosso...

Foi um choque! A cena era inacreditável! Ficamos atônitos, ali parados. Quem rompeu o silêncio foi Júnior, o irmão dela:

- “Liane!!! Tu compraste o Rodeclides de novo!?!”.

Sem se dar conta, ela havia comprado o mesmo carro de volta. Pelo dobro do preço que havia vendido.

Kledir Ramil

Sinal dos tempos

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Outro dia fui esquentar uma comida e, quando me dei conta, estava digitando minha senha do banco no forno de micro ondas. “Calma”, pensei comigo mesmo, “vamos com calma”. As coisas estão ficando muito complexas e aceleradas para a minha cabeça, um sujeito que comia putchero feito em fogão de lenha.

No banco, além dos números de agência e conta, tem uma senha eletrônica e outra para o cartão, que por sua vez tem outro número de 5 dígitos que é preciso decorar. Só aí são 5 sequências de números que, por motivo de segurança, não devem repetir data de nascimento, telefone e placa de carro.

Minha cabeça não está conseguindo registrar tudo o que precisa. O CPF eu sei, mas o RG volta e meia tenho que dar uma conferida. Teve um dia que fui estacionar o carro num shopping e a moça perguntou:

“Qual o número da placa?”.

“L, A... meia, nove...” - eu tinha uma vaga lembrança. “Se não me engano é cinza claro”, respondi. Tive que descer pra confirmar.

Cartão de crédito é um inferno. Tem um número quilométrico e uma senha especial para sacar dinheiro em caixa eletrônico. O pior é quando se precisa falar com alguém sobre a sua fatura. 0800 alguma coisa.

“Bem-vindo à Central de Atendimento do cartão Tal. Sua ligação é muito importante para nós. Se você já é cliente, digite 2, se ainda não é cliente, digite 3... Digite pausadamente o número do seu cartão”.

Aí você tem que desligar, procurar o cartão e voltar à Via Crucis.

“Bem-vindo à Central de Atendimento, etc etc... Para saber os últimos lançamentos, digite 1. Melhor dia para pagamento, digite 2. Para 2a via de extrato, digite 3. Para extrato via fax...”.

A essas alturas você já está tentando conversar com a máquina.

“Minha senhora, tô precisando de uma informação...”.

Pi pi pi. Cai a ligação e tem que começar tudo de novo. Quando lá pro final do dia você conseguiu cumprir todas as tarefas da gincana, ouve finalmente a voz da garota do tele atendimento:

“Maria Clara, em que posso servi-lo?”.

Assim que você percebe que aquilo não é mais uma gravação, é voz de gente mesmo, seu coração dispara:

“Maria Clara, meu amor, tô precisando uma informação...”.

Geralmente ela não resolve nada e diz que é preciso ligar para outro número.

Na internet tem a senha da rede, a senha do windows, a senha do provedor, o código não sei do que... E em cada site que a gente se cadastra tem que criar uma senha pra poder fazer o login. E não pode anotar em lugar nenhum, pois há o risco de alguém ler e usar as informações. Solução, guardar na memória. E haja cabeça. Tô pensando em comprar mais um pente de memória e tentar enfiar no cérebro.

Número de telefone, então, virou uma praga. Em casa tenho 3 linhas fixas. Só consigo lembrar da mais antiga. Celular tem o meu, o da minha mulher, o da minha filha, o do meu filho, o do motorista e o da cozinheira. Meu irmão, com quem eu falo todos os dias, tem 3 ou 4 linhas, nem sei, mais os celulares (dele, da mulher, dos filhos, etc). O escritório tem 3 linhas e minha empresária usa 2 celulares. Um pra cada orelha. Some-se aí meu produtor executivo, assessoria de imprensa, técnico de som, técnico de luz, cada um dos músicos... não dá pra guardar tudo de cor.

Por isso inventaram o telefone com memória, que serve para lembrar aquilo que a gente naturalmente não tem condições de armazenar. Mas acontece que nunca está por perto quando mais se necessita. Semana passada saí sem o celular e precisei ligar pra casa. Como o número que eu lembro estava ocupado, provavelmente com a minha filha adolescente marcando alguma “parada” com os amigos (o que pode demorar uma tarde inteira), tive que ligar de um orelhão, a cobrar, para o escritório para conseguir entrar em contato com minha própria mulher.

O maior trauma psicológico dos novos tempos chama-se “pane no computador!”. Como todo mundo, já vivi a experiência de ver “dar pau no HD” e perder trabalhos importantíssimos. Hoje em dia, mais esperto, aprendi a fazer back up. Inclusive dos endereços de email. Porque certos amigos você só consegue encontrar no universo virtual da internet, e se perde o endereço eletrônico, nunca mais.

Sempre reclamo um pouco de não poder estar fisicamente com as pessoas que eu gosto. Por outro lado, agradeço essa evolução tecnológica dos meios de comunicação. Tenho amigos espalhados pelos 5 continentes e, essa porcaria digital, pelo menos tem me aproximado deles.

É uma ilusão? Quem me garante que o mundo real também não é?

Kledir Ramil

ET

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Eu nunca vi, mas todo mundo fala que os extraterrestres são baixinhos, magrinhos e carecas. A cabeça parece um ovo enorme com a ponta virada para baixo e os olhos são dois faróis bojudos que ocupam quase toda a face. Se é que se pode chamar aquilo de face. Pelo tamanho das orelhas, devem ser meio surdos e também devem ter sérios problemas de obstrução nasal, pois o narizinho é igual ao daquele cantor que fez várias cirurgias e era preto quando nasceu.

Sempre ouvi dizer que são muito inteligentes, por isso o cérebro é tão grande. Há várias teorias explicando o cabeção dos alienígenas, mas os dedos finos e compridos, ninguém comenta. Devem ser exímios pianistas. Li em algum lugar que seriam resultado de um processo darwiniano de seleção natural que, de geração em geração, teria adaptado as mãozinhas para conseguirem tirar meleca daquele nariz apertado. Não sei.

O mais surpreendente é que todas as descrições físicas de ETs, feitas por pessoas que tiveram contatos imediatos do 3o grau, coincidem. De Roswell a Varginha. O único diferente é o do Spielberg que parece uma tartaruga sem casco com o pescoço espichado. O bichinho é horroroso, mesmo assim fez o maior sucesso e conquistou todo mundo com sua simpatia. Tinha até um dedo indicador que acendia uma luz na ponta, desde que você usasse uma bateria de 9 volts (pelo menos o modelo que o meu filho tinha aqui em casa). Mas é um espécime sem respaldo científico, apenas mais um delírio do planeta Hollywood.

Além das características físicas, o comportamento desse pessoal das galáxias também é sempre igual. São arredios, meio furtivos, não gostam de muito papo e muito menos de badalação. Caso contrário, poderiam anunciar em que vôo estão chegando e seriam recepcionados por uma multidão no aeroporto de Brasília, como a gente faz com a seleção de futebol. Quando ganha.

Um detalhe interessante é que não usam roupa, óculos, relógio, documentos, nem chave de casa. Nunca soube de um ET de brinco ou com uma echarpe na volta do pescoço. Em termos fashion, são um fiasco, um fracasso total. Economicamente também devem estar com problemas, pois o comércio vai vender o quê? Shampoo pra careca?

Como eles andam sempre pelados, as pessoas acabam olhando tudo, por curiosidade. E ficam todos intrigados porque não dá pra enxergar nada no meio das pernas. Isso comprova que evoluíram tanto que não praticam mais o método tradicional de concepção de filhos, usam telepatia. E pelo jeito também não fazem xixi.

Agora, me explica uma coisa. Como é que uma civilização chamada evoluída chega a esse ponto? Abstinência total dos prazeres da carne! Não consigo entender como é que uns caras inteligentes, formados nas melhores escolas do universo, esquecem dessa questão fundamental que é exatamente o que faz da vida uma aventura maravilhosa. Alguma coisa saiu errada. Criaram um mundo perfeito, sem nenhum tipo violência, sem contas pra pagar... E então, com tudo isso resolvido, o sujeito chega em casa no fim da tarde, a fim de relaxar um pouco, abre uma cervejinha, olha pra patroa e o que é que ele vê? Uma ETéia daquelas, sem bunda, branquela, zolhuda e careca. Realmente não dá pra encarar. Qualquer um perde o apetite. Só apelando pra telepatia.

Posso estar enganado, mas acho que eles chegaram a um impasse e estariam hoje vivendo uma grave crise existencial, questionando se o domínio da tecnologia de ponta e dos códigos de engenharia genética vale tanto sacrifício. Por isso estariam nos espionando, para aprender como é que se faz.

Aí começa a minha preocupação, pode ser que eles andem atrás de fêmeas. Imagina se chegam na praia num verão carioca, sabe lá com quantos anos de atraso, e encontram aquela generosa oferta de morenaças popozudas. Capaz de se criar um constrangimento diplomático de proporções cósmicas.

Proponho uma atitude imediata e radical para tentarmos preservar a raça humana. Junta um carregamento daquelas tartarugas gigantes de Galápagos (que são a cara do ET do Spielberg), enfia num foguete e manda pro espaço, com um bilhetinho explicando como é que tira a casca.

Se não der certo, podem se preparar para o pior. É guerra!

Kledir Ramil

Um bolinho com os amigos

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Cheguei de viagem cansado, depois de uma semana na estrada. Minha filha completa hoje 15 anos de idade. É uma data significativa, por isso fiz questão de voltar correndo, para um jantar em família, alguma coisa assim. A festa mesmo já aconteceu (lua cheia, 500 convidados, depois eu conto). Foi há 10 dias, mas até agora ainda sinto a musculatura das pernas. Hoje ela resolveu fazer só um bolinho com alguns amigos mais chegados. Devem ser uns 30. Estão lá em cima, na sala, escutando sei lá o quê num volume ensurdecedor. A coisa não pára. Preciso de férias. Perdi 3 quilos nos últimos meses. Você não tem idéia da falta que fazem 3 quilos para um sujeito com a minha estrutura física.

Está fazendo um calor senegalês. Puta que pariu! Começaram a cantar karaokê. E desafinado... Vou tomar um copo d’água.

Passei pela sala. Já somam 50 adolescentes. Cada um mais desafinado que o outro. Acabei de chegar de viagem. Tô exausto. Me disseram que era só um bolinho. Acho que esse negócio vai longe. Não sei nem se tem alguma coisa pra comer. A empregada sumiu. Começou a me dar fome. A comida do avião estava péssima, só comi um rabanete. A passageira ao meu lado segurou o meu braço como quem examina uma mercadoria e perguntou como é que eu conseguia me manter ativo comendo feito um passarinho. Puta que pariu! Chegou um garoto com uma guitarra. Pegaram meu amplificador emprestado. Se queimarem alguma válvula alguém vai ter que pagar. Começaram a sapatear em cima da minha cabeça. Deve ser algum tipo de dança. Vou pegar um sandwich.

Não consegui comer nada. É que no momento em que subi estavam chegando os atores. Esqueci de contar que minha mulher está produzindo uma nova peça de teatro e hoje tem ensaio. Sabe onde? No meu estúdio. Metade do elenco de Malhação. As adolescentes ficaram loucas com os garotos da TV. Tive que pedir calma, afinal o pessoal precisa trabalhar. Ainda bem que a casa é grande. Consegui convence-los a desligar o karaokê, pois já tinham arrebentado um alto falante do meu som. Minha filha pediu para eu colocar um filme. O pessoal acalmou. Quando fui tentar preparar o sandwich, já tinham desistido do filme e me pediram pra ajudar a tirar um CD que tinha trancado dentro do aparelho. Consegui salvar o disco do Falamansa e começou o forró. Alguém me puxou pelo braço e, só Deus sabe como, fui parar no meio do fandango. Um garoto enlouquecido, com duas baquetas na mão, tocava bateria no sofá de veludo. Uma turma jogava bola no meio da sala, atrapalhando quem queria namorar. Olhei para um dos quadros do Scliar e notei que havia uma flor a mais. Só quando me aproximei é que me dei conta que não era flor, era um pedaço de pão de queijo. Minha mulher apareceu com um bolo na mão e gritou: “Olha o Parabéns!”. Foi uma alegria geral. A gurizada toda, mais o elenco de Malhação, cantaram aos berros uma ópera quilométrica que começou com a tradicional versão do “Happy Birthday”, emendou no “Com quem será” e continuou com várias outras árias totalmente desconhecidas para mim (com exceção de “Cai Cai Balão”). Nem o Parabéns é mais o mesmo. Tô ficando velho! Tudo bem. A essas alturas eu já tava meio tonto. Não de bebida, pois sou abstêmio, mas de fome, pois só havia comido um rabanete o dia inteiro. Consegui agarrar um brigadeiro, mas um moleque safado passou a mão no meu doce. “Aí tio, valeu!”. Chamei minha filha e lembrei que era preciso cortar o bolo. Coisa mais linda do pai, cortou a primeira fatia em duas partes e deu uma pra mãe e outra pra mim. Só não fui às lágrimas pra não pagar mico. Me escondi na cozinha pra finalmente tentar comer em paz o meu pedaço de bolo e o telefone tocou. Meu irmão de Pelotas queria cumprimentar a aniversariante e aproveitamos pra colocar as vidas em dia. Quando larguei o telefone minha meia fatia de bolo havia sumido.

Desci pro meu quarto para tentar organizar as idéias. Foi quando o estômago mandou um recado para o cérebro avisando que eu precisava urgentemente comer alguma coisa. Lembrei do meu pote de granola, corri pra cozinha e ele estava lá, intacto. Essa gurizada come tudo, até meus sucrilhos, mas aveia eles não encaram. Foi a minha salvação.

São 2:00 horas. Finalmente a casa acalmou. O ensaio terminou e o pessoal do teatro tá lá em cima de papo furado. A galerinha da festa começou a dispersar. Amanhã tem aula cedo. Ficaram uns 10 pra dormir aqui, entre meninos e meninas. Estão todos socados lá no quarto, de luz apagada.

Acho que vou ter que passar a noite acordado, pra poder ficar de olho. Afinal a guria só tem 15 anos!


Kledir Ramil

 


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