Escrever letra de música popular é uma atividade extremamente agradável, mas dá trabalho. Chico Buarque declarou recentemente: “A letra que você faz para uma música (...). Já tem uma forma fixa, você não pode alterar nada. As pessoas comparam muito com poesia, mas não tem nada a ver. É outra coisa. É muito mais difícil.
O que Chico quer dizer é que além de respeitar métrica, prosódia e rima, é preciso que a coisa toda ainda faça algum sentido e tenha um mínimo de beleza.
Na hora de escrever a letra de uma canção é importante saber o que se quer dizer. Qual é o assunto, do que se trata. E mais, o texto tem que refletir o espírito da música. As baladas melosas pedem uma história de amor, um rock pesado precisa falar de coisas que podem ser gritadas e não sussurradas no ouvido.
Paul McCartney, um dos maiores compositores de música popular do nosso tempo, cometeu um equívoco antes de concluir sua canção mais famosa. George Martin e John Lennon ouviram Paul cantando “Schrambled Eggs”, uma bela canção de amor que falava de “ovos mexidos” e comentaram: “A música é linda, mas a letra não tem nada a ver com a melodia”. Paul desconsiderou essa primeira versão, teve a humildade de reescrever tudo de novo e criou uma das músicas mais gravadas e executadas de todos os tempos: “Yesterday”.
Nesse sentido é importante que o compositor saiba respeitar o delírio criativo, mas também tenha um pouco de autocrítica e se permita lapidar a obra se for para chegar a um resultado melhor. As parcerias têm essa vantagem de poder somar pontos de vistas diferentes na hora da criação. Às vezes o parceiro nem tem uma participação efetiva, como nesse caso, mas acaba sendo uma presença fundamental ali naquele momento.
Outra história interessante é a do processo de gestação de Garota de Ipanema. Tom Jobim e Vinícius de Moraes escreveram um musical chamado Blimp, que contava a chegada de um extraterrestre na terra. Dentre as várias músicas compostas, estava a primeira versão de Garota de Ipanema. A letra, meio depressiva, descrevia o momento em que o alienígena vinha sobrevoando Ipanema com seu disco voador e enxergava a tal garota:
“Vinha cansado de tudo, de tantos caminhos
Tão sem poesia, tão sem passarinhos
Com medo da vida, com medo do amor
Quando na tarde vazia, tão linda no espaço
Eu vi a menina que vinha num passo
Cheia de balanço a caminho do mar...”
Por sorte, o musical Blimp foi mal recebido e nunca chegou a ser montado. Algum tempo depois, Vinicius retomou a canção e escreveu uma nova letra, muito melhor. Seria a versão definitiva daquela que se transformou num símbolo da música popular brasileira e uma das canções mais tocadas em todo o mundo.
“Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela a menina que vem e que passa
No doce balanço a caminho do mar
Moça do corpo dourado do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar...”
Alguém comentou rindo que ao escrever a primeira versão provavelmente Vinícius não havia bebido, por isso estava tão pouco inspirado. Bobagem. Nossos melhores autores, com ou sem uísque, sempre revisam a obra depois de pronta. Só pra citar um exemplo, Joaquim Osório Duque Estrada escreveu 6 versões diferentes para o Hino Nacional.
O
importante nessa história é que, graças a Deus, Vinícius
reescreveu os versos e nos abençoou com Garota de Ipanema, uma canção
antológica que poderia ter se extraviado.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Em ação terrorista orquestrada por minha filha adolescente e seus amigos perturbados mentais, um bando invadiu a Livraria Saraiva do shopping New York City Center, no Rio de Janeiro, retirou meu livro de crônicas da prateleira onde estava escondido e colocou-o escancaradamente na estante dos mais vendidos.
Tentaram repetir o movimento na Siciliano do Fashion Mall, mas foram detidos
pelos seguranças. Tive que ir até a delegacia liberar o pessoal,
com a ajuda do meu advogado e a explicação de que "isso
faz parte dos excessos e arroubos da fase adolescente". O delegado me
olhou por cima dos óculos, suspirou e mandou soltar todo mundo. Na
saída me advertiu que se o fato se repetisse, eu seria responsabilizado.
O objetivo da garotada era fazer meu livro chegar ao primeiro lugar da lista de mais vendidos da Veja. A intenção era boa, mas os métodos usados eram um pouco radicais. Contra-argumentaram que se tratava de uma ação de marketing, que os tempos estão competitivos, que a coisa tá uma guerra, etc.
Depois de ouvi-los, expliquei que uma manchete no noticiário policial não ajuda a vender livro, pelo contrário, pega mal. E, além disso, a minha pele agora estava em risco. Pedi um pouco de moderação, o que em se tratando de adolescentes é o mesmo que nada.
A verdade é que ficaram eufóricos com o estardalhaço provocado. "Poeira, levantou poeira!". Um mais excitado salientou o espírito de equipe e surgiram palavras de ordem como "a galera unida jamais será vencida".
Uma garota com cabelos "da cor da Fernanda Lima" e uma argola no nariz, sugeriu que criassem uma Brigada Revolucionária com o objetivo de interferir e determinar o que deve e o que não deve ser oferecido pelas livrarias do Brasil. Janjão, o careca de bermudão, cheio de tatuagens, foi mais longe. Deviam retirar das prateleiras e incinerar em praça pública os livros que fossem reprovados por um certo Conselho Revolucionário, a ser formado por ele, a namorada e "o pessoal que toca na banda".
Entusiasmados com o resultado da primeira operação dentro dos shoppings, a Brigada Revolucionária começou a organizar o seqüestro do escritor Paulo Coelho, cujo resgate seria a diminuição do preço do pão de queijo na cantina da Escola Parque. Graças a Deus e às minhas ameaças, desistiram da idéia.
Na seqüência, lançaram minha candidatura à Academia Brasileira de Letras e programaram passeatas, distribuição de panfletos e performances artísticas com leituras de trechos da minha, digamos assim, obra.
O projeto seria lançar meu nome para disputar a vaga do Marco Maciel. Sim, eles sabem que o Marco Maciel ainda está vivo, mas como ele é magrão que nem eu, a idéia é que poderíamos ocupar a mesma cadeira. A proposta era boa, mas consegui convence-los de que não ia dar certo.
Depois de alguns dias de intenso bombardeio revolucionário, os ânimos começaram a acalmar, pois ia rolar uma rave no Morro da Urca e todos estavam a fim de ir, o negócio ia bombar, precisavam agitar a galera... enfim, entraram noutra.
Ontem
perguntei para minha filha se a mobilização literária
da Brigada Revolucionária tinha sido motivada pelo entusiasmo com a
leitura do meu livro.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Antigamente, no tempo em que eu era criança, as casas eram compridas,
tinham os quartos na frente, um longo corredor, depois vinha a sala de estar,
a salinha de costura, a copa, a cozinha, a despensa, as dependências
de empregada e, só lá nos fundos, finalmente, um banheiro que
servia toda a família.
Isso sem falar das casas que tinham banheiro no fundo do quintal, separado
da casa. Pra quem nasceu e cresceu numa terra fria, como eu, ir ao banheiro
no inverno, no meio da noite, era uma tortura.
Por isso, naquela época usava-se penico. O penico, pra quem não
sabe, é um recipiente com alça, tipo uma xícara gigante,
que ficava em baixo da cama e servia para se fazer xixi no meio da noite,
sem precisar atravessar a casa inteira.
O penico foi uma das grandes invenções da humanidade, como a
roda, a água encanada e a chapa de raio X. Ninguém sabe a origem
do vocábulo e nem quem foi o inventor do penico. Não sei se
o cara ficou envergonhado ou com medo de ver seu nome ligado para sempre a
um vaso de urinar. Bobagem, teria conhecido a glória e se cobrasse
direitos autorais, teria ficado milionário.
Nos meus tempos de guri, eu usava um penico de metal esmaltado de branco.
Tinha um som interessante e cheguei a usa-lo, junto com umas panelas velhas
e um balde, para montar a bateria da minha primeira banda.
Havia uns penicos vagabundos, feitos de plástico, vendidos em supermercados.
Eram baratos, tinham cores variadas e você podia escrever seu nome nele.
Dessa forma, poderia ter o seu próprio penico. Um urinol privado. Como
se isso fosse algum privilégio.
Há pouco tempo, vi num museu um penico de louça lindo. Uma peça
belíssima de porcelana, com desenhos rupestres bucólicos. No
primeiro momento achei que era uma sopeira, mas depois o guia me explicou
qual o tipo de líquido que costumava conter. Ou seja, não era
aconselhável para o consumo.
As coisas foram evoluindo, graças a Deus e aos arquitetos, e hoje em
dia já temos banheiros ao lado dos quartos. Isso fez com que os penicos
fossem definitivamente aposentados.
As crianças de hoje já são criadas com essa mordomia
do banheiro perto. Acho que é por isso que ninguém mais faz
xixi na cama.
Outro dia, meu filho me falou que queria tocar bateria. A primeira idéia
que eu tive foi juntar alguns penicos e montar um instrumento pra ele. Falei
que queria fazer com minhas próprias mãos uma bateria igual
àquela da minha primeira banda. Ele me olhou meio desconfiado, mas
topou. Fui atrás e só então me dei conta que não
existem mais penicos, nem aqueles vagabundos de plástico. Pra piorar,
minha mulher não concordou em emprestar as panelas da cozinha.
Tudo bem, pelo menos assim eu ganho um tempo pra ver se ele desiste de ser
baterista e me pede uma flauta doce.
Já pensou aquele guri com 2 baquetas na mão, batucando o dia
inteiro dentro de casa?
É de situações como essa, em que você é
levado à loucura, que vem a expressão “pedir penico”.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Queridos amigos:
Por aqui, vamos levando.
Esta última semana foi muito interessante. Como sempre, pegaram mais alguns políticos roubando. Tudo normal. Já faz tempo que a coisa anda assim, sem controle, a novidade é que a lama está aparecendo mais. Estão mostrando a sacanagem na TV, nos jornais e nas revistas. Acho que já é um começo. Pelo menos o povo fica sabendo onde vai parar o dinheiro dos impostos, no bolso dos espertos. Esses caras fazem na vida pública o mesmo que fazem na privada.
O mais impressionante é que ninguém vai pra cadeia.
Eu não sei o que acontece com o Brasil. Malandro de terno e gravata rouba pra cacete, milhões e milhões do nosso dinheirinho suado, todo mundo fica sabendo e ninguém é preso. Por outro lado, há poucos dias finalmente conseguiu sair da cadeia uma empregada doméstica que ficou mais de um ano trancafiada por roubar um frasco de shampoo numa farmácia. Eu disse um frasco de shampoo!!! Dá pra acreditar?
O negócio então segue o mesmo, se você for roubar tem que roubar muito. Roubar pouco dá cadeia.
Aqui no Rio de Janeiro, nossa governadora Rosinha e seu marido Garotinho, estão proibidos pela justiça de participar das próximas eleições, pois compraram votos e deram presentes nas eleições passadas. Teve até distribuição de casa a R$ 1,00 (se eu soubesse tinha ido a Campos pegar uma meia dúzia). E o cara quer ser presidente da República! Olha só que perigo.
No mais, a vida continua igual, aquilo de sempre. A gasolina tá cheia de solvente, os juros estão nas alturas, a grana cada vez mais curta e volta e meia dá um tiroteio entre a Rocinha e o Morro do Vidigal.
Ontem mesmo comecei a cavar um buraco no meu terreno pra fazer um abrigo antiaéreo. Sei lá, já tô com medo de tudo. Pelo jeito, a próxima ameaça é uma guerra com a Argentina. Esses caras são malucos, é só observar o Tevez e o Kirchner. Se perderem o jogo contra a nossa seleção pelas eliminatórias, são capazes de cometer uma loucura.
A grande vantagem que a gente tem, e da qual sempre se orgulhou, é que Deus é brasileiro. Nosso país, apesar de tudo o que acontece, é uma terra abençoada. Tem sol, praia, gente bonita e não está exposto a catástrofes da natureza, como terremotos, tsunamis e furacões.
Não estava! Acabou a moleza. Semana passada aconteceu o que faltava. Um tornado violento andou chicoteando pelo interior de São Paulo. Isso mesmo, por incrível que pareça, um tornado. E não estou falando da Flórida, eu disse Brasil - São Paulo.
Acabou-se o que era doce. Até a natureza começou a pegar pesado com a gente. Se você foi para os Estados Unidos pra ganhar a vida, fique por aí. Não volte. A coisa aqui tá preta!
Já tô pensando em fazer o mesmo. Inspirado na novela das oito, vou me mudar para a América. Vou falar com meu chefe, o Dr. Roberto Lima, pra me dar um aumento e me levar pra New Jersey como “editor assistente para assuntos aleatórios do Brazilian Voice”.
Sei lá, posso escrever uma coluna sobre vinhos, um negócio bacana, que tá na moda.
Sim,
eu sei que eu não bebo, mas não espalha.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Indignado com o excesso de tendências e subdivisões da vanguarda
sexual do gênero humano, meu amigo Jota Maçaneta não participou
este ano da Parada do Orgulho Gay. Maçaneta é um cara inteligente,
divertido e se considera um homossexual clássico.
- “Eu sou fundamentalista! Faço parte de uma linhagem tradicional e histórica que vem desde os tempos dos gregos. É gente que gosta de transar com gente do mesmo sexo, só isso. A única classificação que havia era pra saber quem ia ficar por cima e quem ia ficar por baixo. Hoje em dia, com todas essas novidades, já não sei mais onde me encaixar. Em todos os sentidos”.
E completou debochado, caindo na risada:
- “Essa Parada tá virando coisa de veado. Muita purpurina, muita lantejoula e pouco...” (fazendo um gesto obsceno). “Que, afinal de contas, é o que interessa”.
Achei seu comentário um exagero, mas dei um desconto, pois vi que não estava falando sério. Continuei escutando:
- “Antes era a tal de GLS: gays, lésbicas e simpatizantes. O termo Gay eu gosto, apesar de ser coisa de americano, puro marketing para nos empurrar, no bom sentido, aquelas parafernálias tecnológicas que eles inventam. Além, é claro, dos pacotes turísticos. Aqueles veados estão faturando os tubos nas nossas costas. No mau sentido.
Gay quer dizer alegre, tem tudo a ver com esse meu espírito descontraído. Eu era um cara depressivo, levei anos para sair do armário, me libertar das pressões da família e da sociedade. Não vou jogar fora o tempo que eu perdi deitado num divã. Isso sem falar dos sofás, das camas, das mesas de cozinhas, dos banheiros públicos...”.
Aproveitei para perguntar se ele gosta do termo lésbica, que deriva da ilha de Lesbos.
- “Isso eu não vou comentar porque não é assunto meu. Só quero dizer que inventaram agora os lésbicos, que são uns caras que se vestem de mulher para transar com outra mulher. A coisa tá virando uma palhaçada. Não é que sejam travestis, não. São homens fantasiados de mulher. É uma espécie de drag queen com uma opção declaradamente heterosexual. Vai entender! Isso já é caso de internação”.
Aproveitei a pausa que ele fez para respirar e perguntei o que acha dos simpatizantes.
- “Esse negócio de simpatizante, pra mim é aquela bichinha nova que não sabe bem o que quer. Gosta da festa, da badalação, faz escândalo e, em geral, termina a noite dormindo sozinha”.
Aí comentei que agora inventaram a sigla GLBT: gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Ele pulou nas tamancas:
- “Transgênero!!! Por favor, isso tá parecendo coisa de engenharia genética. Não vou sair por aí e entrar numa aventura com uma replicante dessas sem ter maiores informações. Ninguém sabe se isso já foi aprovado pela Organização Mundial da Saúde. Periga até ter efeitos colaterais”.
Tentei convence-lo a ser mais tolerante, dizendo que ele corre o risco de virar uma tia velha resmungona. Ele estalou a língua e deu de ombros:
- “Um modelo clássico nunca sai de moda. Vai ser sempre uma referência”.
Aproveitei que ele estava emocionalmente alterado e resolvi perguntar porque é chamado de Maçaneta. Com um brilho nos olhos e um leve sorriso no canto da boca, encerrou a conversa:
- “Meu apelido, Maçaneta, que eu só mantenho por uma questão afetiva, vem de outros tempos, de uma época em que éramos todos bem mais jovens e diziam que em mim todo mundo metia a mão.
Bobagem. Exagero dos colegas”.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Minha amiga Marit é descendente de alemães e apaixonada pela
língua de seus ancestrais. Diz que é uma língua cheia
de nuances e sutilezas, portanto capaz expressar com muito mais precisão
o que vai pela mente do sujeito. Claro, desde que ele não tenha tomado
uns canecos de chopp, senão não há língua que
resolva.
Talvez por isso (pela sutileza linguística, não pelo chopp) a Alemanha tenha nos dado tantos pensadores e filósofos importantes. Como lembrou Caetano Veloso, “está provado que só é possível filosofar em alemão”.
Toda essa riqueza de detalhes, essa busca pela perfeição de se fazer entender, transformou a Deutsche Sprache em motivo de respeito, e ao mesmo tempo, de zombaria.
O escritor Mark Twain declarou certa vez: "Quando um alemão mergulha para uma frase, isso é a última coisa que se vê dele, até que ele emerge do outro lado do Atlântico com o verbo na sua boca".
Não satisfeito, destilou toda sua ironia em um artigo intitulado A Medonha Língua Alemã: "O inventor dessa língua parece ter se esforçado ao máximo para complicá-la. (...) Os alemães usam um outro tipo de intercalação que consiste em dividir um verbo em duas partes e colocar metade dele no começo de um capítulo e a outra metade no seu final. (...) Os pronomes pessoais são outro fértil aborrecimento na língua alemã, e deveriam ser excluídos. (...) O pior é que existem mais adjetivos nesta língua do que gatos pretos na Suíça”. E por aí vai.
Apesar da fama, o alemão não é uma língua difícil. Só precisa um pouco de concentração. Se você tiver prática em montar quebra cabeças, vai tirar de letra.
Ou seja, a coisa é simples, como mostra esta história de autor desconhecido que circula pela internet.
Os
índios australianos Hotentotes, chamados em alemão de Hottentotten,
têm o costume de caçar cangurus (Beutelratten). Os animais são
capturados e colocados em jaulas (Kotter), cobertas com uma tela (Lattengitter)
para
que sejam protegidos das chuvas.
Essas jaulas, em alemão, chamam-se “jaulas cobertas com tela” (Lattengitterkotter). Quando um canguru está preso numa delas, o conjunto todo leva o nome de “jaula coberta de tela com canguru”, ou seja: Lattengitterkotterbeutelratten.
Um dia, os Hotentotes prenderam um assassino (Attentäter), acusado de haver matado uma mãe (Mutter) hotentotes (Hottentottermutter). Essa senhora vinha a ser mãe de um garoto surdo e mudo (Stottertrottel).
Portanto, tratava-se de um Hottentottenstottertrottelmutterattentäter, ou seja, o assassino da mãe hotentotes de um garoto surdo e mudo.
Ao capturarem o assassino, os indios não tinham onde coloca-lo e resolveram prendê-lo na tal jaula de canguru (Beutelrattenlattengitterkotter).
Acontece que o preso escapou e os guerreiros da tribo sairam em busca dele. Algum tempo depois, um dos Hotentotes apareceu gritando:
- Capturamos o assassino (Attentäter)!!!
- Qual assassino? - perguntou o chefe indígena.
- Lattengitterkotterbeutelrattenattentäter - disse o guerreiro.
- Como? O assassino que estava na jaula de cangurus coberta de tela? – perguntou o chefe dos Hotentotes.
- Sim - respondeu o indígena. O Hottentottenstottertrottelmutteratentäter, assassino da mãe do garoto surdo e mudo.
-
Ah, bom - disse o chefe - Você devia ter explicado. É preciso
deixar as coisas bem claras. Poderia ter dito desde o início que havia
capturado o
Hottentotterstottertrottelmutterlattengitterkotterbeutelrattenattentäter,
o assassino da mãe hotentotes do garoto surdo e mudo que estava na
jaula de cangurus coberta de tela.
A história é uma bobagem pois todo mundo sabe que indios australianos não falam alemão. De qualquer maneira, serve pra ilustrar como a lógica de montagem dos vocábulos alemães é fácil. Se bem que o conceito de fácil é sempre relativo.
Citando
mais uma vez Mark Twain, ao falar do vício do cigarro; “deixar
de fumar é facil. Eu mesmo já deixei várias vezes!”.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Quando eu era guri, no século passado, a televisão era toda em preto e branco, cheia de chuviscos e haviam apenas 2 canais.
Às 9 da noite, entrava o comercial dos cobertores Parahyba: “tá na hora de dormir/ não espere mamãe mandar / um bom sono pra você / e um alegre despertar...”. Era o sinal, estava na hora de escovar os dentes e ir pra cama.
A mãe vinha dar a benção de boa noite e a gente fingia que já estava quase dormindo. Nem bem silenciavam os passos pela casa, eu pulava pra fora das cobertas e ligava o rádio.
Naquele tempo não existia FM, só rádio AM. De madrugada, por alguma misteriosa magia noturna, as ondas médias viajavam com muito mais facilidade e se conseguia pegar até mesmo a Rádio El Mundo de Buenos Aires.
Vários anos depois, eu estava na Argentina gravando um disco, e fui levado até a El Mundo para ser entrevistado. Quando entrei no estúdio, fiquei emocionado. Afinal, eu estava na Éle Ére Uno dos meus sonhos de criança e ainda era possível escutar pelos corredores da emissora, o eco da voz de Carlos Gardel cantando Yira Yira.
Nos primórdios das transmissões de rádio e TV no Brasil não havia gravação, video tape, essas coisas. A programação era toda ao vivo. E ao vivo, você sabe como é, acontece de tudo.
Minha vó Ramona tinha um enorme aparelho valvulado na cozinha e adorava escutar as radionovelas, histórias em capítulos que os atores contavam e interpretavam ao microfone. A sonoplastia que enriquecia a trama, era escolhida de um enorme disco de vinil com dezenas de pequenas faixas. Cada uma delas com um tipo de som e ruído diferente. Tinha porta batendo, passos de gente correndo, freada de automóvel...
Num desses folhetins, apresentado pela Rádio Gaúcha de Porto Alegre, numa cena de grande tensão, o marido traído encontra a mulher com o amante na cama, saca o revólver e grita:
- Eu vou te matar, cafajeste!
Nesse momento, quando deveria se ouvir o estampido da arma, o sonoplasta erra a faixa do disco de sons e se ouve a todo volume:
- Múuuuuu!!!!
O elenco fica paralisado, afinal estão “no ar” e um mugido não poderia fazer parte daquela cena. Com incrível presença de espírito, o ator parte pro improviso:
- Sim, vou te matar! E não adianta te esconder atrás da vaca!
Na televisão, a dramaturgia produzia o teleteatro, uma espécie de novela da época. Ao vivo, é claro.
No meio de um daqueles dramalhões televisivos, havia uma determinada cena em que a atriz principal deveria ler o bilhete de um amor proibido, amassar e jogar na lareira. Na sequência seu marido entrava e dizia:
- Humm, que cheiro de papel queimado!
Acontece que o contra-regra esqueceu de acender a lareira. Quando a atriz se deu conta do problema, já estava no ar e teve que sair inventando. Como não havia fogo, em vez de queimar o bilhete, rasgou e jogou fora.
Ato contínuo, o ator que fazia o papel de marido entrou em cena, encheu o peito de ar e começou a dizer seu texto:
Hummm...
Foi quando enxergou a lareira apagada, aquele papel picado pelo chão e percebeu situação. Como também não tinha escolha, tentou improvisar. Deu 2 ou 3 cafungadas no ar, como quem cheira alguma coisa e soltou:
-
Humm, que cheiro de papel rasgado!!!
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Cometer gafes é o tipo de coisa que acontece com gente de qualquer profissão. A desvantagem dos jornalistas é que todo mundo fica sabendo.
Nos anos 70, em Porto Alegre, havia um crítico de jornal boa praça. Era amigo dos artistas e gostava de tudo. Só fazia elogios. Costumava dizer que o pessoal precisava ser incentivado, principalmente quem estava começando.
Como já estava com uma certa idade, não tinha muito saco de assistir aos espetáculos e costumava escrever seus comentários a partir do release e das informações que a assessoria de imprensa passava.
Pois numa dessas, a produtora de um show foi até a redação do jornal levar o material de divulgação. Ele aproveitou e pediu pra ela contar alguns detalhes do espetáculo e enquanto ela falava ele já ia redigindo a crítica. Elogiosa, é claro. Era um cara pragmático. Adiantava o serviço e não precisava perder tempo em sair de casa pra ver aquilo que ele tinha certeza seria muito bom.
Acontece que na noite de estréia houve um imprevisto, explodiu a rede elétrica do teatro e a apresentação teve que ser cancelada.
Para espanto de todos, no dia seguinte, o caderno de cultura do jornal estampava com destaque a matéria do jornalista (inclusive com foto) comentando o sucesso da apresentação, o solo antológico do guitarrista e o entusiasmo do público em pé, pedindo bis. Cheia de elogios, como sempre.
Certa ocasião, Kleiton e eu estávamos em Vitória do Espírito Santo e fomos levados a uma rádio para divulgar o show que aconteceria naquela noite. Como tratáva-se de uma dupla, a direção da radio resolveu inovar e escalou dois locutores para a entrevista.
Quando entramos no ar, o primeiro fez um longo preâmbulo falando de
nosso histórico de sucessos e citou Almôndegas, nossa primeira
banda. Aproveitou o assunto e lançou uma pergunta:
Como foi essa metamorfose desde os tempos do Almôndegas até os dias de hoje?
Me aproximei do microfone para começar a responder, mas fui interrompido pelo 2º radialista, que até então estava calado:
E pra quem não sabe, Metamorfose foi a primeira banda deles...
Caímos na risada e a entrevista parou por ali, pois não conseguimos mais dizer coisa com coisa.
No carnaval carioca de 2002, a Escola de Samba Caprichosos de Pilares, resolveu prestar uma homenagem à Porto Alegre e desfilou com um enredo inspirado em nossa música “Deu pra ti”. Ficamos muito felizes e orgulhosos, pois essa é a maior manifestação de carinho que se pode receber no Rio de Janeiro.
Fomos convidados a desfilar e aprendi até a dar uns passinhos pra não fazer feio na passarela do samba. Atravessar a Marquês de Sapucaí no meio daquele túnel de alegria e vibração positiva é uma experiência inesquecível. Depois eu conto.
Nos dias que antecederam o desfile, obviamente Kleiton e eu fomos bastante solicitados para entrevistas. No meio daquela função toda, me ligou uma jornalista de um importante jornal de São Paulo. Queria saber como eu estava me sentindo, se já havia desfilado no Sambódromo, aquelas coisas. A conversa rolava normal até que ela comentou sobre as personalidades gaúchas que estariam presente e me perguntou:
- É verdade que a Elis Regina vai estar desfilando com vocês no carro alegórico?
Fiquei em silêncio para ver se era algum tipo de brincadeira, afinal Elis Regina havia morrido há 20 anos. Mas não, a jornalista falava sério. Pensei comigo “vou dizer o quê pra essa mulher?”. Comecei a rir e respondi:
Bem,
acredito que de certa forma a Elis vai estar com a gente.
Kledir Ramil
Crônicas
de Kledir Ramil - Direitos
Reservados a brazilianvoice.
com
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