Língua Brasileira


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"Outro dia encontrei um mandinho, um guri desses que andam pela rua sem carpim, de bragueta aberta, soltando pandorga. Eu vinha de bici, descendo a lomba pra ir na lancheria comprar umas bergamotas...".

Se você não é gaúcho, provavelmente não entendeu nada do que eu estava contando. No Rio Grande do Sul a gente chama tangerina de bergamota e carne moída de guisado. Bidê, que a maioria usa no banheiro é o nome que nós demos para a mesinha de cabeceira, que em alguns lugares chamam de criado mudo. E por aí vai. A privada nós chamamos de patente. Dizem que começou com a chegada dos primeiros vasos sanitários de louça, vindos da Inglaterra, que traziam impresso "Patent" número tal. E pegou.

Ir aos pés no RS é fazer cocô. Eu acho tri elegante, poético. "Com licença, vou aos pés e já volto". Uma amiga carioca foi passear em Porto Alegre e precisou de um médico. A primeira coisa que ele perguntou foi: "Vais aos pés normalmente, minha filha?" Ela na mesma hora levantou e começou a fazer flexão.

O Brasil tem dessas coisas, é um país maravilhoso, com o português como língua oficial, mas cheio de dialetos diferentes.

No Rio é "e aí merrmão! CB, sangue bom! Vai rolá umach paradach". Até eu entender que merrmão era "meu irmão" levou um tempo. Em São Paulo eles botam um "i" a mais na frente do "n": "ôrra meu! Tô por deintro, mas não tô inteindeindo". E no interiorrr falam um erre todo enrolado: "a Ferrrnanda marrrcô a porrrteira". Dá um nó na língua. A vantagem é que a pronúncia deles no inglês é ótima.

Em Mins, quer dizer em Minas, eles engolem letras e falam Belzonte, Nossenhora e qualquer objeto é chamado de trem. Lembrei daquela história do mineirinho na plataforma da estação. Quando ouviu um apito, falou apontando as malas: "Muié, pega os trem que o bicho tá vindo".

No nordeste é tudo meu rei, bichinho, ó xente. Pai é painho, mãe é mainha, vó é vóinha. E pra você conseguir falar com o acento típico da região, é só cantar sempre a primeira sílaba de qualquer palavra numa nota mais aguda que as seguintes.

Mas o lugar mais curioso de todos é Florianópolis. Lagartixa eles chamam de crocodilinho de parede. Helicóptero é avião de rosca (que deve ser lido rôchca). Carne moída é boi ralado. Se você quiser um pastel de carne precisa pedir um envelope de boi ralado. Telefone público, o popular orelhão, é conhecido como poste de prosa e a ficha de telefone é pastilha de prosa. Ôvo eles chamam de semente de galinha e motel é lugar de instantinho. E tem mais..."BRIÓI" é como chamam a BR-101. E a pronúncia correta de d+e é "di" mesmo e não "dji" como a gente fala. Também t+i é "ti" e não "tchi". Dizem que vem da colonização açoriana, mas eu acho que essa pronúncia vem sendo potencializada pela influência do castelhano, com a invasão de argentinos no litoral catarinense sempre que chega o verão. Alguma coisa eles devem deixar, além do lixo na praia.

Em Porto Alegre, uma empresa tentou lançar um serviço de entrega a domicílio de comida chinesa, o Tele China. Só que um dos significados de china no RS é prostituta. Claro que não deu certo. Imagina a confusão, um cara pede uma loira às 2 da manhã e recebe a sugestão de Frango Xadrez com Rolinho Primavera. Banana Caramelada! O que é que o cara vai querer com uma Banana Caramelada no meio da madrugada? Tudo isso é muito engraçado, mas às vezes dá problema sério.

A primeira vez que minha mãe foi ao Rio de Janeiro entrou numa padaria e pediu: "Me dá um cacete!!!". Cacete pra nós é pão francês. O padeiro caiu na risada, chamou-a num canto e tentou contornar a situação. Ela ingenuamente emendou: "Mas o senhor não tem pelo menos um cacetinho?".

Kledir Ramil

Bodas de prata

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Nunca prometi amar minha mulher até que a morte nos separe. Independente de não haver jurado ou feito promessas, eu amo essa mulher cada vez mais. Fui aprendendo a gostar dela no dia-a-dia. É uma pessoa inquieta, capaz de sacudir a rotina com novidades. E entre as pequenas surpresas do cotidiano, fui descobrindo virtudes escondidas que ela guardava com carinho para alguém especial. Quando percebi que aquilo tudo estava reservado para mim, me deu uma sensação estranha, que só aos poucos fui identificando como aquele sentimento que chamam de felicidade.
Logo que nos conhecemos, fomos fazer uma viagem. Saímos de férias por um mês e voltamos mais apaixonados do que antes. Viajar com outra pessoa é um ótimo test drive. Se a viagem for agradável, pode apostar, tudo vai dar certo.
Nunca formalizamos o casamento. Foi um gesto simbólico, uma maneira de dizer que a porta estava sempre aberta. Fui ficando, ficando e nunca mais saí. Quando me dei conta já havia passado 25 anos. Hoje, confesso, não sei viver sem ela. Quero ficar assim, até que a morte nos separe.
No início, quando começou o jogo de ocupação de espaço, percebi que ela era meio metida. Aproveitei e abri mão da autoridade em vários assuntos, sobre os quais não faço nenhuma questão de ter a palavra final. Roupas, por exemplo. Eu não sei me vestir. Cada vez que íamos sair, ela me olhava de cima a baixo e me fazia voltar ao guarda roupa, só porque a camisa listrada não combinava com a calça xadrez. Detalhe sem importância, mas pra ela, fundamental. Agora, antes de me vestir, sempre pergunto, como Noel Rosa: “com que roupa eu vou?”. Assim ela fica feliz e eu não perco meu tempo com análise de estamparias de tecidos.
Certa vez, teve um ataque pois não levei a sério a recomendação de “não esquecer de molhar as plantas”. Quase murchou ali o casamento, junto com as plantinhas. Mas o sacrifício de meia dúzia de bromélias e violetas serviu para alguma coisa: ela nunca mais me passou tarefas tão complicadas.
A vida em comum é assim, você cede aqui, ela cede ali e, entre avanços e recuos, tudo vai se encaixando. Como num quebra-cabeça.
Certo dia, pra meu espanto, saiu de dentro dela uma outra igualzinha, só que pequena. Tipo assim, uma babuska. Como se aquela mulher extraordinária já não fosse o suficiente, ainda ganhei um brinde. Um tempo depois, pasmem, mais um prêmio. Dessa vez um menino.
Hoje, olho minha mulher e meus filhos e dá uma sensação que não me é estranha. Aprendi muito bem o que quer dizer felicidade.
A vida tem sido generosa comigo.

Kledir Ramil


Mais homens de laboratório

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Na tentativa de aperfeiçoar ainda mais o ser humano, resolvi fazer novas experiências de laboratório e comecei a misturar o DNA de homens com o de alguns animais.
Certas qualidades específicas só podem ser encontradas nos bichos. São atributos testados à exaustão através dos séculos, portanto sem contra-indicações. E se funcionam neles, devem funcionar na gente.
Imagine um homem com asas de águia ou com a força de um touro. Imagine um sujeito com o apetite sexual dos coelhos.
Sei que minha idéia não é original. Já correram na frente. É o caso do homem-aranha. Todo mundo viu no cinema que o cara ficou fabuloso. É um bom projeto. Fora a fantasia, que achei de mau gosto. Mas sem dúvida ficou um ser superior, capaz de proezas incríveis, como beijar de cabeça pra baixo.
Outra mistura que faz bastante sucesso é o homem-morcego. Batman é um milionário que, na falta do que fazer, combate o crime vestido de vampiro do bem. Tinha tudo pra dar errado, mas funciona. Talvez o segredo seja esse modelo de Drácula politicamente correto. Musculoso, bonitão e sem caninos afiados.
A mulher-gato é uma gata, quer dizer, é uma mulher linda. Manhosa como os felinos e cheia de ronronares insinuantes. Mais uma que seduziu o público e foi parar em Hollywood.
Já o lobisomem não deu certo, virou um monstro. Também pudera, é feio, peludo e pelo que dizem tem desvio de comportamento. A Disney ainda tentou resgatar o projeto através de Mogli, o menino-lobo, mas ninguém garante que o guri, quando crescer, não vai querer sangue.
A idéia de misturar o homem com nosso primo, o macaco, já foi usada. E com bons resultados. Tarzan virou uma estrela. É adorado em todo mundo, da selva ao asfalto. Arranjou uma companheira, a Chita e uma namorada, a Jane. Ou será que foi o contrário?
Como dá pra perceber, muita coisa ainda pode ser feita. Imagine um centauro de verdade, meio homem, meio cavalo. Mulheres com a beleza das garças. Atletas com a velocidade dos leopardos. Jogadores de futebol com a destreza das focas... Não, esquece, esse já fizeram.
Se você pretende colocar minhas idéias em prática, tenha muito cuidado. Quem trabalha em laboratório sabe que a primeira regra num lugar desses é a organização. É preciso catalogar tudo direitinho e colocar o rótulo certo em cada vidro. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Se você confundir os genomas pode ter surpresas desagradáveis.
Ninguém vai querer, por exemplo, um sujeito com características do bicho-preguiça. E muito menos um cara com cheiro de gambá.

Kledir Ramil

Homem de laboratório

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De tanto mexer com os bichos, cheguei inevitavelmente ao ser humano, o único animal que usa sapatos.
De todos, o homem é o bicho mais esquisito. Já falei sobre isso e não quero me repetir. A fase que estou vivendo agora é mais científica.
Tento descobrir através da biotecnologia, como as alterações genéticas podem ajudar na evolução das espécies.
O homem já evoluiu bastante desde o tempo em que desenhava bisontes nas cavernas, mas algumas coisas podem ser melhoradas. A primeira atitude que eu tomaria seria raspar o cabelo de todo mundo. Cabelo é apenas um acessório, um elemento de decoração. Dá trabalho e despesa. Em especial o das mulheres.
Orelhas. É estranho que a concha auricular seja virada pra frente, já que há sons vindo de toda parte. Precisamos um aparelho auditivo multi-direcional para podermos apreciar o mundo em 5.1. Sugiro cortar as orelhas fora e deixar apenas o furinho do ouvido.
Dizem que o homem tem 2 orelhas e uma só boca para ouvir mais e falar menos. Infelizmente tal sabedoria não é levada a sério, talvez porque a boca é muito grande. Podemos diminuí-la.
O nariz está sobrando. Aquela protuberância só atrapalha na hora de beijar. Vamos eliminar e manter o que interessa, as 2 entradas de ar.
Nossos olhos são muito pequenos, isso sem falar dos orientais. Sugiro aumentar o tamanho e a capacidade de resolução em pixels.
O cérebro com certeza precisa crescer. Como só se consegue usar 10% mesmo, a idéia é: maior massa encefálica, maior participação em numero de neurônios que trabalham. Para isso vamos precisar de uma cabeça maior.
Tenho uma amiga médica, portanto uma autoridade no assunto, que sustenta que o homem foi mal construído. Segundo ela, deveria ter na altura dos ombros, um encaixe que permitisse desatarraxar e tirar fora os braços na hora de dormir.
Com essas primeiras alterações, nós vamos ficar parecendo um ET. Careca, cabeçudo, zolhudo, sem ombros... Tudo bem, perdemos em beleza, mas ganhamos em funcionalidade. E, tenho certeza, ficando mais inteligentes vamos conseguir diminuir o aquecimento global e resolver o problema do tráfego aéreo no Brasil.
Várias parte do corpo humano são uma incógnita para mim. Algumas internas, como a vesícula biliar, o apêndice e aquela quantidade absurda de intestino grosso. Pra que tanta tripa?
Para que servem as unhas? Os artelhos? Os pêlos pubianos? A meleca do nariz? Pra que 2 pulmões? São coisas que, um ignorante como eu, não consegue entender.
Mas a questão central, a dúvida que angustia e persegue todo ser humano através dos séculos continua sendo a mesma:
Por que, meu Deus, por que o homem tem tantos dedos e só um pênis?

Kledir Ramil

Pra que servem certos bichos?

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Você já deve ter notado que eu ando numa fase animal. O que passa pela minha cabeça é que se eu chegar a descobrir como funciona o processo de evolução dos animais irracionais, poderei encontrar o caminho que nos leva de volta ao paraíso. Em meus estudos e reflexões, misturei a teoria de Darwin com a Criacionista, incluí as mais extraordinárias descobertas da engenharia genética e, como se já não bastasse, acrescentei meus delírios pessoais. Puro devaneios. Portanto, não devo ser levado a sério. Quando estou em êxtase criativo não me responsabilizo “nem por mim, nem por ninguém”.
Outro dia uma leitora escreveu me corrigindo, pois eu havia dito que a minhoca não serve pra nada. Segundo ela, serve para aerar o solo. Gostei. O verbo aerar é feio, mas a minhoca se retorcendo dentro da terra para facilitar a entrada de oxigênio é uma atividade bacana. Eu, ignorante, pensava que minhoca só prestava pra isca de pescaria.
A maioria dos animais tem uma função digna. A vaca dá leite, o cavalo puxa o arado, o cachorro traz o chinelo, o elefante dança no circo. Mas alguns, aparentemente, não servem pra nada. Ninguém sabe explicar. A não ser que sejam agentes da CIA e tenham uma atividade secreta.
Vamos a eles:
Mosquito – ô bichinho chato. Porque cargas d’água Deus criou o mosquito? Ou será que foi obra do diabo? Mosquito pica, chupa o sangue da gente, transmite doenças e quando não tem mais o que fazer, fica zunindo no ouvido só pra incomodar. Acho que a evolução da humanidade passa pela eliminação total ou, no mínimo, pelo combate rigoroso aos mosquitos. Se o homem não consegue controlar nem um mosquito, como vai conseguir controlar a si mesmo?
Barata – ouvi dizer que em uma guerra mundial com armas nucleares todos os animais seriam exterminados, com exceção das baratas. Acredito. A gente usa spray, veneno, salto de sapato e elas sempre voltam. Ninguém sabe de onde elas vêm. Há uma corrente que sustenta que são seres alienígenas e só seriam derrotadas com kriptonita.
Marimbondo – a abelha faz mel, mas seu primo, o marimbondo, é a ovelha negra da família. Só faz besteira.
Formiga – todo mundo sabe que a formiga, ao contrário da cigarra, é uma workaholic. Mas trabalha o dia inteiro pra quê? Pra aumentar o formigueiro, pra nascer mais formigas, que vão aumentar o formigueiro, pra nascer mais... É um parafuso sem fim, uma existência inútil. Elas não têm uma razão para viver. Deviam estudar filosofia. Não param quietas. Na ânsia dessa atividade desenfreada, atacam o açucareiro, comem as plantinhas do jardim. E na cadeia alimentar só interessam aos tamanduás.
Bem, talvez aos coreanos. Coreano come até cachorro.

Kledir Ramil

Ele

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Esse é um daqueles assuntos delicados na vida de um homem, pois é considerado um tabu pela sociedade. Eu confesso que tinha vergonha de assumir e até mesmo de falar sobre isso, porque as pessoas em geral são muito preconceituosas. Me sentia discriminado, como se fosse uma aberração da natureza.

Vivia angustiado, atormentado, sofrendo de insônia. Aí chegou um momento em que não aguentei mais, chutei o balde e resolvi assumir. Chamei meu pai, minha mãe, minha mulher e meus filhos e desabafei:

- Sei que isso pode ser chocante pra vocês, mas eu gosto dele, eu quero ele, eu preciso dele. Gosto de agarrá-lo, de sentir seu cheiro, de segurá-lo nas mãos...

Foi um choque, mas depois disso me senti aliviado e comecei a viver em paz comigo mesmo. Até porque me dei conta que muita gente também é assim. Tem medo de dizer que quer, tem vergonha de dizer que gosta.

Só recentemente, com a ajuda de uma psicoterapia de apoio, consegui identificar o meu caso como consequência de um trauma de infância. Tudo por culpa da minha mãe. Quando eu era pequeno ela sempre me reprimia e falava: “Isso é coisa suja, guri!”. Cresci assim, com essa dificuldade, pensando que aquela minha paixão infantil, ingênua, natural e espontânea, era sujeira, era coisa feia. Como é que eu, depois de adulto, ia poder lidar com esse assunto de maneira saudável?

Hoje em dia, já falo abertamente sobre isso com todo mundo. No ambiente de trabalho, na academia de ginástica, com os amigos do futebol. Sim, eu gosto dele, convivo bem com ele. De uma forma ou de outra, ele faz com que minha vida tenha algum valor. Não tenho mais pudores. Eu dependo dele, ele me faz bem, ele é bom pra mim. Porque então esconder isso?

Aos poucos, comecei a perceber que a grande maioria das pessoas é igual a mim. Pensam como eu, sentem as mesmas coisas que eu sinto, mas não falam. São tímidas, não se abrem. E vivem infelizes.

Já passei muitas noites em claro, só pensando nele. Às vezes preocupado, outras vezes sonhando com uma ilha no caribe, um cruzeiro romântico, a lua de mel que nunca tive. Isso vai pegar mal? Ninguém fala assim? Tô nem aí!

Já houve momentos na minha vida em que enfrentei problemas sérios por causa dele. De vez em quando, por razões que eu prefiro não comentar, ele some. Desaparece. Aí tudo começa a desmoronar e eu faço loucuras. Depois me arrependo, mas vou fazer o que? É um sentimento descontrolado, maior do que eu.

Quando fico muito tempo sem ele, minha vida vira um inferno. Mas aí eu corro atrás. Isso mesmo. Não tenho medo do ridículo. Eu não consigo viver sem ele. Vou à luta.

Certa vez eu cheguei a brigar por ele. Eu estava numa daquelas situações em que só quem viveu consegue entender. Eu precisava dele desesperadamente e perdi a cabeça. Era muita coisa envolvida. Não dá pra explicar.

Me desculpe se estou lhe aborrecendo com essa história, eu só falo nele. É que virou uma obsessão, passei a vida inteira correndo atrás dele. Talvez eu não devesse dar tanta importância a isso, mas sinceramente não consigo controlar . E o pior é que descobri que todo mundo é assim. Não diga que não. Eu vejo nos olhos, nos movimentos, nos papos, nas entrelinhas. Todo mundo quer, todo mundo gosta.

Por isso, se tem algum conselho que eu posso dar é esse: não tenha medo, não tenha vergonha. Faça como eu, assuma. Você vai se sentir muito melhor. Abra seu coração e grite bem alto pra todo mundo ouvir:

- Dinheiro!!! Eu preciso dele pra viver!

Kledir Ramil

Gente do Brasil

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Martinho da Vila, Fafá de Belém, Ney Matogrosso, Zé Ramalho da Paraíba, Gaúcho da Fronteira, Robertinho do Recife, Rosinha de Valença, Canhoto da Paraíba, João Pernambuco, Chico Maranhão, Bahiano, Catulo da Paixão Cearense, Novos Baianos, Pessoal do Ceará, Os Cariocas e a Banda de Pífanos de Caruarú.

Ronaldinho Gaúcho, Renato Gaúcho, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Marcelinho Carioca, Marcelinho Paulista, Júnior Baiano, Fábio Baiano, Fernando Baiano e Zé Carioca.

Neguinho da Beija Flor, Noca da Portela, Xangô da Mangueira, Dominguinhos do Estácio.

Engenheiros do Hawaii, Chico Buarque de Hollanda, George Israel, Hanói Hanói, Catia de França, Beto Jamaica, Biafra, Mel Lisboa.

Barca do Sol, Bando da Lua, Scarlet Moon, Marcelinho da Lua, Camisa de Vênus, João Mineiro e Marciano.

João do Rio, Baby do Brasil, Patativa do Assaré, Velhinha de Taubaté, Analista de Bagé.

Gente do Brasil, gente brasileira, gente da gente.

Jackson do Pandeiro, Jacob do Bandolim, Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Chiquinho do Acordeon, Oswaldinho do Acordeon, Edu da Gaita, Quinteto Violado, Chico Batera, Dino 7 cordas, Raul do Trombone, Serginho Trombone, Paulinho Trumpete, Paulinho Guitarra, Jorginho do Pandeiro, Jorginho da Flauta, Jair do Cavaquinho, Pedrinho do Cavaco, Mano Décio da Viola, Lair dos Teclados.

Zeca Pagodinho, Luis Melodia, Maurício Maestro, Os Batutas, Originais do Samba, Harmonia do Samba.

Gente do Brasil, gente brasileira, gente da gente.

Nara Leão, Danusa Leão, Emerson Leão, Leão Lobo, Heitor Villa Lobos, Dado Villa Lobos, Fernando, Edu e Bena Lobo. Lobão, Marisa Gata Mansa, Cama de Gato, Bonde do Tigrão, Borba Gato, Marcelo Camelo, Paulo Roberto Falcão, Paulinho Moska, Miquinhos Amestrados, Kid Abelha, Pato Fu e Falcão. Joelho de Porco, Meire Pavão, Formiga, Nuno Cobra, Paloma Duarte, Ziraldo Alves Pinto, Adriana Falcão, Edson Cordeiro, Asa de Águia, Lula, Ratinho, Sérgio Sá Leitão, Amigo da Onça, João Emanuel Carneiro, Macaco Simão, Bixo da Seda, Canarinhos de Petrópolis, Guerra Peixe, Galo Preto, Ratos do Porão, Sandra Passarinho, Jararaca e Ratinho.

Gente do Brasil, gente brasileira, gente da gente.

Marília Pera, Sandra Pera, Amora Pera, Antônio Pitanga, Camila Pitanga, Marina Lima, Fernanda Lima, Helena e Ellen de Lima, Família Lima, Castanha e Caju, Júpiter Maçã, Selma do Coco, Milton Banana, Chiclete com Banana.

Mastruz com Leite, Secos e Molhados, Trio Mocotó, Farofa Carioca, Carlos Cachaça, Almôndegas, Herva Doce, Batatinha, Tomati, Gordurinha.

Gente do Brasil, gente brasileira, gente da gente.

Patricia Poeta, Gabriel o Pensador, Nelson Sargento, Paulinho Boca de Cantor, Walter Alfaiate, Bibi Ferreira, Arrigo Barnabé, José Roberto Torero.

Roberto de Carvalho, Armando Nogueira, Marcos Palmeira, Thierry Figueira, Geraldo Pereira, Tonico Pereira, Carlos Alberto Parreira, Silas de Oliveira, Dalva de Oliveira, Leila, Chico e Paulo Cesar Pinheiro.

Paralamas, Bidê ou Balde, Lampião, Vassourinha, Cartola, Arlindo Cruz e Sombrinha, Marilia Medalha, Ana Maria Machado, Manuel Bandeira, Glória Pires, Juca Chaves.

Maria Bonita, Antônio Calado, Assis Valente, Jorge Amado, Caetano Veloso, Marieta Severo, Dudu Nobre, Moacyr Franco, Jorge Furtado, Diana Pequeno, Paulo Cesar Grande, Garganta Profunda, Boca Livre.

Barão Vermelho, Billy Blanco, Black Rio, Branco Mello, Carlinhos Brown, Preta Gil, Paulinho Pedra Azul, Pena Branca e Xavantinho, Inezita Barroso, Samuel e Noel Rosa.

Patricia Pilar, Pedro Luis e a Parede, Fernanda Torres, Paulo Pontes,

Osório Duque Estrada, Fernanda Porto. Mariza Monte, Glauber Rocha, Augusto e Haroldo de Campos, Vanessa, Cristiano e Roberto da Matta. Toninho Horta, Tony Tornado, Roberto Bontempo, Rildo Hora.

Heitor dos Prazeres, Noite Ilustrada, Cordel do Fogo Encantado, Jovelina Pérola Negra, Arthur Bispo do Rosário, Augusto dos Anjos, Daiane dos Santos, Agostinho dos Santos, Zuenir Ventura, Perfeito Fortuna.

Gente do Brasil, gente brasileira, gente da gente.


Kledir Ramil

O armazém do Seu Madruga

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Antigamente, no tempo em que eu era guri, não havia supermercado. As compras de casa eram feitas no armazém. O armazém foi o bisavô do supermercado. Era um estabelecimento comercial de esquina (sim, geralmente era na esquina) que vendia de tudo. Vassoura de piaçava, erva mate, pacote de macarrão, Melhoral, papel higiênico, batata, pregos, bolachas, bijuterias, material escolar, secos, molhados e até absorventes femininos.

Em Pelotas, na esquina de casa - na Dr. Amarante com a Gal Osório - tinha o armazém do Seu Madruga. Era ali que a gente abastecia a casa e o pai comprava seus maços de Hudson, sem filtro.

Encostada na parede do fundo, ficava uma geladeira enorme com várias portas de madeira e sobre o balcão, um carrossel com vidros de balas rodava na cara das crianças como se quisesse, o tempo todo, testar nossa capacidade de salivação.

O ambiente era mau iluminado e tinha um cheiro característico, resultado de uma combinação exótica de aromas: Boa Noite mata-mosquitos, fumo de rolo, rapadurinha de amendoim e um monte de lingüiça pendurada num pedaço de pau, preso no teto por um arame.

Arroz, feijão, farinha, tudo isso ficava em grandes sacos de estopa no chão, com a boca aberta e um pequeno cartaz de papelão enfiado nos produtos informando o preço do quilo. Os grãos eram vendidos a granel, ou seja, eram empacotados na hora, com papel pardo e barbante. O pedido de cada freguês era pesado numa balança com dois pratos de cobre, dessas que aparecem no símbolo astrológico de Libra. Os pesos eram guardados num suporte de madeira, organizados desde o menorzinho até os maiores e mais pesados, que o velho Madruga tinha dificuldade de carregar.

Como todo armazém, por ali também vivia um gato, que passava o dia inteiro deitado em cima de um saco de farinha dormindo. Era a garantia sanitária de que os produtos não seriam atacados por ratos e camundongos, terríveis transmissores de doenças.

No fim da tarde, sempre aparecia a turma do balcão pra tomar uma cachacinha com Underberg e beliscar alguma coisa. Os petiscos preferidos eram o salaminho cortado em rodelas e o torresmo. Torresmo é um alimento, se é que pode ser assim classificado, feito de fritura de banha de porco com pedaços de couro. Acho que é isso. Só de lembrar, meu fígado teve uma contração. É péssimo pra digestão, pro colesterol, pra pressão... Enfim, é ruim pra tudo. Eu geralmente recomendo pra quem anda numa fase depressiva, pensando em suicídio.

Pra nós, a gurizada daquele tempo, o armazém do Seu Madruga era um lugar seguro para comprar cigarro avulso, escondido dos pais. Além de bolinha de gude, papel celofane pra pandorga, álbum de figurinha, chiclete Adams, Ki-suco e sorvete quente. Explico. Pelotas no inverno é uma terra muito fria. Picolés e sorvetes gelados são consumidos apenas no verão, que vai de 21 a 26 de janeiro (quando não entra uma frente fria da Argentina). Então inventaram o sorvete quente, uma bola de massinha açucarada e colorida, colada numa casquinha normal. Não era nenhuma maravilha, mas quebrava o galho. Podia ser consumido o ano inteiro.

Todo armazém usava o mesmo sistema de cobrança, a conta de caderno. Para cada família havia uma caderneta onde eram anotadas as despesas. A gente comprava o que queria e mandava anotar. Quando entrava um dinheiro, a dívida era zerada. A conta de caderno foi a bisavó do cartão de crédito.

Um dia minha mãe pediu pro Vitor, meu irmão mais novo, comprar um pacote de aborventes no Seu Madruga. O armazém estava cheio de gente e tinha pelo menos uns 3 mecânicos da oficina do Granada tomando aperitivo no balcão. O guri todo envergonhado com a delicadeza da compra, resmungou o pedido baixinho. O velho Madruga, já meio surdo, não entendeu direito e pegou um pacote de massas Trevi.

Vitor ficou ali parado pensando em como desfazer o mal entendido, encheu o pulmão de ar e, com uma voz poderosa que mais tarde se revelaria de um ótimo barítono, gritou:

Eu falei um pacote de Modess!!! Móóó desss!!!

Fez-se um silêncio absoluto, todos viraram para o moleque e cairam na risada. Com o pacote de absorvente debaixo do braço, encarou os olhares de cabeça erguida:

Não é pra mim, não. Minha mãe é que tá menstruada!

Kledir Ramil

A rainha mocréia

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O príncipe Charles, herdeiro do trono da Inglaterra, tanto fez que conseguiu: vai casar com sua amada Camilla. O cara é provavelmente o futuro rei, foi casado com uma das mulheres mais lindas e interessantes do sec XX, mas gosta mesmo é da feiosa.

Charles tinha em casa Lady Di, uma deusa, desejada por 9 entre 10 homens do planeta, mas pulava o muro, fugia do palácio para se encontrar com aquele bagulho. Gosto não se discute.

Comecei a ficar desconfiado que essa paixão por mulheres desprovidas de beleza pode ser um problema cultural inglês. O piloto de Fórmula 1, Nigel Mansell, também tinha uma mulher horrorosa. Isso num ambiente onde seus colegas exibem tradicionalmente modelos e atrizes gostosas. Nelson Piquet, com seu humor sarcástico detonou o Mansell quando este mandou fazer uma estátua de sua musa para colocar no jardim da mansão: “não satisfeito em ter uma mulher feia, resolveu ter duas”.

Como se não bastasse sua péssima habilidade para escolher mulheres, Charles também é autor de um dos piores textos românticos do século passado. É realmente um sujeito de mau gosto, até pra se expressar. No auge do galanteio, via telefone, se saiu com a máxima “eu queria ser o seu Tampax”.

Pra um cara querer ser um absorvente íntimo ou está fora de si ou não sabe onde está se enfiando. Um sujeito desses não tem condições psicológicas de ser rei. Deveria ser interditado pelo parlamento.

Mas, vamos considerar que, como dizia Shakespeare, exista “mais coisa entre o céu e a terra do que pode alcançar nossa vã filosofia”. Pode ser que Camilla tenha segredos de alcova que a tornam irresistível. Vai saber.

A verdade é que os ingleses odeiam a substituta feiosa daquela que eles e os assessores de imprensa da família real sonhavam ver como Rainha. Mas Camilla tá nem aí. Já tá no lucro. No noivado ganhou de presente um anel de platina e diamantes, uma relíquia da família que deve ter feito Diana se revirar no túmulo.

Ao se casar, Camilla vai receber o título de Duquesa de Cornualha. Só pode ser sacanagem de alguém, escolher um título com um nome desses que parece palavrão. Deve ser pra combinar com a cara dela. Cornualha foi o que ela fez com o casamento de Charles e Diana.

Esse histórico todo de traições, divórcios, romances extra-conjugais e absorventes, não vai impedir que Camilla usufrua da corte, dos palácios e de todas as regalias da nobreza inglesa. Só não poderá usar o título de rainha. Mas isso é apenas um detalhe, perto do que já conseguiu. Quando sentar no trono será chamada de princesa consorte.

E bota sorte nisso!

Kledir Ramil

Sexo, brócolis e rock ‘n roll

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A garota chegou em casa da escola, cansada e morrendo de fome. Foi largando pelo caminho a mochila, uns livros, o discman e gritou pra empregada:

- Cetuta! Bora comer!!!

Estava pré-menstruada, com dor de cabeça e reclamando de tudo:

- Aquela mala do professor de história resolveu tipo pegar no meu pé com a porra da civilização etrusca. Não tenho a menor idéia de quem foi essa etrusca e muito menos que era um papo de civilização.

Foi direto pro computador, falando que tinha que postar umas paradas no fotolog, mas seu irmão estava no icq.

- Pô, irmão no icq, ninguém merece! Só tem um computador em casa... Cara, eu fico muito puta. O mano não se toca. Tenho uma parada super urgente, super importante e pirralho nem aí. É o dia inteiro: Ô ô! Ô ô!

Já estava à beira de um ataque de nervos quando a empregada chamou: “tá na mesa!”. Deu um toque no irmão: “bora comer, pirralho!”. Ele resmungou alguma coisa e continuou na mesma. Ela seguiu solando:

- Cara, esses moleques tão muito mal educados. Outro dia falei pra minha mãe: “pô, tipo assim, tá precisando botar uma ordem nessa casa. Tá faltando regra. Tem que dar limites!!!”.

Aí o garoto não aguentou:

- É, você só fala merda! A mãe adorou a tua idéia e agora tem hora pra comer, hora pra dormir, pra escovar os dentes, pra sair do computador... Não se pode fazer mais nada nessa casa!

- E a culpa é minha? Você é que não tem limite e agora isso aqui virou um quartel. Se usar o computador não pode ficar vendo TV e falando no telefone e escutando música. Pô, qual é o problema de fazer tipo tudo ao mesmo tempo? É um estímulo pro cérebro. Nossos pais são de uma geração que só consegue fazer tipo uma coisa de cada vez. Qual é? Tem que se tocar que o mundo evoluiu. Galera tá mais esperta!

Sentou pra almoçar e só tinha brócolis. Sabe brócolis?

- Isso não é comida, parece plantinha de decoração. Minha mãe inventa de fazer regime e todo mundo tem que entrar na dieta. Pô, dá um tempo.

Levantou da mesa, puta, jogou o prato pro alto e saiu chutando um vaso mexicano de porcelana que estava no meio do caminho.

Foi exatamente nesse hora que seu pai chegou em casa. Pegou a filha no maior piti e foi logo enfiando o dedo no nariz dela. Aproveitou que estava armado o barraco, meteu a mão no bolso e tirou uma camisinha.

- Encontrei isso aqui na tua mochila.

Ela gelou. Ficou parada pensando alguma coisa pra dizer e não saiu nada. Seu pai insistiu:

- O que significa essa merda?

Aí, ela com a maior cara de pau, emendou:

- É um trabalho de química pra escola, sobre os elastômeros.

Disfarçou, saiu de fininho e foi pro computador. A essas alturas o pirralho tinha se mandado e estava lá na cozinha, comendo brócolis quietinho. O pai foi atrás dela:

- Você ainda é muito nova pra isso, mas acho que está na hora de termos uma conversa sobre sexo.

Ela virou pra ele e soltou:

- Minha mãe transou com 15 anos de idade, minha vó casou com 14, incompletos... Que idade você tinha quando transou pela primeira vez?

Ele respirou fundo, bufando e gritou:

- Eu tinha 11, mas isso não vem ao caso!

- Pô, não vem ao caso? Você não tem envergadura moral pra falar comigo sobre sexo!!!

O homem virou bicho. Provavelmente a garota, coitada, nem sabe o que quer dizer envergadura moral. Deve ter escutado na MTV e achou que ia pegar bem. Pegou mal. O sujeito enfurecido começou a socar a parede, arrancou o monitor do computador e jogou pela janela.

- Ô pai! Maior stress. Cara nervoso, pô.

O aparelho caiu em cima do carro de um bacana que vinha passando, sei lá uma Mercedes dessas e foi todo mundo parar na delegacia. O pai ficou detido e teve que dormir uma noite na cadeia.

Sua mulher foi levar alguma coisa pra ele comer e a filha foi junto:

- Aí pai, foi mal. Desculpa aí. Eu trouxe o meu discman pra te emprestar, pra você ficar ouvindo música.

Olhou pros CDs que ela tinha levado: Linkin Park, Blink 182, CPM 22... Não resistiu, caiu na risada e perguntou:

- Vem cá, não tinha nenhum do Djavan?

E ouviu ela cochichar pra mãe:

- Porra, CD do Djavan? Como é que eu vou conversar sobre sexo com um cara desses?

Kledir Ramil

 


Crônicas de Kledir Ramil - publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)