O
dia em que o homem pisou na lua
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
No dia 20 de julho de 1969, no momento exato em que o homem pisou na lua, eu estava no cinema. No Chuí. Ou melhor, Chuy, já que o cinema ficava do lado de lá da fronteira que separa o Brasil do Uruguai. Em vez de assistir pela televisão àquele acontecimento histórico, como todas as pessoas de bom senso no mundo, eu preferi ir ao cinema ver sei-lá-o-quê. O filme não era importante, o que interessava era o programa. Eu estava por lá de férias - não me pergunte por quê alguém passa férias no Chuí - e o cinema era o lugar onde a gente encontrava as gurias da cidade.
Pra
mim, naquele momento, o que importava era pegar as gurias. Dentro da minha
ingenuidade de garoto, não consegui entender a dimensão daquele
feito heróico. Eu estava mais interessado nas descobertas da relação
com o sexo oposto, do que ficar olhando um cara de macacão e capacete,
caminhando pela lua, numa TV em preto e branco, cheia de chuvisco.
Aquelas cenas eu veria depois. A sensação de andar pelos corredores
do Cine Ópera, com o coração disparado, procurando um
lugar pra sentar ao lado de alguma deusa da fronteira, nunca mais.
Mario Quintana tem um poema que diz: “Por pior que seja a situação da China, os nossos calos doem muito mais”. Acho que era isso que se passava comigo naquela idade. Eu andava mais preocupado com meus calos, metaforicamente falando, do que com a conquista do espaço. Várias vezes, ao longo da vida, me arrependi dessa escolha equivocada. E o pior é que não peguei ninguém naquela noite. Sei que perdi a oportunidade de ter uma história fantástica para, um dia, contar para meus netos. Mas histórias a gente pode criar.
“Eu
estava lá, com Armstrong, Aldrin e aquele outro... que não lembro
o nome. Eu estava lá, o tempo todo na Apolo XI (o que não deixa
de ser verdade, já que esse era o nome da boate de Santa Vitória
do Palmar). Sim, éramos 4 astronautas. Só apareciam 3 porque
eu estava filmando. Quem vocês acham que era o cameraman? A cápsula
era minúscula e o Aldrin teve que ir no colo (com todo o respeito).
Na realidade, eu fui o primeiro homem a pisar na lua. Desci na frente para
filmar e bater as fotos dos outros, mas nunca recebi os créditos e
as honras militares. Tudo bem. No momento da caminhada pelo Oceano da Tranquilidade,
sussurrei pelo interfone:
um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade
. Foi quando Armstrong traduziu para o inglês e repetiu a frase, sem
citar minha autoria…”.
Enfim,
já que eu vou inventar um pouco pra deixar a história mais interessante
para os meus netos, vou desconsiderar o fato de que eu havia ido ao cinema.
Acho que assim a gurizada vai gostar mais.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Inspirado
nas minhas recentes criações de novos esportes, desenvolvi um
jogo de xadrez com três exércitos diferentes: os brancos, os
pretos e os vermelhos. O tabuleiro também foi projetado em formato
de Y, como no caso do futribol, mas dessa vez com dois desafiantes posicionados
a 135º do jogador principal, para que o quadriculado, ao chegar ao campo
adversário, possa ter continuidade como losângulos regulares.
Na parte central, haverá uma zona em forma de triângulo retângulo,
que eu chamei de área de turbulência, onde geralmente deverão
acontecer as principais batalhas.
Contratei meu amigo Mequinho, grande Mestre Internacional, para uma assessoria
técnica do novo jogo e ele está há quatro meses em meditação
profunda de onde espero que volte com boas sugestões.
Alguns detalhes do jogo tradicional, em especial a movimentação
das peças, terão que ser alterados por causa dos desvios de
angulação dos campos quadriculados. A torre que anda sempre
em linha reta, no campo adversário deverá movimentar-se de forma
oblíqua. Ao contrário, o bispo, que como todos sabem só
anda por linhas tortas, quando avançar sobre um dos inimigos precisará
ter uma conduta reta, como uma torre.
Se o cara já precisava ser um gênio pra jogar xadrez, imagine
com tanta novidade.Esse jogo terá uma importância capital no
futuro para o desenvolvimento de..., bem, como dizia Millôr Fernandes
parafraseando Bernard Shaw, "jogar xadrez desenvolve muito a capacidade
de jogar xadrez".
Voltando às regras do jogo. Os peões andarão em círculos no triângulo central e nos demais espaços caminharão como sempre com seus passinhos de gueixas. A Rainha terá movimentação livre, numa alusão às conquistas das liberdades femininas. É uma pequena homenagem às mulheres, já que ninguém mais consegue controlá-las mesmo. O Rei coitado, eu sugiro que nem saia do lugar, mas isso vai depender da meditação do Mequinho.
Os cavalos que andavam em L, continuarão andando em L, mas na zona de turbulência poderão fazer movimentos em forma de W.
Minha empregada disse que ligou um tal de Seu Mequim e deixou a seguinte mensagem: “para não andar em círculos é preciso sair desse plano”.
A partir dessa revelação luminosa, inventei o Xadrez 3D, um jogo em 3 dimensões, absolutamente ousado e original. As peças podem se mover não apenas para frente, para trás e para os lados, mas também para cima e para baixo. Foi preciso criar um tabuleiro em forma cúbica onde teremos seis jogadores disputando a mesma partida.
Cada um dos desafiantes ocupa um dos lados do cubo e movimenta suas peças
em direção ao centro do poliedro, onde deverão acontecer
batalhas sangrentas. No sentido figurado.
Os exércitos terão cores variadas. Preto, branco, vermelho,
azul, amarelo... Fica aqui uma sugestão politicamente correta de incluirmos
um exército gay, totalmente cor de rosa, onde a Rainha seria uma drag
queen e o Rei seria o Luiz XIV. Os cavalos seriam substituídos por
mini- poodles, os bispos ficariam iguais (já que usam saia), as torres
seriam obeliscos (para deixar mais evidente o simbolismo fálico) e
os peões seriam bombeiros de corpos malhados. Um luxo. oito bofes na
linha de frente.
Se você for jogar com o tabuleiro cúbico em cima de uma mesa,
vai precisar criar uma seqüência de movimentos do objeto, de maneira
que um dos jogadores não tenha que ficar de cabeça para baixo
o tempo todo. A não ser que a mesa seja de vidro e o cara fique deitado
num colchonete. Para evitar isso, o ideal é que a cada lance o objeto
siga uma metodologia de giros regulares em torno do próprio eixo, respeitando
a lógica da fórmula de Leibnitz...
Ficou
confuso? Vou explicar de novo. Pega papel, caneta, um computador e uma calculadora
que trabalhe com logaritmos, pra gente fazer um esquema... Ah, e pega uma
garrafa de café, pois o negócio vai demorar.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Nos primeiros dias de convivência, quando o casal começa realmente a se conhecer, é que se estabelece como será o dia-a-dia de um casamento. Por isso, é importante que você já vá deixando claro o que gosta, o que não gosta, o que “tudo bem, pode até fazer” e principalmente aquelas coisas que você não vai fazer de jeito nenhum. “Nem que a vaca tussa”.
É
no começo da relação que se define qual o espaço
de cada um e quem manda no quê. Coisas que, quem vive com outro sabe,
são fundamentais para saúde mental de qualquer ser humano.
Sugiro que, logo na primeira noite, você assuma o controle remoto da
televisão. Esse pequeno utensílio se transformou num símbolo
de poder dentro de casa. Eu colei um adesivo no controle da TV da sala com
meu nome escrito em letras maiúsculas. Para não haver dúvidas.
Se você vacila logo no início, corre o risco de ter que assistir
ao programa do Olivier Anquier ensinando a fazer brioches na hora do jogo
do Flamengo.
Casamento é como futebol. Tem muita marcação sob pressão e quem souber ocupar os espaços vai ter o domínio da disputa, ou melhor, da situação. Claro que só isso não é o suficiente, pois trata-se de um jogo complexo. Também é preciso saber envolver o adversário, quer dizer, o parceiro.
No meu caso, essas particularidades foram sendo estabelecidas aos poucos, de forma natural, já que eu nunca casei. Fui ficando, ficando e fiquei. Eu acho isso muito bom. Inclusive recomendo aos meus filhos: não casem com data e hora marcada! É um sufoco, de repente, de supetão, todos esses detalhes terem de ser definidos. Se você puder ir resolvendo uma coisa de cada vez, vai causar menos estragos na relação a médio e longo prazo. Sim, porque não pense que isso não tem um preço. Cada vitória sua nesse terreno nebuloso da conquista doméstica, será cobrado com juros no futuro. Especialmente se sua mulher for descendente de italianos, como a minha. É a vendetta!
Pois bem, no início de tudo, quando minha mulher começou a perceber que eu estava ficando e dando sinais de que tão cedo não iria desocupar o lugar na cama, resolveu me levar para fazer compras no supermercado. Eu odeio supermercado.
Entramos no Carrefour e ela pegou dois carrinhos grandes. Raciocina comigo: por que um casal sem filhos, que janta fora todas as noites e viaja nos fins de semana, precisa de dois carrinhos de supermercado? Achei um disparate, mas fiquei na minha. Era uma época em que eu andava tateando o terreno para não pisar em falso.
Começamos a circular por aquele emaranhado labirinto de prateleiras coloridas e fui ficando meio tonto. Minha mulher se movia com uma desenvoltura impressionante e, quando percebeu que eu iria mais atrapalhar do que ajudar, me pediu para escolher um sorvete, enquanto ela fazia o serviço pesado.
Me deixou na frente de um freezer e seguiu caminho. Depois de uns 45 minutos voltou com 2 carrinhos cheios - só Deus sabe de quê - e me encontrou no mesmo lugar, com vários potes de sorvete na mão.
- Meu amor, tô em dúvida. São muitas opções. Kibon, Yopa, Nestlé... Tem esse grande com 3 sabores, mas o prazo de validade é mais curto. Se levarmos potes menores, com sabores diferentes, podemos ir abrindo um de cada vez... Esse de doce de leite da Häagen-Dazs é uma delícia, mas tem 106 gramas, 290 calorias e o preço...
Nunca mais me levou para fazer compras de supermercado. Me livrei da tortura. Até hoje ela diz que eu fiz de propósito. Juro que não. A escolha do sorvete certo, no início de um casamento, é fundamental. Era uma decisão difícil. Eu não podia errar.
Se cometesse um erro ali, naquele momento, corria o risco de chegar em casa e ela querer assumir o controle remoto.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Kleiton e eu estamos muito contentes. Acabamos de receber o Prêmio TIM de Melhor Disco do Ano - categoria Canção Popular, pelo nosso “KLEITON & KLEDIR ao vivo”, um lançamento Orbeat/RBSTV/Som Livre, com produção do ingles Paul Ralphes.
A festa no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, que homenageou a trajetória de Jair Rodrigues, também premiou Maria Bethânia, Roberto Carlos, Zeca Pagodinho, Barão Vermelho, Zezé di Camargo & Luciano, Lulu Santos e outros grandes nomes da música brasileira.
É um prêmio super importante e veio num momento especial da nossa vida, um momento de maturidade, onde fazemos uma revisão de carreira com esse CD/DVD.
É o nosso primeiro disco gravado ao vivo. Sempre ouvi as pessoas falarem que nós somos muito bons em estúdio, mas que no palco somos ainda melhores. Acho que isso começa a se confirmar.
Gravação de disco é um trabalho de equipe: músicos, produtor, técnicos, empresários, gravadoras (com todo seu staff de executivos e funcionários), promotores e produtores do show, parceiros, equipe de TV, de som, de luz... Se formos contar, são centenas de profissionais envolvidos, cada qual na sua área, contribuindo com carinho e dedicação para a realização de um projeto comum. Nosso sentimento é de que todos eles também merecem os parabéns.
A música popular brasileira nunca deu muita importância para premiações. Com o Prêmio TIM isso vem mudando. É um evento muito bem organizado por José Maurício Machline, com um critério único de avaliação dos discos: a qualidade da produção musical. E com um detalhe fundamental, sem interferências externas (exatamente o que tira a credibilidade de certos prêmios).
Nos EUA a música popular leva isso muito a sério. O artista que recebe um Grammy, carrega essa marca com orgulho por toda a vida, como se fosse um aval pelo seu trabalho. Assim como o Oscar em Hollywood, onde atores e diretores passam a ser apresentados como "fulano de tal, vencedor do Oscar". O prêmio passa a fazer parte do currículo.
Nosso disco foi selecionado na categoria Canção Popular, ou seja, estávamos concorrendo com todos os grandes cantores "populares" do Brasil. No final, entre os 3 indicados, estava o Rei Roberto Carlos. E o Rei é hors concours. Temos por ele o maior carinho e reverência. É um dos nossos mestres, com quem aprendemos a fazer o que fazemos. A presença dele como indicado, engrandece ainda mais essa vitória.
Quando surgimos, no início dos anos 80, um crítico do Rio de Janeiro escreveu: "Kleiton & Kledir parece uma dupla de ingleses que canta numa língua que lembra o português". O Brasil nunca soube direito como classificar K&K. A MPB sempre nos achou muito pop rock. A turma do rock acha que somos meio MPB. O pessoal mais refinado acha que somos muito populares e quem canta musica bem popular nos considera muito refinados.
A verdade é que não fazemos parte de nenhuma turma em especial e, talvez por isso mesmo, nos sentimos à vontade circulando em qualquer uma delas.
Mas parece que finalmente descobriram onde encaixar K&K: Canção Popular. Taí, gostei. Afinal, “popular” é o que toda música quer ser. Não, é verdade?
O
que sempre quisemos fazer é uma música que fosse popular, sem
deixar de ser refinada. Que fosse pop rock, sem deixar de ser brasileira.
Que fosse universal, sem deixar de ser gaúcha. E vice-versa.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Os marcianos são verdes, mas o planeta deles, como todos sabem, é vermelho. Há uma semana, acordei com a sensação de que estava em Marte. Aos poucos, a ficha foi caindo e fui me dando conta que eu continuava na Terra. Como sempre. Mas ela estava especialmente bonita, toda vermelha. O vermelho é a cor mais linda do arco-íris, o máximo que nossos olhos alcançam. É o limite até onde se pode enxergar. Nosso espectro visual vai do violeta até ele. A partir daí, é o que se costuma chamar de sobrenatural.
Não sei se você já percebeu, mas o Papai Noel é vermelho. Talvez para simbolizar essa tênue fronteira entre o real extraordinário e o mundo das coisas invisíveis. O coração é vermelho. O tomate é vermelho. A Ferrari é vermelha. O batom é vermelho. O morango, a gelatina, o nariz do palhaço. Na vida, tudo o que é bom, divertido e gostoso é vermelho. É no sinal vermelho que a gente consegue parar e descansar um pouco do ritmo acelerado da cidade grande.
O céu é de outra cor – que eu não consigo lembrar qual é – mas o momento mais bonito do dia é quando chega o por do sol e ele fica avermelhado. Quando passa uma moça bonita e alguém faz um elogio, ela fica toda vermelha. Quando o time faz um gol, o torcedor no Parcão sai pulando e gritando com as bochechas vermelhas de felicidade. O caminhão dos bombeiros sempre foi vermelho, como se já estivesse há anos preparado, esperando para carregar os heróis que um dia chegariam de Yokohama.
A
bandeira do Japão tem um sol vermelho. A do Rio Grande tem um baita
pedaço vermelho. Se hoje houvesse uma bandeira do mundo eu não
tenho dúvida, ela seria encarnada. O sangue é vermelho. Há
uma lenda que diz que o sangue nobre teria outra cor - que eu esqueci qual
é - mas não passa de delírio. A verdade é que
pelas veias de todo ser humano, inclusive reis, rainhas, príncipes
e duquesas, corre um sangue colorado. Estou vivendo uma fase marciana. Flutuando,
com essa estranha sensação de que estou em Marte, onde a gravidade
é menor e tudo em volta é vermelho. É uma sensação
maravilhosa.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Quem tem filha adolescente sabe, chega uma hora em que você vai ter
que conviver com o namorado dela dentro de casa.
Lei da vida. Você pegou a filha dos outros, alguém vai pegar
a sua.
Em geral, no início o garoto é tímido. Chega devagar, meio sem graça, mas pouco a pouco vai se sentindo cada vez mais à vontade.
Até que um dia ele chega à conclusão que aquela é a casa da sogra.
E
é aí que começa o seu calvário.
Você quer assistir ao Jornal da Globo e ele está vendo o Rock
Gol na MTV. Procura leite na geladeira e não tem mais. Vai fazer um
sanduíche e o pão acabou.
O abuso aumenta quando “o genro” faz 18 anos, tira carteira de motorista e começa a pegar seu carro emprestado. E nunca enche o tanque.
Minha filha me ligou às 3 da madrugada:
-
Pai, o carro parou e não quer funcionar.
- Bateu? Alguém se machucou?
- Não, pai. Só parou e não anda.
- Por favor, dá uma olhada no ponteiro da gasolina.
Aí você tem que levantar, pegar o carro da sua mulher, um galão de plástico, passar no posto de gasolina e fazer seu papel de pai.
Ninguém vai deixar uma filha parada no meio da rua, no meio da noite. Pelo menos nas duas primeiras vezes.
Na terceira vez que isso acontece, você já perdeu a paciência:
- Diz pra essa anta do seu namorado que carro precisa botar gasolina!!! Liga pro padre e pede ajuda. Eu tô dormindo.
Domingo passado, por volta de meio dia, eu estava na sala lendo o jornal e entrou “o genro”. Cheio de tatuagens, duas argolas na sobrancelha e a cara toda amassada:
- E aêeee!
Imaginei que aquele grunhido devia ser algum tipo de cumprimento, uma maneira nova de dizer bom dia. Resmunguei uma resposta qualquer e continuei lendo.
Pra não parecer antipático, resolvi puxar conversa e comentar sobre a roupa que ele estava usando:
- Olha só. Acabo de descobrir um ponto em comum entre nós os dois: eu tenho uma camiseta igual a sua.
- Não é minha, não. Peguei no seu armário ontem de noite. Não tinha nada pra botar pra dormir.
Como se já não bastasse pegar a minha filha, agora começou a pegar as minhas roupas.
Ninguém
merece!
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Minha
mulher chegou em casa feliz, com uma muda de coqueiro anão. Perguntei
onde havia comprado, e ela disse: “na estrada”.
Quando eu questionei como sabia se era mesmo coqueiro anão, deu de
ombros, estalou a língua e debochou de mim.
Plantei a muda no jardim. O coqueiro começou a crescer, e não
parou mais. Já está do tamanho da casa.
Em outra ocasião, ela chegou com as crianças eufóricas,
pois haviam comprado duas tartaruguinhas de aquário. Romeu e Julieta.
Quando eu perguntei como sabia que eram mesmo de aquário, a cena foi
a mesma. Ombros, estalo de língua e deboche.
Parece que não aprende! Os cágados estão enormes. Ficaram
do tamanho daquelas tartarugas de Galápagos.
Como o tempo foi passando e os bichos não davam cria, resolveram levar
no veterinário. Descobriram que se tratava de um casal
gay,
e tiveram que mudar o nome da moça para Julieto.
Entusiasmada com aquele contato mais íntimo com a natureza, minha mulher
transformou a casa num zoológico, com a desculpa de que as crianças
são de sagitário e adoram animais. Eu odeio bicho em casa! Ainda
por cima, sou alérgico. Proibi, pelo menos, a entrada de gatos.
Começaram a criar de tudo. Periquitos,
hamsters
, peixes coloridos.
Os periquitos duraram pouco. A empregada deu arroz integral pros bichinhos,
pensando que fosse alpiste. No primeiro dia ficaram lindos, gordinhos. As
crianças trouxeram os amigos para ver. No segundo dia, estavam ainda
mais gordinhos e duros. Com as patas pra cima.
Aí, começou a fase canina. Veio um pastor alemão, fêmea,
que minha mulher se apressou em batizar de Greta Garbo, com medo que eu escolhesse
o nome para uma filha. Na verdade, não havia me ocorrido essa idéia,
mas sem dúvida seria uma bela homenagem.
Depois veio Rock Hudson, um pastor albino. Greta e Rock se apaixonaram e deram
tanto filhote, mas tanto filhote, que tive que começar a vender, para
poder pagar a ração.
Quando os pastores ficaram velhos e se foram, ganhamos de um amigo um
boxer
com
pedigree
, desses que rebolam mais que madrinha de bateria de escola de samba. Recebeu
o nome de Biscoito e ficou rebolando pela casa durante vários anos.
Inclusive, por cima do sofá da sala e da minha coleção
de CDs.
Quando meus filhos chegaram na adolescência e eu pensei que aquele entusiasmo
zoológico havia acabado, apareceram com um casal de coelhos. Em poucos
dias, haviam 12. Em um mês, pulou para 29. E não parou mais.
Tomaram conta do quintal, comeram toda a grama, as flores do jardim, invadiram
a cozinha.
Foram batizados com nomes exóticos como Umbigo, Doisbigo, Tresbigo.
Zeroberto, Humberto, Doisberto... Tsunami, Arroba, Caramelo... Até
que as próprias crianças cansaram e, com a criatividade esgotada,
começaram a chamar os bichos de “aquele branquinho”, “o
marronzinho peludo”etc.
Aquele bando não parava de comer e dar cria. Sugeri vendermos, mas
ninguém aceitou. Churrasco não se faz, pois aqui em casa somos
todos vegetarianos.
A situação ficou dramática. Outra noite, fui dormir e
encontrei dois coelhos na minha cama, debaixo das cobertas.
Resolvi dar um ultimato: ou eu, ou os coelhos.
A decisão foi unânime: os coelhos.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
No início, os filhos dependem de você pra tudo. Até pra comer. Depois vão crescendo e, quando atingem aquela idade em que mais precisam de orientação, largam a sua mão.
Na
adolescência, você fala e eles não escutam. Passam por
você e nem olham. Se olham, não vêem. Você desapareceu,
ficou invisível. Virou o pai invisível. Ninguém sente
a sua falta. Ou pior, só lembram que você existe quando precisam
de dinheiro ou de carona.
E as mulheres não ajudam. No início do casamento é aquela
paixão avassaladora. Você se ilude com a idéia de que
vai ter café na cama pro resto da vida. Aí, nascem os filhos
e você fica em segundo plano. Depois em terceiro, em quarto... Vai sendo
empurrado lá pro fim da fila. E sempre com aquela sensação
de que está incomodando.
Em economia existe um conceito chamado “invisibilidade social”,
que se aplica àquela parte da população que não
aparece no senso. São os excluídos, aqueles que as pesquisas
não conseguem captar porque ninguém lembra que existem. Eles
não contam, não são importantes.
Um pai de adolescente é mais ou menos isso dentro de casa, um ser invisível.
E com aquele agravante, só é lembrado exatamente quando gostaria
de ser esquecido.
-
Aêêê pai, descola 20 paus!
- Aonde você vai?
- Geral tá indo pro shopping e depois tem festa na casa da Mari.
E quando você pergunta a que horas acaba é que fica sabendo que
estão contando com seus serviços de motorista na madrugada.
Pensei que essa invisibilidade doméstica era só comigo, mas
conversei com outros pais e descobri que os adolescentes são todos
iguais. É um comportamento padrão.
Eles esquecem que a gente existe. É, tipo assim, um “Esqueceram
de mim” ao contrário.
No começo achei que era vingança só porque, quando pequenos,
tranquei a porta do carro com a chave dentro. E eles lá, amarrados
nas cadeirinhas no banco de trás. Tiveram que esperar quase uma hora
até chegar o rapaz da assistência mecânica. Mas sobreviveram,
sem maiores seqüelas. Minha mulher me acusa de ter traumatizado as crianças
e ser o responsável pela claustrofobia deles, mas considero essa avaliação
precipitada.
A vantagem da invisibilidade é que você pode observar sem ser
observado. Para quem escreve, é um bom negócio. Para quem sofre
de carência afetiva, é uma tortura.
Aqui em casa é assim, resolvem tudo sem me dar satisfação.
Quando fico sabendo das coisas, já está tudo combinado. Ninguém
me fala nada. Eu pego as coisas no ar. Um papo no telefone, um comentário
da empregada, uma movimentação fora do normal.
Foi assim que eu fiquei sabendo daquela viagem da garotada pra Búzios,
onde haviam decidido que eu não “precisava ir”. Reclamei
com minha mulher e ela disse que queria me poupar. Que eu precisava trabalhar,
eles fazem muito barulho, eu ia me aborrecer... No fim, começou a rir,
criou coragem e confessou:
- Se você for, vai me dar mais trabalho. É mais uma criança
pra eu cuidar.
Acho que vou pedir o divórcio.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Passei minha vida inteira pensando que só os animais possuíam sexo. Agora descobri que as coisas também têm. Pelo menos em algumas línguas.
Os números, por exemplo. 1 e 2 em português podem ser masculinos ou femininos. Existe “um” homem e “uma” mulher, “dois” homens e “duas” mulheres. Daí em diante é tudo masculino. Três, quatro ou cinco mulheres. Não existe treza, quatra ou cinca. Uma milhona de mulheres... Por quê? Não sei. Nossos dois primeiros números podem ser machos ou fêmeas, mas o resto é tudo macho. Ah sim, esqueci. Tem duzentas, trezentas, quatrocentas… Enfim, a coisa não tem lógica.
Em espanhol só o número 1 tem os dois gêneros: "uno" e "una". A partir do 2, são todos bissexuais: "dos hombres, dos mujeres, tres hombres...". Ah sim, os espanhóis também têm a exceção das centenas femininas.
Em inglês, uma língua mais pragmática, não existe isso. Eles devem achar uma bobagem. Número é número, não tem sexo. "One man, one woman, two men, two women, three men...". Aliás, o próprio artigo definido deles serve tanto para um gênero como para o outro: "the man, the woman". Talvez por isso mesmo, muita gente considere os ingleses meio assexuados.
Já o francês, esse povo mais refinado, usa "un" e "une" para o 1, mas para as palavras femininas que começam com vogal ou com a letra H, usam “un”. Ou seja, botam um apóstrofo que não define bem o sexo da coisa e fica um negócio assim meio liberado, se é que me faço entender.
As
outras línguas eu não conheço, mas imagino que deve haver
um bocado de curiosidades interessantes sobre esse assunto.
Algumas coisas como o leite, por exemplo, quando chega num país de
"habla espana" troca de sexo, como um transformista, e vira "la
leche".
Os talheres mudam de nome. Passam a ser chamados de "los cubiertos", mas vêem respeitada a sua opção sexual. O garfo continua macho, "el tenedor", e a colher continua menina, "la cuchara". Mas a faca sai do armário, assume seu lado masculino e passa a ser conhecida como "el cuchillo".
Por
quê? Não sei. Mistérios da natureza das línguas.
Outro dia entrei numa discussão com um amigo argentino sobre qual seria
o verdadeiro sexo do computador, que eles chamam de "la computadora".
Apresentei vários argumentos consistentes, mas desisti da polêmica
depois que ele me repassou um e-mail bem humorado:
"Eis aqui algumas razões definitivas que comprovam, cientificamente, que os computadores são mesmo do sexo feminino:
•
Assim que se arranja um computador, aparece outro melhor no mercado.
• Ninguém, além do criador, é capaz de entender
a sua lógica interna.
• Mesmo os menores errinhos que você comete são guardados
na memória para sempre.
• Assim que você opta por uma máquina, qualquer que seja,
logo você estará gastando tudo o que ganha com acessórios
para ela.
• Computador processa informações com muita rapidez, mas
não pensa.
• A máquina do seu amigo, do seu vizinho ou do seu sócio
é sempre melhor do que a que você tem em casa.
• Computador não faz absolutamente nada sozinho, a não
ser que você dê o comando.
• Computador sempre trava na melhor hora".
Apesar de discordar do conteúdo machista das brincadeiras do meu amigo
argentino, tenho que concordar que, em certos aspectos, a coisa faz sentido.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)6
Acordei cedo, lá pelas 11 da manhã, fui tomar um banho, mas não tinha toalha. Cheguei no corredor e minha filha passou por mim correndo.
- “Meu amor” - tentei um contato - “você sabe onde estão as toalhas?”.
- “Agora não tenho tempo, pai. Tô no ICQ! O Paulinho tomou banho no meu banheiro e eu vou guardar as toalhas pra minha coleção”.
- “Que Paulinho? Que coleção?”
- “Aquela que tem o guardanapo sujo dos Hanson e a camiseta Deus é fiel, com autógrafo do Kaká” - e continuou em disparada.
Subi de pijama pra tomar café. A mesa da sala tinha sumido. Aliás, a sala tinha sumido. Tinha sido transformada num imenso palco onde acontecia o ensaio da peça de teatro que minha mulher estava produzindo. Evandro Mesquita, Paulo Vilhena (o tal Paulinho das toalhas) e Marcelo Laham fizeram uma pausa para me cumprimentar. Procurei a empregada e não encontrei. Tive que lavar um copo pra tomar um pouco d’água. Minha mulher passou correndo pela cozinha atrás do celular que estava carregando em algum lugar. Resmungou alguma coisa que eu traduzi como uma tentativa de me desejar “bom dia”. A empregada apareceu, mas estava mais perdida que cego em tiroteio.
- “O senhor viu o João?”, me perguntou.
- “Olha... bom dia...”, respondi tentando colocar alguma ordem no meu processo matinal de raciocínio.
Aqui preciso fazer uma pequena pausa para explicações. Quando acordo, eu não existo. Sou um zumbi, um arremedo de mim mesmo. O corpo levanta da cama, caminha como qualquer sonâmbulo normal, mas a alma, que é o que interessa, só começa a funcionar depois do banho frio e de umas 3 ou 4 cuias de chimarrão amargo. Aí chego no ponto certo pra começar o dia, o que raramente combina com o dia das outras pessoas.
Bem, voltando ao que eu estava contando, João é meu filho de 10 anos e havia sumido dentro de casa. Como se já não bastassem as toalhas.
- “Como é que perderam o guri?”, perguntei pra ninguém. E como falei com ninguém, fiquei sem resposta, é claro.
Fui até o escritório de minha mulher, que fica no 3o andar, e ela estava no meio de uma reunião com empresários paulistas. Consegui falar com seu sócio e mandei um recado dizendo que era sexta feira e àquela hora o João devia estar no futebol, não havia razão para pânico. Aproveitei e mandei perguntar se ela sabia onde eu poderia encontrar alguma toalha na casa, coisa que obviamente ela nem perdeu tempo em responder.
Evandro me chamou num canto:
- “Aí, Kleidir...” (há vinte anos ele me chama com um “i” a mais). “Eu tava pensando em armar uma trilha sonora pra peça...”.
Conclusão, fomos direto pro meu estúdio e enfiamos a cara na montagem e edição musical. Stones, Steve Wonder, Bob McFerrin e Je t´aime moi non plus. Uma salada musical que acabou funcionando muito bem no espetáculo. De repente chegou a equipe do Fantástico, pra fazer uma matéria com o pessoal. E eu de pijama! Foi a deixa. Corri pro banheiro pra tomar meu banho. Antes, passei no lavabo e juntei uma meia dúzia dessas toalhinhas de rosto pra conseguir me secar.
Dias depois, no meio de uma viagem, Evandro me liga:
- Kleidir, me dá o telefone da tua mãe.
- Minha mãe?!? O que é que você quer com a Dalva?
- Preciso falar com ela. Cheguei a conclusão que o teu nome tá errado.
Kledir não combina com Kleiton. Tem que ser Kleiton e Kleidir. Muito mais maneiro.
Ainda tentei argumentar:
- Também tem a opção de tirar o “i” do Kleiton.
- Pô, mas Kleton e Kledir não dá.
-
É, não dá mesmo. Anota aí o telefone da Dalva.
Kledir Ramil
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