Inter
- Campeão do mundo
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Escrevo com o coração disparado. Meu time, o Sport Club Internacional é Campeão do Mundo. Fiquei rouco de tanto gritar. Xinguei a mãe do juiz, a mãe do Rikjaard, do Iniesta, gritei feito um alucinado e tive a sensação que aquela gritaria toda ajudou a empurrar meu time em direção ao gol.
Fiquei tão rouco que, depois do jogo, não conseguia falar nada. Sentei no computador e também não conseguia escrever coisa com coisa. Acho que fiquei rouco das idéias. Meu pensamento não parava de gritar: É campeão! É campeão! Não sei se você já experimentou esse gostinho. Não estou falando de campeonato gaúcho, nem campeonato brasileiro. Estou falando de ser reconhecido como “o melhor time do mundo”.
Alguém
falou:
- Menos Kledir, menos! O melhor time do mundo é o Barcelona.
Mas foi justamente esse time extraordinário que nós atropelamos. Isso engrandece ainda mais o nosso feito. Vencemos o Barça, o incrível time das estrelas, tido como imbatível. Isso porque, depois da conquista da Taça Libertadores, perdemos metade dos titulares. Mas não fizeram falta. O pequenino Iarley foi um gigante em campo, Ceará anulou Ronaldinho, Clemer fechou o gol, Fabiano Eller fechou a defesa, Índio sangrou, Fernandão comandou a orquestra, Gabirú deu o toque final.
Ouço muita gente comentar que o Inter não tem grandes craques como o Barcelona. E daí? Isso não é concurso de embaixadinhas. É campeonato pra ver qual time ganha dos outros. O Barça foi ao Japão para dar show, nós fomos para vencer. Pra mim, nossos jogadores são craques sim, são os melhores do mundo. São os heróis da maior vitória colorada de todos os tempos.
Antes de viajarem para Tóquio, estive conversando com alguns deles na entrega do Prêmio “Craque do Brasileirão 2006”. A bela festa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro premiou Fernandão e Fabiano Eller como “Craques do Ano” e incluiu Iarley e Índio entre os melhores. Nas conversas com eles senti confiança, determinação e humildade. Estavam conscientes do que iriam enfrentar. Fiquei entusiasmado. O tempo todo eu estava seguro de que iríamos vencer. O mundo ria à minha volta, tentando me convencer do contrário, mas eu estava confiante.
Sabe porque? O clima é muito bom dentro do grupo. E são profissionais, trabalhadores da bola. Não são como certas estrelas, popstars do mundo do futebol, que usam salto alto em vez de chuteira. Tem muita gente que começou jogando em campinho da periferia e hoje vive mais preocupado com Ferraris, ternos Armani e modelos magrelas. Não quero mais torcer pra gente assim. Quero ídolos que sejam jogadores de futebol, acima de tudo.
O capitão Fernandão é um cara especial. Além de ser um maestro dentro de campo, fora dele é um sujeito simpático, inteligente. Um tipo gente boa. Por isso é líder e, junto com Clemer e Iarley, virou referência dentro do grupo. Isso mesmo, existe um “grupo”. Detalhes como esse talvez expliquem porque o Inter é um time vencedor. E porque certos times cheios de craques, às vezes perdem. Ou não conseguem jogar absolutamente nada, como foi o caso da Seleção Brasileira na Copa. Tem que haver união, ambiente, companheirismo. Isso no Inter começa com o presidente Fernando Carvalho, passa pela diretoria, soma-se ao trabalho do técnico Abel Braga – chamado carinhosamente de Abelão - e toda sua equipe.
No
final da partida, em Yokohama, foi possível ver o momento em que Abel
abraçou Ronaldinho Gaúcho e falou alguma coisa ao pé
do ouvido. Muito se especulou a respeito do que teria sido dito. Inventei
uma versão... mas esqueci. Estou meio atordoado. Não consigo
mais pensar coisa com coisa. Acho que fiquei rouco das idéias. Estou
com um sorriso escancarado no rosto e meu pensamento só repete, cheio
de orgulho:
- Sou Campeão do Mundo!
Kledir Ramil
publicação
original de brazilianvoice.
com (clique e leia a crônica atual)
Cheguei
de viagem e minha filha adolescente me chamou para uma conversa.
- Pai, você precisa botar ordem nessa casa. Meu irmão está
completamente sem limites. Só faz o que quer, só come porcaria
e não respeita ninguém.
Caí na risada e respondi:
- O mesmo que eu reclamava de você, quando tinha 11 anos. E é
exatamente como você continua se comportando, em relação
a outros assuntos. Não respeita as regras.
Ela riu e ficamos conversando sobre a questão.
Estamos vivendo tempos em que os filhos pedem limites e, pelo jeito, começam
a verbalizar isso.
Nossa geração tem uma enorme dificuldade para impor limites
aos filhos. Claro, gastamos nossa juventude lutando contra eles. Escancaramos
todas as fronteiras e rompemos tabus com muita paz, amor, sexo, drogas e rock
n’ roll. Conseguimos várias conquistas, e acreditamos que isso
ajudou a empurrar o mundo pra frente. Só que ele foi ladeira abaixo
e esquecemos de perguntar onde fica o freio.
Agora, na idade adulta, temos que nos aproximar, pelo menos um pouco, de um
modelo de comportamento que ajudamos a demolir. Não é fácil!
Outro dia, a empregada me contou que meu filho confidenciou a ela:
- Meus pais só me dão esporro, mas nunca me botam de castigo.
Nunca cortam as coisas que eu gosto.
A confissão tinha até um certo tom de reclamação.
Ele começou a se sentir discriminado, pois volta e meia algum amigo
ficava de castigo e ele até agora não tinha experimentado aquele
prazer. É que há um ganho em ser castigado. O garoto chega na
escola e pode se vangloriar da punição. Afinal, se estava de
castigo é porque havia aprontado pra cacete.
E aprontar pra cacete virou um negócio bacana, principalmente para
um moleque com 11, 12 anos de idade. As garotas adoram garotos rebeldes, insolentes.
Sempre foi assim, desde a transviada juventude de James Dean.
Talvez para entrar ainda mais no espírito da coisa, meu filho resolveu
pintar os cabelos de vermelho, começou a tocar guitarra e escreveu
na parede do quarto: Punk Rock
is not
a crime.
E eu, que tinha esperança de que o guri se interessasse por Administração
de Empresas!
Luis
Fernando Verissimo, O Mestre
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Luis
Fernando Verissimo é um falso tímido, como eu já havia
percebido nas oportunidades em que estivemos juntos, conversando entre amigos.
Há pouco tempo, tive o prazer de, pela primeira vez, assisti-lo falando
em público e confirmei minhas suspeitas: é um falso tímido.
Como ele mesmo definiu: “Isso é apenas um mito a meu respeito”.
Hoje em dia, qualquer texto bem humorado que aparece, as pessoas botam a assinatura
do Verissimo e fazem circular pela internet. Ele se diverte com isso e, em
geral, agradece os elogios, sem desfazer o equívoco.
E ainda conta histórias hilárias. Uma mulher o abordou dizendo
que jamais gostou muito do que ele escreve, mas aquela tal crônica era
genial, a melhor coisa que ela já havia lido. Era falsa.
Há um texto chamado Quase, que ficou famoso de tanto circular com sua
assinatura. Segundo ele, o texto é bastante bom. Tanto, que chegou
a ser publicado em um livro francês. Com o nome dele, é claro.
Certa vez, foi convidado para paraninfo de uma turma em Uberlândia,
MG. No programa da formatura, depois dos nomes, homenagens e juramentos, havia
um texto do paraninfo. E o texto escolhido foi justamente esse, Quase. Verissimo,
elegantemente, não desmentiu o mal-entendido para não decepcionar
os afilhados. Além de tudo, é um sujeito educado.
Mas, nem sempre é uma unanimidade. Às vezes compra brigas. A
principal polêmica que levantou, foi em relação à
salsinha, que ele classificou como um tempero inútil. Minha mãe
quase teve um síncope cardíaca e me ligou indignada:
- Mas esse rapaz, o Luis Fernando, um moço tão inteligente,
um rapaz de família... Um escritor tão respeitado, dizer uma
barbaridade dessas sobre a salsinha.
Minha mãe continua sua leitora, mas com reservas.
Além
de escritor consagrado, é um músico talentoso e toca sax tenor
na Jazz 6, que ele modestamente afirma ser uma banda formada por cinco músicos
e um metido a músico.
Há alguns anos, Kleiton e eu levamos Verissimo ao Planeta Atlântida,
um dos maiores festivais de rock do Brasil. Sei lá, coisa de 40, 50
mil pessoas. Foi um momento inesquecível, vê-lo ali conosco,
fazendo o solo de Deu Pra Ti. Recentemente, pensamos em repetir a dose na
gravação do nosso DVD, mas ele estava viajando. Uma pena.
Além de seu grupo de jazz, participa também da banda dos irmãos
Caruso, uma mistura escrachada de música e bom humor. A banda atende
pelo nome de Conjunto Nacional mas, durante a Campanha das Diretas, chamava-se
Muda Brasil Tancredo Jazz Band.
É dessa época uma das performances mais extraordinárias
do grupo. Estavam em Brasilia para uma apresentação e, um pouco
antes de começar, Verissimo sugeriu que a entrada dos músicos
fosse no escuro. Cada um ocuparia seu lugar no palco e, aí sim, aos
primeiros acordes, as luzes seriam acessas. A idéia era boa e foi aprovada.
Foram entrando no meio daquela escuridão, e ninguém conseguia
enxergar nada. Luis Fernando saiu caminhando em direção à
platéia, tropeçou na boca de cena e caiu de cima do palco. Ato
contínuo, acenderam-se as luzes. Chico Caruso correu até o microfone
e perguntou, desesperado, se havia algum médico na platéia.
O público veio abaixo, entre gargalhadas e aplausos, certo de que aquilo
tudo era uma grande encenação.
O saxofonista, com o joelho quebrado, foi parar no mesmo hospital onde pouco
tempo antes havia sido operado Tancredo Neves que, logo depois, morreu de
infecção generalizada. O médico alertou o paciente. Verissimo
entendeu o recado, deu no pé e foi fazer a cirurgia em Porto Alegre
(RS).
Já em recuperação, contou pra família o que ele
considerava uma ironia do destino: no dia da apresentação, todos
da banda haviam bebido, menos ele. Dona Mafalda, sua mãe, com seu tradicional
bom humor, comentou:
- É isso que dá! Querer ser músico sem beber. Só
toma água!
Kledir
Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Uma das minhas grandes dúvidas quando criança, na época da Páscoa, era “mas, coelho bota ovo?”. Ninguém sabia me explicar direito, ou melhor, tentavam, mas eu não conseguia entender, pois a história era muito complicada.
Começava com o sofrimento e a morte de Jesus Cristo. Aquilo me dava uma tristeza profunda, pois justo quem ensinava “amai-vos uns aos outros”, havia sido maltratado e pregado numa cruz. Depois, vinha a ressurreição e Ele subia aos céus. Até aí, tudo bem, eu conseguia acompanhar a narrativa, apesar do estranho sumiço do corpo.
O problema começava quando tentavam me convencer que todos esses acontecimentos estariam relacionados com um coelho sorridente que deixava ovos... E então, quando eu perguntava “mas afinal, coelho bota ovo?”, ficavam me enrolando com um papo sobre símbolo de fertilidade, não sei que lá... Ou seja, uma confusão.
O enigma do coelho com ovo – ainda por cima de chocolate – persistia durante toda a Semana Santa, mas minha atenção de guri aos poucos era desviada para um assunto mais importante: saber quanto chocolate haveria no meu ninho. Sim, o coelho fazia ninhos para deixar os ovos!!!
Pelo menos lá em casa era assim. A gente acordava no domingo de Páscoa, corria pra mesa de jantar e ela estava cheia de ninhos de palha, cada qual com o nome de um dos filhos. Que eram muitos. O interessante é que a letra do coelhinho era igual à da minha mãe.
A familia da minha mulher tinha outro hábito. Deixavam cenouras espalhadas pela casa e iam dormir. Durante a noite, o pai fazia pegadas de coelho com Maizena e pela manhã, ela e a irmã percorriam a trilha catando ovos e bombons.
Quando nasceram nossos filhos, minha mulher e eu chegamos a um acordo e adotamos um mix das duas tradições: concordei em deixar cenouras e fazer pegadas de farinha pelo chão da casa, desde que essa trilha passasse pela mesa da sala, onde estariam os ninhos cheios de ovos de chocolate. Ah sim, e que alguém limpasse aquela Maizena toda.
Este ano não fizemos nada. As crianças cresceram, já são adolescentes. A guria foi pra Ilha Grande acampar com os amigos. O guri foi pra Búzios com uma turma e me ligou dizendo que estava caçando caranguejos com uma lata.
Antes
de viajar, virou pra mim e perguntou:
- Pai, coelho bota ovo?
Respirei
fundo, lembrei daquela história enrolada que me contavam e falei:
- Bota, meu filho. Coelho bota ovo. É um mistério da natureza.
Um bicho peludo, mamífero, que bota ovos de chocolate.
Ele caiu na risada e falou que este ano, em vez de chocolate, preferia ganhar uma bermuda.
Estou
começando a desconfiar que ele não acredita mais em coelhinho
da Páscoa.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Não colou! Nas duas últimas semanas, apresentei uma justificativa
por ter ficado tanto tempo sem escrever minha coluna, mas nem meus advogados
engoliram a história. Foram eles mesmos que me sugeriram inventar outra.
Só porque passei por uma aventura extraordinária que envolvia
abdução por alienígenas, furacão no Golfo do México,
tubarões famintos e um naufrágio numa ilha deserta, ninguém
quer acreditar em mim. Tudo bem, vou contar outra. Eu estava gravando um DVD.
Sim, eu também canto nas horas vagas. Como sou arrimo de família
e assumi muitos compromissos financeiros, tenho que trabalhar nas férias,
aos domingos e até feriados religiosos. Sou o único cara que
descansa carregando pedra.
Então, nos dias em que me ausentei daqui, estive gravando um DVD. É
que, entre várias outras coisas que faço - como apresentar um
programa de televisão, escrever livros, peças de teatro, roteiros
de cinema e colunas para jornais, revistas e sites –, estou lançando,
há mais ou menos 25 anos, uma dupla com meu irmão Kleiton.
É um negócio oportunista, pois me contaram que dupla de irmãos
na música brasileira dá dinheiro. Quem sabe a gente não
chega ao Oscar? 2 filhos de Kleber! Taí, gostei da idéia! Vou
começar a trabalhar no roteiro.
Aí, você vai me dizer que gravar DVD é moleza, é
só pegar o violão, cantar meia dúzia de milongas e pronto,
fatura uma grana. Não é bem assim, a coisa é complicada.
Vou tentar explicar.
Primeiro, você precisa de várias canções que tenham
feito sucesso e pelo menos umas duas ou três inéditas bacanas.
Aí, começa a fase de negociação com a gravadora:
royalties
, direitos autorais, distribuição nacional, modelo de parceria,
vendas por território, planilhas de custos, previsão de faturamento...
Nesse meio tempo, entra nas conversas o grupo de televisão que será
parceiro: captação de imagens, especial de TV, mídia,
unidade móvel, gruas, trilhos, ilha de edição...
Em paralelo, rolam reuniões para definir: produtor, diretor do DVD,
músicos, iluminador, local de ensaio, conceito artístico do
projeto, definição do repertório, empresa de gravação
e equipe técnica.
Aí, tem que montar o show (convidar os músicos, fazer arranjos,
ensaiar...) e produzir, pra que tudo isso possa ser registrado: teatro, passagens,
hospedagens, diárias, transporte, produtor local, patrocinador, apoios,
promotores, ingressos, cartazes, fotos,
release
...
E mais: figurino, cordas pro violão, cortar o cabelo, fazer a barba...
Alguns dias antes do evento, vem a divulgação com a presença
dos artistas em tevês, rádios e jornais. A essas alturas, você
já está sonhando com uma ilha deserta, ou pelo menos um fim
de semana em Cabo Frio.
Mas, não tem choro, chegou o dia da gravação. É
agora que começa o seu trabalho, propriamente dito, aquilo para o qual
você foi contratado: subir ao palco, pegar o violão e cantar.
Simples.
É claro que temos uma estrutura em volta, uma equipe competente de
produção que cuida da nossa vida e nos dá esse suporte
todo. Senão, a coisa não anda. Imagina se eu tivesse que dirigir
a van e carregar o equipamento!
Produção é aquele trabalho pesado de organizar tudo,
pro artista poder se exibir com tranqüilidade. É o trabalho mais
ingrato que existe: se alguma coisa sai errada, a culpa é da produção;
se tudo dá certo, é mérito do artista. Quem trabalha
nos bastidores sabe do que estou falando.
Depois do dia do show, quando você pensa que vai conseguir parar, a
correria aumenta: gravação dos extras, revisão do material,
escrever cifras, legendas em inglês, espanhol e português, mixagem,
masterização, autoração...
Ah, e a capa! Aprovar
layout
, escolher fotos, conferir ficha técnica...
E, nesse meio tempo, a agenda de shows não pára. É viagem
pra Recife, Brasília, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Rio
de Janeiro... Sessão de fotos, aprovação do novo site...
Volta pro nordeste, segue pro interior de São Paulo... Corre até
Porto Alegre pra gravar uma campanha publicitária, volta pro Rio...
Ainda bem que eu não preciso dirigir a van.
Bem, a história é essa. Acredite você ou não. Tô
chegando dessa loucura. Por isso, fiquei tanto tempo sem escrever a coluna.
E como cheguei muito cansado, tô pensando em tirar umas férias.
Vou só esperar a Dona Ester, minha patroa, chegar aqui na redação
e pedir pra conversar.
Tomara que ela esteja de bom humor.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Que saudade do Romário! Não estou falando pelo futebol, mas pela língua solta. Os jogadores não falam mais o que pensam, estão todos politicamente corretos, uma chatice. Ninguém mais diz besteira.
Isso é culpa das assessorias de imprensa que ensinam a eles o que devem falar, como se comportar, que roupa usar. E ficam todos com um discurso padrão, de bons moços, de que “o importante é o grupo”... A coisa perdeu a graça.
Bom era no tempo em que Nelson Piquet falava pelos cotovelos. Quando Nigel Mansell mandou construir uma estátua da sua mulher para botar no jardim, Piquet não resistiu: “o cara gosta tanto de mulher feia, que mandou fazer outra pra ficar com duas”.
Hoje em dia não se vê mais esse tipo de brincadeira. E nem as gafes, como a do Claudiomiro, que se declarou feliz por estar em “Belém do Pará, terra em que nasceu Jesus Cristo”. Ou a daquela celebridade relâmpago, que virou apresentadora de TV até o dia em que gritou ao vivo: “I de iscola!!!”.
Com a chegada dos assessores de imprensa, as novas celebridades ficam repetindo textos ensaiados, como se fossem garotas do tele-atendimento. E eu fico sem saber o que é que elas realmente pensam sobre as coisas. Se é que pensam.
Como não dá pra acreditar em nada do que essa gente fala, me acostumei a ler nas entrelinhas. A partir das declarações que fazem, tento descobrir o que está por trás daquilo. Virou um jogo de adivinhação. O fato está sempre encoberto pela versão oficial.
Por isso, nessa Copa do Mundo, fiquei atento aos detalhes. Só quando alguém deixou escapar uma bobagem é que consegui pescar alguma coisa séria. Como foi no dia em que o Ronaldo desabafou e chamou o Presidente de cachaceiro.
Ou como foi no jogo contra a França, quando o juiz marcou uma falta na entrada da área. Juninho e Ronaldinho Gaúcho naturalmente se posicionaram para bater. São os melhores cobradores do mundo. Uma bola dessas podia ter definido a Copa do Mundo. Roberto Carlos chegou gritando pro Juninho: “Cai fora!”.
Fiquei chocado. Isso não é coisa que se diga para um companheiro. “Cai fora!”. O normal seria falar “deixa que eu chuto”. Juninho enfrentou a situação, provavelmente sem a tranqüilidade e a confiança necessárias, e bateu a falta. Mal batida, é claro.
Foi aí que me dei conta que o clima nos bastidores devia estar muito pesado. Até o Ronaldinho Gaúcho, que ri à toa, estava sério. O que será que fizeram pra esse guri que ele ficou tão triste? Como se já não bastasse a escalação na posição errada.
Quem era o responsável pelo ambiente da concentração? Na Copa anterior havia uma “família” – a família Scolari – e vencemos. Talvez esse pequeno detalhe tenha sido importante.
Sei
que estou me metendo em um assunto complexo e não quero botar mais
lenha na fogueira. Só estou revisando o que consegui ler nas entrelinhas.
É o meu jeito de “lamber as feridas”, como mandou o “professor”
Parreira.
Kledir
Ramil
publicação
original de brazilianvoice.
com (clique e leia a crônica atual)
Todo mundo sabe que universidade é lugar para se estudar. Mas, como
ninguém é de ferro, a rapaziada sempre arranja um jeito de se
divertir um pouco.
Não sei se é verdade, mas me contaram como se fosse.
Na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, os estudantes
de Direito resolveram criar uma camiseta com uma frase bem humorada:
"Seu namorado faz direito? Vem cá que eu faço".
Virou um sucesso no Campus. Nas festinhas, as garotas só queriam ficar
com eles. O pessoal da faculdade de Medicina resolveu revidar. Mandou confeccionar
novas camisetas com a frase:
"Ele pode até fazer direito, mas ninguém conhece seu corpo
melhor do que eu".
Ponto pra Medicina, até que a turma da Administração
resolveu entrar na brincadeira. Apareceram com novas camisetas:
"Não adianta conhecer o corpo, fazer direito, se não souber
administrar o que tem"!!
A essas alturas do campeonato, a bola estava com a Administração.
Foi quando entraram em campo os estudantes de Agronomia, que até então
estavam apenas observando:
"Uns conhecem bem, outros fazem direito e alguns sabem administrar o
que têm, mas plantar a mandioca como nós, ninguém consegue"!
O nível baixou, mas o troféu agora estava com eles. E o troféu,
no caso, era a atenção das garotas. Que, no fundo, no fundo,
é o que interessa, quando se vai para a Universidade.
Não satisfeitos em ficar apenas observando aquela disputa toda, os
futuros publicitários fizeram um golaço, com a citação
de uma das máximas do machismo institucional:
"De que adianta conhecer bem, fazer direito, saber administrar e plantar
a mandioca, se depois não puder contar pra todo mundo"?
O pessoal da Engenharia, com seu pensamento cartesiano e pragmático,
levantou uma nova e importante questão:
"De que adianta conhecer bem, fazer direito, saber administrar, plantar
a mandioca e poder contar pra todo mundo, se não tiver energia e potência
para fazer várias vezes"?
A brincadeira havia se transformado num amplo debate, um fórum de discussão
sobre quais são, afinal de contas, as ferramentas e argumentos mais
importantes na conquista amorosa. Ouvi falar que um dos rapazes ficou tão
obcecado pelo tema que, anos depois, teria transformado a questão em
tese de Mestrado.
E, ao final de tudo, depois de muita disputa, quem ficou mesmo com a frase
campeã foram os alunos da Economia:
"De que adianta conhecer bem, fazer direito, saber administrar, plantar
a
mandioca, poder contar pra todo mundo e ter energia e potência para
fazer
várias vezes, se mulher gosta mesmo é de dinheiro"???
Kledir
Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Quando eu era crianca, no século passado, os alimentos não tinham prazo de validade. Ou cheiravam bem ou estavam estragados.
Comia-se de tudo. Muito doce, pão com manteiga, bolo de chocolate. Leite, era leite de vaca mesmo, não essa coisa aguada de hoje. Era uma bebida encorpada, cheia de gordura, que vinha em garrafas de vidro, com uma tampinha de alumínio. Ninguém falava em colesterol.
Bebia-se água da torneira e, durante o verão, na praia, até se engolia um pouco de água do mar. Ninguém falava em poluição, coliformes fecais, essas coisas. Não existia protetor solar. O buraco da camada de ozônio ainda não havia nascido, ou era pequeno. Raios ultravioleta a gente só conhecia das experiências de laboratório, nas aulas de ciências.
Não
havia vídeo
game
. Jogava-se botão, víspora, dominó, batalha naval. Os
jogos usavam pedrinhas, feijões, palitinhos, saquinhos de arroz...
Ou eram brincadeiras de calçada: pula corda, esconde-esconde, amarelinha,
peteca... Bambolê, ioiô, pião, bolinha de gude... Não
havia perigo. Ninguém vivia em condomínios com grades, guaritas
e seguranças. Porteiro eletrônico só se conhecia dos filmes
de ficção científica.
A gente andava de carrinho de rolamento, patinete e bicicleta. Eu tinha uma Monark, aro 20, pneu balão, sem freio. Nossos ídolos eram os Beatles e o Topo Giggio.
Todo dia, depois de fazer os deveres de casa, eu ia pra rua jogar bola com os amigos. Isso mesmo, jogava-se bola no meio da rua. Quando havia vento, soltava-se pipa, que a gente mesmo fazia, aproveitando lascas de bambu, papel celofane, barbante, goma arábica e uns pedaços de pano velho.
O aparelho mais próximo do celular de que me lembro, era o telefone de lata. Duas latinhas de ervilhas, vazias, amarradas nas pontas de um cordão esticado. A gente ficava ali sentado no meio fio, conversando à distância com os amigos. Ainda não tinham inventado o MSN.
Quando eu ficava doente, me davam um xarope de mel, guaco e agrião. No dia seguinte, já acordava curado. Se a doença era mais grave, tinha que tomar óleo de rícino, um negócio tão horroroso, mas tão horroroso, que usavam até pra misturar na gasolina das lambretas.
Foi então nessa época, pra nossa alegria, que apareceu o Biotônico Fontoura, um fortificante gostoso. Foi meu primeiro porre. Tomei três frascos no gargalo, e fui parar no hospital.
Enfim, como todo guri que se preza, fiz um monte de besteiras, experimentei várias drogas e sobrevivi. A mais perigosa foi o chiclete de bola.
Bebi
muita água da torneira e não morri por causa disso.
Ou será que já morri e não me dei conta?
Kledir
Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Eu
sou do tempo do twist . Pra quem não sabe, twist é uma dança
completa. Tem ritmo, leveza e os pés deslizam sobre o piso. Não
é esse negócio de pula-pula dessa garotada de hoje em dia. Parece
coisa de índio. Isso não pode fazer bem pra saúde. Ficam
pulando sobre os calcanhares feito uns trogloditas. Isso pode causar lesão
na base do cérebro. Vai ver que está aí a explicação
pra essas notas absurdas, que aparecem no boletim do meu filho. Vai saber!
Antigamente, a dança era usada para rituais de guerra, religião
e acasalamento. O único aspecto que sobreviveu ao tempo foi esse último.
Ninguém mais dança para ir à guerra, nem para louvar
a Deus.
Depois, com o advento das danças de salão, surgiu uma oportunidade dos casais se aproximarem e se conhecerem um pouco mais antes do casamento. Em muitos casos, era a única maneira que o noivo tinha de tocar, pelo menos, na mão da mulher amada antes da noite de núpcias. Mesmo assim, de luva.
Com
o tempo, a coisa foi evoluindo e inventaram um jeito de dançar abraçado.
Além do
cheek to cheek socialmente aceitável, os casais podiam desfrutar de
um roça-roça mais ousado da cintura pra baixo. Não era
tudo, mas já era alguma coisa.
Foi quando apareceu Elvis Presley soltando a pélvis com tanta irreverência, que jogou por terra todos os parâmetros até então estabelecidos pelo baile agarradinho. O negócio agora era soltar o corpo, dançar com liberdade. O rock and roll virou símbolo de todas as nossas conquistas. E foram várias.
Foi então que surgiu Chubby Checker cantando Let´s Twist Again e Hava Naguila, uma canção judaica, cantada por um afro-americano em ritmo de twist.
O Aurelião tenta explicar o “tuíste”, dizendo que é uma “espécie de rock-and-roll em que o dançarino, parado, move ritmadamente os braços e os quadris”.
Para dançar bem o twist, é preciso ter uma ótima forma física e um mínimo de equilíbrio psicológico. E também uma noção razoável de ritmo e de bom gosto. Com as pernas meio arqueadas, apoiadas sobre a ponta dos pés, você deve fazer um balanço lateral com os joelhos, ao mesmo tempo em que os braços, dobrados em ângulos de 90° junto ao corpo, movimentam-se para a frente e para trás, de forma alternada. Sim, eu sei que não é simples de entender, mas eu avisei que era uma dança especial.
Depois de dominar esse passo básico, começam as variações. Com a perna esquerda apoiada no chão, você levanta ligeiramente a direita, e realiza no ar uma coreografia que lembra o movimento que se faz para apagar uma bagana de cigarro com o pé. A seguir, inverte-se as pernas.
Para realizar o terceiro movimento, bem mais ousado, é preciso domínio e destreza. Imagine um enorme W no chão. Sobre o primeiro Vê, você posiciona o pé esquerdo e sobre o segundo, o pé direito. Cada um dos pés realiza um movimento de limpador de pára-brisa sobre o piso, de maneira que quando um vai numa direção, o outro vai em direção contrária, criando um contraponto coreográfico de extrema beleza e dificuldade.
Se você é do tempo do twist, como eu, não é recomendável que tente relembrar esses passos sem uma ambulância por perto. Afinal, você já não é mais criança.
Quando eu tinha 11 anos de idade, venci um concurso de twist junto com Helena, minha primeira namorada. Era uma festinha na casa da Nara, que morava ali na Avenida esquina com Felix da Cunha, em Pelotas. Uma residência linda, cheia de escaiolas e portas com vidros bisotê, que infelizmente hoje virou uma farmácia. Os pares começaram a ser eliminados por um júri improvisado de mães e tias e, conforme íamos permanecendo na pista, mais nos movíamos com entusiasmo, até que por fim ficamos sozinhos no meio do salão sob uma torrente de aplausos, gritos e olhares de ciúmes.
O
namoro não durou muito tempo, pois logo me apaixonei por uma carioca
de minissaia, recém-chegada na cidade. Mas a sensação
de vencer aquele concurso, eu guardei para sempre. Não sei por onde
anda Helena, mas espero que ela ainda lembre daquele momento com o mesmo carinho,
e não tenha esquecido como se dança o
twist. Nunca se sabe, de repente a moda volta.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
São histórias que todo mundo já sabe, mas nunca é demais relembrar.
Quando os Beatles estavam começando, fizeram uma gravação para apresentar nas gravadoras como demonstração. Estiveram nas principais companhias fonográficas da Inglaterra e nenhuma quis contratá-los. Inclusive um executivo da Decca Recording chegou a declarar:
"Não gostamos do som. Esses grupos de guitarra já eram".
Continuaram insistindo até que um selo inexpressivo, que nem trabalhava com música, concordou em lançar a banda.
O resto é história, todo mundo sabe como terminou.
Michael Jordan, talvez o maior jogador de basquete de todos os tempos, foi cortado do time da escola quando era garoto. Imagina se tivesse se deixado abater e fosse fazer outra coisa.
Em 1944, uma certa Emmeline Snively, então diretora da agência de modelos Blue Book Modeling, desestimulou a candidata Norman Jean Baker: "É melhor você fazer um curso de secretariado, ou arrumar um marido".
Norman não ouviu o conselho e continuou em busca de seu sonho. Mudou o nome para Marilyn Monroe e se transformou em uma das mais importantes estrelas de Hollywood.
Albert Einstein não sabia falar até os 4 anos de idade e só aprendeu a ler aos 7. Teve uma professora que o qualificou como "mentalmente lerdo, não-sociável e sempre perdido em devaneios tolos". Acabou expulso da escola.
Algum tempo depois, foi reprovado no exame de admissão da Escola Politécnica de Zurique.
Quando Alexander Graham Bell inventou o telefone, em 1876, ninguém se entusiasmou muito. O Presidente Rutheford Hayes, do alto de sua sabedoria, sentenciou: "É uma invenção extraordinária, mas quem vai querer usar isso?".
Thomas Alva Edison fez duas mil tentativas sem sucesso, até conseguir finalmente inventar a lâmpada. Apesar de criticado por tantos fracassos, respondeu: "Não fracassei nenhuma vez. Inventei a lâmpada. Acontece que foi um processo de dois mil passos".
O
compositor alemão Ludwig Van Beethoven foi perdendo gradativamente
a audição até que, aos 46 anos, ficou completamente surdo.
Mesmo assim, compôs boa parte de sua obra, incluindo três sinfonias,
em seus últimos anos de vida.
É por isso que eu digo: nunca desista dos seus sonhos.
Se não encontrar numa padaria, vá em outra!
Kledir Ramil
Crônicas
de Kledir Ramil - Direitos
Reservados a brazilianvoice.
com
detentor das publicações originais (clique
aqui e visite o site)
![]()