publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Você chega a um edifício e deseja ir ao apartamento 1401. Nenhum problema. Pega o elevador, aperta o número 14 e em pouco tempo estará no 14o andar. Na saída é que começa o drama. Você quer descer, mas não sabe qual botão deve apertar. Cada elevador usa uma letra diferente para indicar o Térreo. Devia haver uma padronização: T, simplesmente. É só usar a inicial e pronto.
Porque não chamam a coisa pelo nome da coisa? Mas não, cada fabricante quer inventar mais do que o outro. Uns usam L de Lobby, outros R de Recepção, H de Hall, P de Piso. Outro dia, entrei num elevador que usava a letra A. “A de quê?”, perguntei. “De Acesso”. Só descobri depois que desci no S, que eu pensei que era de Saguão, mas era de Sobreloja.
Ontem fui visitar uns amigos e na saída eles fizeram questão de me levar até a portaria. Entramos no elevador, apertei o A e comentei: “Não precisam falar nada, já sei que é A de Acesso”. Não era, era A de “Área Comum”.
Quando o painel traz vários números de andares e apenas uma letra, fica fácil, você arrisca nela. Se bem que uma vez segui esse raciocínio, apertei T e fui parar no Terraço. O problema maior são os elevadores de prédios comerciais muito grandes: têm Subsolo, Térreo, Sobreloja, Garagem G1, G2, G3... Depois começam os andares numerados e no fim as Coberturas C1, C2, C3... Deviam entregar um manual do usuário na entrada. Um ascensorista, para trabalhar num edifício desses, tem que ter no mínimo o 2o grau completo. Aliás, ascensorista é uma das piores profissões que existe. O cara passa a vida trancado dentro de uma caixa dizendo “sobe!”, “desce!”. Sai dali pra outra caixa fechada, onde pelo menos não precisa dizer mais nada.
Nos
Estados Unidos eles não usam o número 13 por superstição.
Por isso, simplesmente aboliram o 13o andar dos edifícios, apagaram
do mapa. Você vem subindo 10o, 11o, 12o... 14o. Há um vácuo,
um hiato. Uma falha de continuidade do mundo físico, causando uma incoerência
no fluxo natural da existência humana. A partir dali, as pessoas passam
a viver numa ilusão metafísica, pensando que estão sempre
um andar acima do que na verdade estão. Há uma estatística
entre os americanos de que acima do 14o andar o índice de suicídios
é muito maior.
É possível. Até porque, como diz o ditado, “quanto
maior a altura, maior é o tombo”.
Piadas
de elevador existem várias, mas não vou contar nenhuma, pois
em geral são pesadas e isso aqui é uma coluna séria.
O “transporte vertical” tem evoluído muito nos últimos
anos, tanto na questão de segurança como no design. Há
elevadores inteligentes que, quando falta luz, deslizam suavemente até
o chão e abrem a porta. Eles estão cada vez mais agradáveis
e simpáticos. Tem uns que até conversam com a gente. Minha única
restrição é em relação a essa mania de
continuarem chamando o Térreo de outros nomes.
Mas
já achei uma solução. Como todos agora são politicamente
corretos e vêm com linguagem para cegos, vou começar a estudar
braile. Pode ser que assim eu consiga “enxergar” as coisas com
mais clareza e não fique perdendo tempo procurando entender a lógica
dessa sopa de letrinhas.
Kledir Ramil
publicação
original de brazilianvoice.
com (clique e leia a crônica atual)
Uma das coisas que mais me impressionam nos tempos atuais - você sabe, pois eu já contei - é a quantidade de modelos de tênis diferentes que existem. Sou daqueles que ficam espantados na frente das vitrines de lojas esportivas, admirando os calçados. É um símbolo indiscutível de como o mundo avança a passos largos.
Depois de muita insistência do meu médico, de que eu deveria fazer exercícios físicos, resolvi começar a caminhar. Mas hoje em dia, para caminhar é preciso ter o calçado adequado. Não dá pra sair por aí de chinelos. Fui obrigado a entrar numa dessas lojas de shopping, para comprar um par de tênis e o rapaz que me atendeu me deixou atordoado com tanta explicação. Fiquei sabendo, por exemplo, que alguns tênis vêm com gel. Pensei que gel era pra usar no cabelo. Outros, têm amortecedores. Perguntei se precisava fazer revisão a cada 10.000 km, mas o rapaz não entendeu a piada.
Nossa conversa estava evoluindo, entre pares de marcas variadas, e já divagávamos a respeito de estabilidade, amortecimento, grip e entresola, quando o rapaz me perguntou qual era o meu tipo de pisada.
-
Como assim, pisada?
- Pisada, como seu pé pisa no chão.
Foi então que descobri que existem 3 maneiras diferentes do pé tocar o solo: pronação, supinação e neutra. Achei o máximo do requinte da biomecânica, saberem se um pé pisa mais pra dentro ou mais pra fora. Se o impulso é com o dedão ou com a planta. Fiquei até envergonhado, mas tive que admitir não tinha a menor idéia de como meu pé funciona. O rapaz sorriu para o colega e imaginei o que estaria pensando: “Se um cara não consegue dominar o próprio pé, como vai controlar a sua vida?”.
E, com um sorriso ainda mais vaidoso, falou pra eu não me preocupar, pois a loja estava preparada e tinha um “foot scan”, um sensor que analisa a pisada do indivíduo. Me colocaram para fazer o teste e o resultado gerou dúvidas. Chamaram o gerente, ligaram para o suporte técnico e por fim, constrangidos, me revelaram que sou “pronador” no pé direito e “supinador” no esquerdo. Um fenômeno. No sentido depreciativo do termo.
A sugestão da equipe de “especialistas” que havia se formado em minha volta era de que eu deveria comprar dois pares de tênis diferentes e usar um pé de cada. Ou seja, eu teria que gastar o dobro e ainda andar pela rua feito um palhaço, com um tênis de cada cor. Esses caras inventam qualquer coisa pra tirar dinheiro da gente.
Desisti de caminhar. Vou fazer natação, que é de pé descalço.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Se você não tem absoluta certeza sobre o que vai dizer, é melhor ficar calado. Tecer comentários apressados pode ser perigoso. Tem gente que gosta de falar sem pensar. Outros pensam antes de falar, mas pensam errado. O que é ainda pior.
Recebi
uma mensagem pela internet com alguns equívocos de pessoas que entraram
para a história como “grandes homens que disseram grandes bobagens”.
"Não há qualquer razão para que alguém queira
ter um computador em casa." * Ken Olson, presidente e fundador da Digital
Equipment Corp. - 1977.
"No futuro, os computadores não pesarão mais do que 1,5
tonelada." * Popular Mechanics prevendo a evolução da ciência
- 1949.
"Penso que há talvez no mundo um mercado para 5 computadores."
* Thomas Watson, presidente da IBM, 1943.
"As casas voarão [no ano 2000]... Virá o tempo em que comunidades
inteiras migrarão para novas terras, sempre que sentirem vontade de
mudar de cenário." * Arthur C. Clarke, Vogue, 1966.
“O telefone é uma invenção extraordinária,
mas quem vai querer usar isso?”. * Rutherford Hayes, presidente dos
Estados Unidos -1876.
"Este tal telefone tem inconvenientes demais para ser seriamente considerado
um meio de comunicação. Esta geringonça não tem
nenhum valor para nós." * Memorando interno da Western Union,
1876.
"Máquinas voadoras mais pesadas do que o ar são impossíveis."
* Lord Kelvin, presidente da Royal Society, 1895.
"Aviões são brinquedos interessantes, mas sem nenhum valor
militar." * Marechal Ferdinand Foch, Professor de estratégia na
École Supérieure de Guerre, Paris.
"Viagens de trem em altas velocidades não são possíveis;
os passageiros, impedidos de respirar, morrerão de asfixia." *
Dionysius Lardner, 1823.
"A caixa de música sem fio [o aparelho de rádio] não
tem nenhum valor comercial imaginável. Quem pagaria para ouvir uma
mensagem enviada a ninguém em particular?" * Sócios de
David Sarnoff, em resposta a sua consulta urgente sobre investimentos em rádio
nos anos 20.
"Quem se interessaria em ouvir os atores falando?" * H.M. Warner,
"Warner Brothers", no auge do cinema mudo, 1927.
"No ano 2000 não existirá mais C, X ou Q no alfabeto usado
no cotidiano." * Ladies Home Journal, Dezembro 1990.
"Por volta de 1960, o trabalho será limitado a três horas
por dia." *John Langdon-Davies em "A Short History of the Future",
1936.
“Em 1985 não existirão mais pessoas obesas”. * Previsão
do "Institute for the Future" em 1974.
"Os raios-X são uma fraude." * Lord Kelvin, físico
inglês, 1900.
"A clonagem de mamíferos é biologicamente impossível."
* James McGrath e Davor Solter, biólogos, em artigo na Science, 1984.
"A teoria dos germes de Louis Pasteur é uma ficção
ridícula." * Pierre Pachet, Professor de Fisiologia em Toulouse,
1872.
"Broca para petróleo? Você quer dizer furar o chão
para encontrar petróleo? Você está louco!" * Comentários
que Edwin L. Drake ouviu sobre seu projeto de prospecção de
petróleo, em 1859.
"A bomba atômica nunca vai funcionar. Falo isto como um especialista
em explosivos." * Almirante William Daniel Leahy, Conselheiro do Presidente
Trumam para Assuntos Nucleares, 1945.
Tudo
isso só pra gente refletir um pouco sobre o velho ditado: “em
boca fechada, não entra mosca”
Kledir
Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Meu
filho virou pra mim e falou:
- Pai, estudar é um saco.
Vou dizer o quê? O mundo deu várias voltas, em ritmo acelerado,
e o ensino continua na base do giz e quadro-negro. A educação
avança a passos lentos, porém seguros, me explicam alguns. Tudo
bem, só que estamos ficando pra trás.
A verdade é que está difícil fazer essa gurizada se concentrar
nas coisas, da mesma maneira que a gente fazia, decorando livros e fazendo
resumo das matérias para as provas.
Perguntei pro meu filho por que não lia o Harry Potter.
- Ah, já li no cinema... O filme já vem com imagens, efeitos
especiais... É mais rapidinho...
No início, pensei que eram só os meus filhos que não
gostavam muito de perder tempo. Mas descobri que são todos iguais.
Ficam no computador, com a tevê ligada, mais um som rolando e um bate-papo
ao celular. Tudo ao mesmo tempo.
Acho que o cérebro dessas crianças já veio com outro
tipo de processador. E um
upgrade
de memória.
Você deve estar imaginando que eles odeiam ir pra escola. Ao contrário, adoram! Só que ninguém vai pra estudar, e sim pra encontrar a galera e se divertir. Como agravante, as garotas gostam é dos garotos rebeldes, que só querem saber de zoar. E, entre agradar a gatinha esperta que parece a Avril Lavigne ou a psicóloga da escola, eles sempre ficam com a primeira opção. É claro!
Minha
filha, há alguns anos, no meio de uma crise de choro, quando eu estava
lhe cobrando notas melhores no boletim, se saiu com essa:
- O que você quer? Que eu seja uma
nerd
?
Como se o fato de ser uma boa aluna fosse a pior das ofensas. Pensei um pouco
e respondi:
- Ué, não seria nada mal.
Aí, ela desabou:
- Uma
nerd
, branca, que não toma sol, que não vai a festas, que não
fica com ninguém...
O desafio dessa garotada é conseguir se equilibrar no fio da navalha.
Se dar bem dentro do grupo de amigos e, ao mesmo tempo, ir construindo um
mínimo de base intelectual, moral e afetiva.
Aproveitei e falei um pouco sobre os ensinamentos de Buda, para quem “o
caminho, é o caminho do meio”. O equilíbrio, a temperança,
a harmonia dos opostos. Buda se deu conta disso vendo um músico afinar
sua cítara. Se a corda ficasse muito solta, não saía
som; se esticasse demais, ela arrebentava. “O caminho, é o caminho
do meio”.
Ela ficou parada, me escutando com um olhar meio vago. Depois, me contou que
estava pensando como aquela história ficaria no cinema, com som
Surround
, efeitos especiais...
Deve ter ficado imaginando o Tom Cruise careca, no papel de Buda.
E eu aqui, gastando minha saliva!
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Minha filha resolveu passar o feriadão em Búzios, com um grupo de amigos, e minha mulher foi a mãe escolhida para acompanhar a tropa. A própria garotada alugou uma casa, fez supermercado e ia contratar uma van. Como vi que a coisa estava uma bagunça e não iam caber 15 pessoas com malas, bagagens e colchonetes dentro de uma Topic, resolvi tomar a frente da aventura. Liguei pro cara que faz transporte lá pro escritório, e aluguei um ônibus.
Combinei de ele nos levar na quinta-feira e voltar pra buscar no domingo, ao meio dia. Assim, saindo de lá cedo, a gente evitaria o trânsito pesado da volta.
Em Búzios, pensei com meus botões, não vai precisar transporte. De dia, é só Praia de Geribá e, de noite, Rua das Pedras. Vai todo mundo caminhando. Deixei meu carro e fui junto, no buzum. Se arrependimento matasse, eu estava morto. Foram gritando, cantando e batucando durante as três horas de viagem.
O pior é que, só quando chegamos, descobrimos que a tal casa que eles haviam alugado ficava na beira da estrada. Na entrada de Búzios!!! Ou seja, ficamos sem carro, com um bando de adolescentes com os hormônios em ebulição, numa casa de dois quartos, no meio do nada, cheia de mosquitos, a 40 minutos do centro de Búzios. Programão.
Meu filho, coitado, sem um amigo pra brincar, só me olhava e dizia:
- Mó roubada! Quando é que a gente volta pra casa?
Banheiro só tinha um. Em meia hora, já estava entupido e, mesmo assim, pra conseguir entrar só pegando senha. Aproveitei pra ensinar meu filho a fazer cocô no mato. Pelo menos pra alguma coisa serviram aqueles anos no grupo de escoteiros.
O supermercado que elas fizeram era inacreditável. Tudo da pior qualidade. Macarrão vagabundo, sopinha de acampamento. O papel higiênico parecia uma lixa. Leite, só não compraram tipo D porque não existe.
Durante o dia, o movimento para o buchicho em Búzios teve que ser feito através de ônibus de linha. O problema era à noite, quando a gente ficava na mão dos motoristas de táxis e suas tabelas astronômicas.
No primeiro dia resolveram ir todos à praia. Minha mulher comandou a sessão protetor solar, depois de um longo discurso sobre câncer de pele e buraco na camada de ozônio.
Cheguei com o bando na Praia de Geribá e saíram correndo, um pra cada lado. Dei um grito e chamei todo mundo.
- Peraí! Vamos organizar. Esse é o ponto de encontro. Vou ficar aqui sentado. Quando forem cinco horas, todo mundo aqui pra voltar pra casa.
Com tudo acertado, se mandaram. Os sete que sobraram, entraram no mar. Não sei se você já viveu essa experiência de ficar sentado na praia, tomando conta de uma garotada dentro d’água. É assim: eles mergulham e você fica contando, na medida em que vão aparecendo de volta. 1, 2, 3... Aí, quando chega ao número 7, o número 2 já sumiu de novo. Ou será o 3? Na seqüência, alguém não mergulhou e você não enxerga direito, porque uma onda tapou tudo, só consegue contar até 6, ou 5... É enlouquecedor. Resolvi entrar no mar, pra cuidar de perto. Se eu perco um guri desses, tô ferrado.
Voltamos pra casa, no lotação apinhado de gente, debaixo de um calor infernal.
Tentei organizar o banho. Meninas por ordem de idade, quem molhar o chão tem que secar, toalha deve ser pendurada no varal. Meninos, banho de mangueira no pátio, por ordem de altura, não pode esguichar no olho do outro nem atiçar o cachorro do vizinho.
No meio do banho, faltou água. Como é que eu ia saber que tinha que ligar o motor? Tivemos que tomar banho com as garrafas de água mineral. Pelo menos deu pra tirar o sal. Só que depois não tinha o que beber.
Minha mulher foi preparar um macarrão pra tropa, mas a massa era tão vagabunda que ficou tudo grudado. O molho de caixinha, ninguém conseguiu comer. Tudo bem. De noite, na Rua das Pedras, fazem um lanche.
No fim do dia, tentei jogar a toalha e ficar dormindo, mas minha mulher disse que não era louca de ir sozinha com aquele bando pra Búzios. Respirei fundo e encarei o programa noturno.
Na hora marcada para voltar, ninguém apareceu no ponto de encontro. Se perderam no horário e, quando conseguimos reunir todo mundo, não havia mais táxi. Tivemos que voltar caminhando pra casa. Foram quilômetros e quilômetros de caminhada, e só conseguimos chegar quando o sol estava nascendo.
No dia seguinte, ninguém quis sair. Nem à praia foram. Ficaram a tarde inteira atirados em cima dos colchonetes, passando Gelol nas pernas. À noite resolveram jogar Banco Imobiliário e ninguém falou em Rua das Pedras. Me ofereci e fui até o posto de gasolina. Comprei pizza pré-cozida, pipoca e Coca-Cola. Foi uma festa.
No domingo ao meio-dia, quando chegou o ônibus para nos pegar, eu estava pronto e louco pra voltar pra casa. Todos dormiam. Comecei o toque de recolher, auxiliado por meu filho e umas panelas velhas. Levaram horas para juntar as tralhas e arrumar as mochilas. Fomos sair lá pro fim da tarde. Tudo o que eu não queria. Pegamos um engarrafamento monstruoso e só conseguimos chegar em casa à meia-noite.
Jurei
pra mim mesmo: feriadão em Búzios, nunca mais.
Kledir Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Eu
estava lá no Laranjal, sem nada pra fazer, e apareceu o Toco dizendo
que ia ter uma costelada em Dom Pedrito, na estância de um primo dele.
Juntamos a turma, lotamos a Rural Willis do Joca e pegamos a estrada.
Já na chegada, nos olharam meio atravessado. É claro, se tu
chega sozinho num churrasco sem ser convidado, tudo bem, sempre sobra um naco
de carne. Mas, levar mais oito amigos é um exagero. Além disso,
no interior ninguém gosta quando vem gente de fora, porque as gurias
ficam ouriçadas.
Pra quebrar o clima pesado, Toco sugeriu pro primo que se organizasse um jogo
de futebol. Os de casa contra os forasteiros, no caso, nós. Futebol
de campanha é um jogo pra macho. Só quem já viu, pode
entender. Não tem muita regra. Com camisa pra lá, sem camisa
pra cá e, do pescoço pra baixo, é canela.
Pra quem não é gaúcho, eu preciso explicar que campanha
é aquela região do Rio Grande, onde o trabalho duro e cotidiano
com a agropecuária vai tornando os homens um pouco mais, digamos assim,
embrutecidos. Resumindo, é terra de grosso.
O campinho ao lado da estância era todo esburacado e cheio de bosta
de vaca. Ficava numa várzea que tinha sido plantação
de arroz, e depois virou um clube que, além do estádio, tinha
cancha de bocha e um bolicho pra vender cachaça.
Jogaram uma moeda pra cima, e começou o entrevero.
Na falta de uma estrutura de equipe e alguma tática de jogo, combinei
com os companheiros que eu seria o ponto de referência. Era só
jogar a bola pra mim, que o resto eu resolvia.
Corri pro meio da área adversária e fiquei na banheira, esperando
um lançamento. Não sei como, de repente, a bola sobrou. Matei
a redonda no peito e o zagueiro veio na minha direção. Era um
alemão de dois metros de altura, com cara de quem tomou chá
de losna sem açúcar. Uma jamanta. O índio jogava de bota,
bombacha e espora chilena. E eu ali, de pé descalço. Tentei
reclamar com o juiz, mas Sua Excelência estava totalmente borracho,
com um apito numa mão e uma garrafa de canha na outra. Já estava
naquele ponto em que dava um gole no apito e assoprava o gargalo.
Pois bem, matei a bola no peito e o animal veio. Dei um toquinho de calcanhar
e o balão de couro escreveu uma circunferência no ar, por cima
daquele caminhão de carne com osso e espora chilena. Quando o taura
tentou frear, escorregou no barro, levantou as patas em direção
ao céu, deu um duplo
twist
carpado invertido e caiu de bunda no lamaçal.
A torcida veio abaixo, às gargalhadas. Desloquei o goleiro com uma
firula, e joguei a bola no fundo das redes. Ato contínuo, corri pra
galera e dediquei aquela obra-prima pra uma loira assanhada, que estava sentada
na primeira fila da arquibancada.
Nesse meio tempo, o alemão já havia se levantado e veio bufando
pra cima de mim. O tempo fechou. O pau comeu. O que era pra ser um jogo de
futebol, virou espetáculo de luta livre. Com camisa versus sem camisa.
Nunca mais pude voltar a Dom Pedrito. Juro que não foi deboche. Como
é que eu ia saber que a loira era noiva do zagueiro?
Kledir
Ramil
Futribol,
Basquetribol e Outros Esportes
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Conforme revelei semana passada, no futuro haverá um jogo de futebol
com três times em campo. Comentei essa idéia com meu amigo Paulo
Roberto Falcão, uma das maiores autoridades mundiais no assunto, e
ele emendou de bate-pronto:
-
Por que não bota logo três bolas em campo?
Taí,
gostei da idéia. A coisa pode ficar ainda mais emocionante. Imagine
um time avançando separadamente em duas frentes e ao mesmo tempo tendo
que se defender de um ataque adversário. Ou então, atacando
um só goleiro com três bolas. Ou, nas pior das hipóteses,
tendo que defender um pênalti e duas cobranças de falta simultâneas.
As possibilidades são inúmeras.
Com
três bolas em jogo, acho que vamos precisar pelo menos mais um volante
para reforçar o meio de campo. E quem sabe dois goleiros? Os times
ficariam então com 17 jogadores mais os reservas. E mais gandulas,
mais equipe técnica, mais árbitros, mais dinheiro pro pessoal
do marketing... A idéia é promissora.
A transmissão do jogo pela TV ficaria mais complexa. Vamos precisar
mais gente, mais equipamento, mais dinheiro pro pessoal do marketing... Com
certeza já teremos os recursos da televisão digital e um jogo,
para ser acompanhado em todos os seus detalhes, precisará ser transmitido
por uma meia dúzia de canais ao mesmo tempo. Só aí já
vamos necessitar de uns três Galvões Buenos por partida - um
pra cada bola - e um bando de comentaristas.
E aí segue: economia aquecida, geração de empregos, etc,
etc.
Entusiasmados com minha idéia, o pessoal da NBA me encomendou um estudo
para a criação de um jogo de basquete com três equipes
em campo. Pedi um adiantamento em dólares e participação
de 10% nos lucros, inclusive no merchandising. Eles mandaram quatro advogados
pra negociar comigo. Você sabe como são os advogados norte-americanos,
não é? Piores do que o pessoal do marketing. Como os caras só
sabiam falar inglês, fiquei com medo que tentassem me enrolar com as
entrelinhas da minuta do contrato e pedi tradução simultânea.
Mandaram vir aquela moça simpática que faz a transmissão
do Oscar e tudo se esclareceu. Estavam realmente tentando me enrolar. Vencida
essa etapa, esclarecemos os detalhes, acrescentei algumas exigências,
os caras toparam e eu assinei. Não sei exatamente o que, mas assinei.
Com a ressalva de que se forem usar três bolas no jogo, vão ter
que pagar um adicional pro Falcão, afinal, a idéia é
dele.
Na seqüência, recebi um convite da Sony para criar um jogo virtual
para o Play Station. Aí eu enlouqueci. Partindo do princípio
que o céu é o limite e utilizando técnicas de efeitos
especiais, inventei um jogo com sete bolas, que pode ser disputado tanto com
os pés como com as mãos. São vários times em campo.
Cada equipe possui um número variável de jogadores, dependendo
do desempenho durante a partida e dos pontos acumulados no campeonato. Os
jogadores usam propulsores a jato e não só podem correr pelo
gramado, como também podem voar. Desde que não ultrapassem os
limites de altura e velocidade.
Os
atletas misturam técnicas de vôlei, basquete, tae kwon do, kung
fu, sumô, futsal, corrida de obstáculos e vale tudo. Só
não é recomendado o uso das delicadas acrobacias de ginástica
olímpica, devido à violência da disputa e ao intenso tráfego
aéreo.
É permitido o uso de armas de raio laser, com as quais você pode
ir eliminando os rivais e até mesmo as torcidas contrárias,
caso estejam incomodando.
O jogo em si consiste em fazer uma das bolas chegar até a meta de um dos times adversários, uma espécie de pequeno buraco negro localizado em lugares aleatórios e mutáveis, conforme o ritmo das partículas subatômicas...
Ficou confuso? Peraí que eu também não tô entendendo mais nada. Vou pegar papel e lápis pra fazer um desenho...
Kledir
Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
No futuro haverá um jogo de futebol com 3 times em campo. Tri interessante.
O gramado será em forma de Y, com 3 partes rigorosamente iguais e separadas entre si por um ângulo de 120º.
Haverá um time pra cada um dos lados, 3 goleiros, 3 pequenas áreas, 3 marcas de pênaltis, 3 linhas de fundo e apenas uma bola. A disputa será muito mais acirrada e o jogo muito mais complexo e emocionante, com várias opções de ataque e defesa.
Ao invés de 2 tempos de 45 minutos, teremos 3 tempos de 30, para que cada time ocupe um dos lados do campo e, finalmente, o pessoal da publicidade possa faturar mais um pouco com os comerciais do novo intervalo. Coisa que há tempos os norte-americanos vêm tentando, sem sucesso.
Cada
time terá um campo de defesa e dois de ataque, o da esquerda e o da
direita. Teremos, portanto, que aumentar o número de jogadores. Goleiros,
laterais e zagueiros continuarão como hoje, mas a partir da metade
do campo vamos precisar de reforço.
Imagino que mais uns 3 atacantes e um outro homem para ajudar no meio de campo,
o que dará, no fim das contas, 15 jogadores por time.
Por aí você já pode ver que o mercado de jogadores vai crescer, os salários vão aumentar e os empresários vão faturar ainda mais.
As táticas serão mais complicadas e vamos precisar de uns 2 ou 3 técnicos por equipe e, pelo menos, um analista de sistemas da área de informática. Será preciso também um aumento na equipe técnica: mais preparadores físicos, massagistas, médicos, roupeiros, etc.
A presença de público nos estádios crescerá significativamente, pois serão 3 torcidas nas arquibancadas e não apenas 2. Teremos um estímulo na geração de empregos, pois precisaremos 6 bandeirinhas, uns 3 juizes e um batalhão de gandulas por partida. E mais, pipoqueiros, vendedores ambulantes, cambistas... Enfim, um aquecimento completo da economia. Tudo isso sem contar os números da construção civil, pois vamos precisar de novos estádios.
O marketing sairá favorecido porque... Ah, sei lá porque, esses caras sempre arranjam um jeito de se dar bem.
O uso da tecnologia vai evitar o erro dos juizes e permitir resultados mais justos e transparentes. A bola, os jogadores e as linhas do gramado serão monitorados por chips eletrônicos e células fotoelétricas, resolvendo definitivamente as dúvidas em relação a se foi ou não impedimento, se a bola saiu pela lateral, se a mão tocou na bola ou se a bola tocou na mão.
Os jogadores terão um “ponto” (discreto fone de ouvido) para receber instruções do técnico. Este, por sua vez, terá um sistema de telemetria à sua disposição para tomar decisões e fazer mudanças táticas, quando necessárias.
As equipes terão que estar preparadas para possíveis alianças temporárias com um dos times adversários, tanto em situação de ataque como de defesa. Vai depender de quem estiver com a bola dominada.
Só por aí, já dá pra sentir a complexidade do jogo e a necessidade de jogadores com um preparo físico, técnico e psicológico muito superior. Um atacante, além do 2º grau completo, também vai precisar saber defender, o que hoje em dia é o sonho de todo técnico de futebol. E mais: em determinados momentos, os atacantes do lado esquerdo poderão ser chamados para ajudar os do lado direito, e vice-versa. Qualquer jogador vai precisar saber chutar com os dois pés, bater o córner, correr pra cabecear e ter uma visão holística da partida.
Como teremos 2 times atacando uma mesma defesa, você já pode imaginar que vai sair muito mais gols do que hoje em dia. E os placares mais movimentados, farão com que os campeonatos sejam ainda mais emocionantes, com tabelas e soma de pontos que só poderão ser acompanhadas com a ajuda de um computador.
O
resultado da partida mostrará quantos gols o time fez e quantos levou.
Por exemplo, num Gre-Ju-Nal (Grêmio x Juventude x Internacional). Digamos
que o Inter meteu 5 no goleiro do Juventude e 4 no do Grêmio. O Juventude
fez 3 no Colorado e 4 no Tricolor. E o Grêmio não fez gol em
ninguém, só tomou. O resultado seria: Inter 9 a 3, Juventude
7 a 4, Grêmio 0 a 8.
Imaginem um jogo de 90 minutos com 31 gols e tantas opções.
É o futuro.
Você
ficou confuso? Vou começar a explicar de novo. Pega papel e lápis
aí pra fazer um desenho...
Kledir
Ramil
publicação original de brazilianvoice. com (clique e leia a crônica atual)
Tem
muita gente que nunca viu uma galinha viva. Vou explicar. Galinha é
uma espécie de passarinho grande que não consegue voar porque
é muito gordo. Aquele frango assado que vem douradinho, com as perninhas
pra cima e sem patas, um dia foi uma galinha cheia de penas, ciscando pelo
chão. Ou um galo.
Pensando bem, “ciscando” pelo pátio foi no meu tempo de
guri. Hoje em dia as galinhas são criadas em gaiolas.
Certa vez fui visitar um aviário e fiquei horrorizado. Elas ficam ali, só com as cabecinhas de fora, sem caminhar, sem ciscar, sem nada. A única perspectiva de vida é virar frango assado num espeto, na vitrine de uma padaria.
Quando eu era criança, a gente comprava galinha viva. Na feira. A gente não, os mais velhos. Nós, as crianças, só ficávamos olhando e ajudando a escolher a mais bonitinha. Tinha branca, marrom, preta com a crista vermelha. Eram lindas. Dentro da beleza possível a um passarinho gordo.
O vendedor amarrava as patas da ave escolhida com uma corda e cortava as asas pra ela não fugir. Como se fosse possível. Então a gente carregava a coitada, pendurada de cabeça pra baixo naquela agonia: se debatendo e tentando voar com todo seu excesso de peso e aquelas meias-asas.
Lá em casa, só se comia galinha nos domingos que meu pai resolvia não fazer churrasco. Ou seja, só de vez em quando. No dia-a-dia era carne de verdade, essa que hoje chamam de carne vermelha.
Um pequeno detalhe é que na hora de comer, alguém tinha que matar a galinha. Sim, não era como esses frangos assados que já vêem prontos e muita gente se ilude com a idéia de que ninguém matou o bichinho. “Ele já veio morto”. “Não é um animal, é apenas comida”.
Para nós, as crianças, aquilo que faziam com as galinhas era muito claro: um assassinato. Afinal, nossas amigas penosas eram até batizadas com nomes como Marizilda, Garnizélia e Gorduchinha.
O carrasco oficial era meu pai, um verdugo com técnica perfeita. Com a mão esquerda segurava as duas patas. Com a direita, imobilizava a cabeça, esticava a infeliz e com um leve deslocamento do dedão, quebrava o pescoço da coitada. O serviço estava feito. Ela havia partido pra outra melhor. No caso, a panela.
Aí, o “alimento” era encaminhado para a cozinheira, uma mulher fria e insensível. Jogava água fervendo na Marizilda..., quer dizer, na galinha, arrancava as penas até ela ficar pelada e terminava a “limpeza”. O que restava, depois de temperado e levado ao forno, era o que se convencionou chamar de comida. Ah sim, o coração ia pro espetinho.
Certa vez meu pai viajou e alguém tinha que matar a galinha. Pois bem, a “missão degola” sobrou pra mim e meu irmão. Como éramos dois moleques curiosos, várias vezes havíamos presenciado o ritual, mas na hora de assumir a incumbência, nossas pernas tremeram. O único bicho que eu havia matado na vida era um mosquito. E mesmo assim, em legítima defesa. Tentamos repetir a técnica de nosso pai, mas a galinha nem se abalou. Saiu cacarejando, como se estivesse rindo da nossa cara. Aí eu peguei as pernas, meu irmão puxou a cabeça, e a teimosa insistia em não morrer.
Desesperado com a situação, agarrei o bicho pelo pescoço e comecei a girar, como uma boleadeira. E então, contra todas as previsões aerodinâmicas, quase num passe de mágica, aquela ave gorda e desajeitada finalmente saiu voando. Por cima do muro.
Mas
a cabeça, infelizmente, ficou na minha mão.
Foi aí que começou o meu processo de consciência e me
tornei vegetariano.
Kledir
Ramil
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Muita gente já conhece a história da minha mãe, gaúcha do interior, que chegou no Rio de Janeiro, entrou numa padaria e pediu:
- Tchê, me dá um cacete!
Para os cariocas, cacete é palavrão. Eles falam tudo errado. Chamam o cacete de pão francês. Que eu saiba, pão francês é em Paris. No Brasil, é cacete e cacetinho. Pelo menos no Brasil do sul.
Em São Paulo, eles dizem bengala. Pra mim, bengala é aquele apoio de madeira que alguns velhos usam pra caminhar. Em Salvador (BA), você vai na padaria e tem que pedir uma vara. O pão pequeno, pode pedir pelo nome correto: cacetinho.
A confusão é grande, e o verdadeiro nome do pão é um assunto polêmico em todo o país. No interior paulista, ele é conhecido como filão e filãozinho. Alguns lugares chamam de Clóvis. No interior do estado do Rio, é Brizola e Brizolinha. A coisa não tem lógica!
Quando vim morar no Rio de Janeiro, ninguém entendia o que eu falava. Um dia, comentei com a empregada que havia deixado o relógio na gaveta do bidê e ela começou a rir. Aqui, bidê não é a mesinha de cabeceira, é aquele chuverinho que se usa no banheiro.
Mesa de cabeceira é conhecida como criado-mudo. Eu, hein!
Criado-mudo é muito esquisito, não é?
As pintas não sabem falar português direito. Pechada de carro eles dizem que é uma batida; batida de banana é vitamina; torrada é queijo quente; lancheria é lanchonete; bergamota é tangerina... Em Curitiba (PR), eles chamam bergamota de mimosa. Perguntei se eles comem ou se chupam a mimosa, mas ninguém conseguiu me explicar.
Uma gaúcha de Caxias chegou numa festa de crianças, no Rio, e comentou que estava a fim de “comer uns negrinhos”. Pegou mal! Foi acusada de pedofilia. O tradicional doce de leite condensado com chocolate, os cariocas chamam de brigadeiro. Pô, nada a ver! Negrinho e branquinho é muito melhor que brigadeiro e brigadeiro branco.
Meu amigo Ivan Lins, um dos maiores artistas da nossa música brasileira, foi tocar em Porto Alegre (RS). No primeiro dia, a produção marcou um programa de televisão. Do estúdio, sairiam direto para o Barranco, a famosa churrascaria da capital gaúcha. Ivan, como todo carioca que chega ao sul, queria comer um bom churrasco.
Na entrevista ao vivo, comentou empolgado:
- Eu adoro Porto Alegre. Gosto das pessoas, do clima, da cidade... Quando chego, fico entusiasmado. Agora mesmo, vou sair daqui e vou dar uma barranqueada. Tô louco pra dar uma barranqueada!!!
Como estavam no ar, ao vivo, a apresentadora perdeu a graça, ficou vermelha e, sem saber o que fazer, chamou os comerciais.
Só então Ivan ficou sabendo que “barranquear”, pro gaúcho, significa encostar uma égua no barranco e crã. Ou seja, zoofilia, bestialismo, sexo com animais.
A entrevista teve uma enorme repercussão. A temporada de shows foi um sucesso e Ivan Lins se transformou em símbolo sexual no Rio Grande.
Macho
barbaridade!
Kledir Ramil
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