Buraco Negro

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Eu adoro futebol. Gosto de assistir e gosto de jogar. Minha posição é atacante, sou um centroavante típico.

Meu estilo lembra o do Romário. Gosto de jogar enfiado na área do adversário. Funciono como ponto de referência do time. Qualquer companheiro que pega a bola já sabe: é só procurar o lugar onde estou, e fazer o lançamento. O resto é comigo.

Mas, é exatamente aí que começa o problema. Eu jogo mal pra cacete.

Para um cara como eu, que adora jogar mas não sabe, essa é uma situação complicada. Os amigos boleiros nunca convidam para uma partida. Você acaba sendo discriminado, e tendo que jogar com quem não sabe. E a pior coisa do mundo é jogar bola com gente perna-de-pau. Que o digam meus parceiros. Eu gosto de jogar com craque, aquele sujeito que corre e volta pra marcar. Domina os fundamentos, sabe fazer lançamentos precisos, tem visão de jogo.

Pra poder participar de partidas interessantes, mudei de tática e comecei a me convidar para jogos com pessoas que não me conheciam em campo. Com todo aquele discurso sobre meu estilo, ponto de referência etc. Com isso, consegui enrolar alguns, me meter em times de qualidade e vencer algumas partidas.

O problema é que o jogo começa e me lançam uma bola. Depois, lançam uma segunda. Na terceira vez, já viram a cara e enfiam pra outro companheiro. Só consigo receber duas bolas bem colocadas. Claro, não dá pra fazer gol com o meu preparo físico limitado e apenas dois lançamentos em profundidade. Ainda mais nesse tipo de nível futebolístico, onde o goleiro dos outros é sempre bom. Se pelo menos me deixassem bater um pênalti...

Tudo bem. Acho que vou fazer como o Elton John, e comprar um time só pra mim. Onde, obviamente, eu seria o centroavante titular.

Meu irmão Vitor, por pura maldade, me apelidou de Buraco Negro, nas peladas que todo fim de ano acontecem no Monumental Estádio do Zoca, em Pelotas (RS). Zoca vem de “estádio dos Ocalito”, um campinho cercado de eucaliptos com seu perfume característico. São partidas que, além de desenferrujar a musculatura, ajudam a prevenir doenças respiratórias.

Buraco Negro é aquela zona do universo que suga tudo que estiver à volta e faz desaparecer, como um redemoinho de ralo de pia. A brincadeira é que, no campo, eu seria uma espécie de zona perigosa onde bola que chega, é bola perdida.

Acho uma injustiça comigo, um cara sem talento mas esforçado. Por todas essas questões, e pelo avançado da idade, fui parando de jogar futebol. Tenho me dedicado mais ao futebol de botão e, mesmo assim, sempre perco para meu filho.

Num momento de desespero, quando notei que estava definitivamente me afastando dos campos e me transformando apenas num
voyer
, deslumbrado com o Ronaldinho Gaúcho na frente da televisão, cheguei a bolar uma estratégia de jogo que poderia ser adotada por algumas equipes.

Eu seria contratado por uma pequena fortuna para jogar, não no time do contratante, mas no time adversário. Seria uma arma infalível. Um buraco negro é capaz de destruir qualquer esquema tático.
Acho que vou ligar pro Parreira.

Kledir Ramil

Caiu na Rede

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A escritora e jornalista Cora Rónai acaba de lançar um livro interessante chamado Caiu na Rede, onde coloca os pingos nos is e esclarece a verdadeira autoria de certos textos que circulam pela internet.

Dentre eles está incluído o meu Tipo Assim, um dos campeões de circulação, que se transformou em um “clássico”, assinado por Luis Fernando Veríssimo.

Tipo Assim é de 2003 e dá título ao meu primeiro livro de crônicas. Tenho recebido meu próprio texto, de várias partes do Brasil, assinado pelo mestre Veríssimo. Inclusive em arquivos Power Point, com música e ilustrações bonitas.

Alguns amigos e admiradores me escrevem indignados com tudo isso e já criaram até uma comunidade no Orkut. Na tentativa de desfazer o equívoco, criam novas mensagens e fazem circular para que a autoria seja devidamente creditada.

Fico agradecido pela iniciativa e pelo carinho. De minha parte, não esquento muito a cabeça, pois já estou acostumado a ser confundido com outro. Durante minha vida inteira a história se repete. Por mais que eu tente explicar, ninguém aprende quem é o Kleiton e quem é o Kledir. E tem até gente que pensa que somos colados um no outro.

Como foi no dia do casamento do Kleiton, quando o padre perguntou pra noiva:

- Luciana, aceita casar com Kleiton & Kledir?

Quando eu era criança, lá no sul, havia uma brincadeira chamada telefone sem fio. Não, não estou falando de celular. Telefone sem fio era uma brincadeira de rua, onde um grupo de crianças ficava passando mensagens faladas, de uma para a outra.

O primeiro criava uma frase, dizia baixinho no ouvido do segundo, esse por sua vez repetia para o terceiro e assim por diante até chegar ao último da fila, que então falava em voz alta o que havia sobrado da mensagem.

A diversão era exatamente essa, comparar a frase inicial com a bobagem em que ela havia se transformado após atravessar todos os obstáculos intermediários. Desde interferências reais, como problemas de audição, até contribuições voluntárias, como trocadilhos e piadinhas sem graça.

Hoje em dia vejo essas mensagens que circulam pela internet, sem autoria correta, um pouco como esse antigo telefone sem fio. Alguém pescou uma idéia, mexeu um pouco e passou adiante. Aí vem um e cola uma figura. Outro corta um parágrafo e acrescenta uma gracinha. Muitas vezes o que chega ao destinatário é um monstrengo literário, um texto Frankstein, sem pai nem mãe, pois ninguém é louco de querer assumir a paternidade de um negócio desses.

No caso do meu Tipo Assim, até que o texto se manteve mais ou menos fiel ao original. Apenas mexeram em alguns detalhes e acrescentaram um pedaço de uma outra crônica de minha autoria, que não altera o espírito da coisa, apenas o ritmo da narrativa.

Ah sim, e no final concluíram a obra com uma citação de Einstein.

Da qual eu nunca ouvi falar e não posso garantir que seja verdadeira.

Só Deus sabe!

Campanha Política

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As campanhas políticas têm muitas histórias folclóricas. No entusiasmo dos palanques, os candidatos usam frases de efeito, prometem até a lua e invariavelmente esquecem o bom senso e dizem um monte de besteiras. Das quais depois se arrependem. É o calor da campanha.

Essa eu vi com meus próprios olhos e ouvi com meus próprios ouvidos. Estávamos no interior do Paraná, esperando para participar de um showmício, enquanto uma longa fila de autoridades desfilava pelo palco. Um deputado estadual, candidato a reeleição, pegou o microfone e com a voz meio rouca soltou:

- O povo já está cansado de tanto político macarrão!

Ficou um silêncio, pois ninguém entendeu onde ele queria chegar. Ele então resolveu explicar a analogia:

- Isso mesmo, político macarrão! No começo são todos duros, cheios de princípios morais. Depois, quando entram na panelinha, começam a amolecer.

Tem a história daquele senhor idoso do interior do Rio Grande do Sul, ex-reitor da universidade, que foi lançado como candidato a Senador. Era uma figura querida em toda cidade e resolveram fazer um evento para promover a candidatura. No dia da festa, recebeu uma lista das pessoas importantes que estavam presentes e resolveu saudá-los, um a um.

- Saúdo Fulano de Tal, meu querido eleitor. Obrigado ao Beltrano, pela presença ilustre...

E por aí foi, lendo aquela lista quilométrica. Chegou ao nome de um tradicional político de outro partido e seguiu falando:

- Sicrano de Tal, meu querido eleitor...

Um assessor puxou o casaco dele e cochichou:

- Doutor, esse aí é adversário.

Como o velhinho não escutava muito bem, pegou a deixa e arrematou na hora:

- E ainda por cima está de aniversário! Eu convido a todos para cantarmos o Parabéns a você!
E puxou o coro.

A jornada de uma eleição é sempre uma aventura estressante. Muitas vezes, em campanha eleitoral, um candidato precisa discursar no mesmo dia, em comícios de até 4 ou 5 cidades diferentes. Um famoso político paulista, que chegou a governador do Estado, já meio velho e cansado, não agüentava mais aquela rotina de viagens e palanques.Depois de quase uma semana na estrada, num fim de noite, foi carregado para o último palanque do dia. Subiu de má vontade e foi direto pro microfone.

- Meus queridos cidadãos e cidadãs de São Caetano.

Um assessor lhe puxou pelo braço e cochichou no ouvido:

- Governador, aqui não é São Caetano, é São Bernardo.

Já de saco cheio o velho resmungou:

- Ah! É tudo a mesma me...!

Só que o microfone estava aberto e o comentário soou em alto volume pela praça lotada. Conclusão, não levou nenhum voto no município e teve de sair sob escolta policial.

Na eleição municipal de 2004, fiquei sabendo de uma história maravilhosa. Uma candidata à vereadora, no interior do Ceará, estava entusiasmada discursando no palanque e soltou o chavão:
- O voto é instrumento da democracia, não pode ser vendido.

A platéia veio abaixo com uma chuva de palmas. Empolgada com os aplausos, ficou ainda mais inflamada e mandou:

- O voto é que nem o c... A gente só dá pra quem a gente quer!!!

Não sei se foi eleita, mas bem que merecia.

Carlos Scliar

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Ivone, minha mulher, encheu minha vida de coisas boas. Uma delas foi Cabo Frio. E junto com Cabo Frio veio a amizade com o grande pintor, meu querido Carlos Scliar.
Scliar me chamava de “guri”, como que para relembrar, o tempo todo, nossa origem comum de gaúchos. Por muitos anos, eu, minha mulher e meus filhos fizemos parte daquele grupo de amigos mais chegados, que ele carinhosamente chamava de “filhotes”. Sua casa em Cabo Frio, litoral carioca, era a nossa casa de fim de semana. Tomamos muitas cuias de chimarrão, batendo longos papos e ouvindo as deliciosas histórias e aventuras do “filhotinho” Scliar.

E ainda tinha o feijão da Dona Cecília, os amigos Lili, Lima, Chico, Nicinha... Ali, no meio das telas, vimos Maíra, Julia e João crescendo, brincando e aprontando. Muitas vezes eu passava as tardes tomando meu mate e vendo-o pintar. Era o meu modelo de artista. Produzia compulsivamente, como se pintar fosse mais importante do que respirar.
O “filhotinho” Scliar já se foi. Deixou muita saudade. Onde quer que esteja, deve estar todo animado, contando histórias e inventando novidades.

Não sei onde ele foi parar, mas é bem possível que ande por aí, imortalizado em alguma flor, alguma berinjela, ou dentro de algum bule num canto de mesa.


* * *

Nesse sábado, dia 11, a cidade de Cabo Frio – onde ele viveu por mais de 40 anos - vai virar uma festa. Será inaugurada a Orla Scliar, um novo passeio com uma urbanização personalizada, reproduzindo as cores da paleta do pintor em vasos esféricos com vegetação nativa. E mais: durante a cerimônia, será inaugurada a escultura de Scliar, em tamanho natural. Tudo isso em frente à Casa-Ateliê, que hoje virou o Instituto Cultural Carlos Scliar. Vai haver uma exposição de quadros com registros da bela paisagem litorânea fluminense, que tantas vezes lhe serviu de inspiração.

Os poetas Ferreira Gullar e Romério Rômulo, e o ator Haroldo Costa prestarão homenagens com leituras de textos e poemas.
Infelizmente, meus compromissos profissionais me levam para outro lado e não vou poder estar presente. Mas vou estar em pensamento. E coração.


Kledir Ramil

Carnaval

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Carnaval é uma festa popular onde as pessoas bebem muito e fazem tudo aquilo que o bom senso não permite que elas façam durante o ano. As mulheres tiram a roupa, os homens se vestem de mulher e por aí vai.

A farra começa na sexta-feira, logo após o final do expediente. O sujeito bota uma máscara para ficar no anonimato, cai na gandaia e só aparece de volta na semana seguinte. Quando aparece.

Antigamente havia o corso, um desfile de carros conversíveis com foliões fantasiados de marinheiros e garotas com sarongues e colares havaianos.

Nos salões, moças e rapazes jogavam confete e serpentina uns nos outros, ao som de marchinhas como A Cabeleira do Zezé, onde o refrão perguntava “será que ele é? será que ele é?”. Depois a coisa emendava em “vem jardineira, vem meu amor” e seguia com “mulata bossa nova, caiu no halli galli” (pronuncia-se ráli gáli). Não dá pra explicar aqui o que era o halli galli. E nem me pergunte como uma coisa dessas foi parar numa letra de marchinha de Carnaval.

Eram tempos mais ingênuos. Lança-perfume, acredite se quiser, era usado para jogar nos outros. A brincadeira era dar um susto nas gurias, com um esguicho gelado no pescoço.

Certa vez, quando eu era criança, assisti a uma solenidade onde o prefeito entregava a chave da cidade para o rei Momo, um gordo sorridente com uma coroa dourada na cabeça.

Achei aquilo uma temeridade, ficarmos todos entregues nas mãos daquele gordo maluco. Só fiquei tranqüilo depois que meu pai me garantiu que tudo não passava de um gesto simbólico.

Hoje em dia, a folia ganhou dimensão de espetáculo, sem perder em entusiasmo. Existe Carnaval em vários lugares do mundo, como New Orleans e Veneza. Mas nenhum é tão animado quanto o nosso.

No Rio de Janeiro existe o tradicional desfile das Escolas de Samba, “o maior espetáculo da terra”, onde alemães, holandeses e dinamarqueses se fantasiam de índios tupinambás com plumas, paetês e lantejoulas.

Na frente da bateria vem sempre a madrinha, uma mulher deslumbrante - dessas que você só vê em revistas - com tudo no lugar, requebrando com desembaraço seu patrimônio na cara dos músicos. O que faz com que o samba enredo seja cada vez mais acelerado.

Infelizmente, na quarta-feira de Cinzas a festa acaba e a vida volta ao normal. Ao voltar pra casa, você vai sempre poder argumentar que bebeu demais e não sabia o que estava fazendo. É uma explicação ótima. Só não venha me reclamar depois se sua mulher chegar com a mesma desculpa.

 

Certas Intimidades

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Caro Roberto:
Espero que esteja tudo bem com vocês.

Minha sogra está viajando para os Estados Unidos e falei que ela poderia ficar hospedada na sua casa. Tomei essa liberdade pois, como você me deu o número do seu celular, senti que já existe entre nós uma certa intimidade. A princípio ela ficou meio constrangida, pois não quer incomodar, mas eu insisti. Estão viajando também minha cunhada com o novo marido, os três filhos adolescentes do primeiro casamento e o casal de gêmeos recém-nascidos (que choram a noite inteira). Tudo gente boa. Sugiro que você contrate uma babá 24 horas, pra Fabi não ficar muito sobrecarregada quando o pessoal sair pra passear e deixar os pequenos.

Sei que você não terá dificuldade em acomodar todos. Falei pra eles que você é gente fina, “teria imenso prazer" e, inclusive, “fazia questão” de ir pro trabalho de metrô pra deixar o carro à disposição.

Quando você fizer o supermercado, não esqueça de comprar fraldas descartáveis, papinhas da Gerber e umas três garrafas de conhaque, pois meu cunhado bebe. Ah, e ração pra cachorro! Minha sogra não viaja sem a Sissi, uma
poodle
mini que é uma gracinha. Parece gente.

Me faz um favor. Estou devendo uma grana pra velha e ela quer o dinheiro pra viajar. Adianta aí uns 6 mil dólares pra ela, que depois eu te pago.

Não se preocupe com alimentação. O pessoal come de tudo. Minha sogra é judia: comida
kosher
. O cunhado é argentino e come todos os tipos de carne, especialmente de caça. A cunhada é macrobiótica radical, da linha ortodoxa do Kikuchi, mas sempre carrega os livros de receita. Com a facilidade que você tem para a culinária, não haverá nenhum problema em cozinhar um arroz integral com bardana ou uns bolinhos de tofu com Agar Agar. Com a gurizada a coisa é ainda mais simples. O mais velho vai de Big Mac com Coca Light. A do meio só come filé com fritas e arroz branco com caldinho de feijão preto (que você encontra em qualquer esquina de Newark). A mais nova é um pouco mais complicada pois é diabética, mas o médico dela vai te ligar passando as instruções. Para os gêmeos, é aquela bobagem de mamadeira e tal que qualquer babá razoavelmente instruída sabe preparar.

Como dá para ver, sua vida pode seguir o ritmo normal. Talvez precisem um pouco de ajuda, quando saírem para passear ou fazer compras. Ninguém fala uma palavra de inglês.

Não esquece que tem que pegar o pessoal no aeroporto. Estão saindo daqui a dois dias, naquele vôo da Varig que chega de manhã cedo. Liga aí pra confirmar o horário. Acho que um carro só não dá, eles vão cheios de bagagem. É coisa pra mais de um mês.
Um grande abraço

Começou a Copa

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Começou a Copa. Até que enfim.

Além de ter que segurar a ansiedade, eu não agüentava mais ler a cobertura dos jornais diários. A imprensa brasileira mandou tanta gente para a Alemanha, com tantos dias de antecedência que, é claro, o pessoal não tinha sobre o que falar.

Foi até comentarista de moda. O Fuxico devia ter me mandado como enviado especial. Falei com Dona Ester, minha patroa, mas não consegui convencê-la. Eu poderia estar escrevendo sobre coisas importantes. Só do mundo fashion, eu teria conseguido notícias sobre o sapato da Claudia Schiffer, o terno Armani dos jogadores ingleses, o Dolce Gabanna dos italianos, os novos estilos de corte de cabelo e a tendência ao uso do Ipod.

Nesse período que antecedeu ao primeiro jogo oficial, esse monte de jornalistas, sem nada pra comentar, encontrou assunto nas coisas mais prosaicas. Por exemplo, nunca li tanto a respeito de plantações de morangos. E de aspargos. Virei um expert em agricultura.


Falaram de jogador mais bonito, jogador mais feio, mais velho, mais novo. Vi matérias com fotos sobre a família da camareira do hotel. E pela primeira vez na imprensa mundial, uma bolha no pé foi assunto de primeira página.


Aí, começou um tal de contar sobre a comida do restaurante grego no shopping de Königstein, o motorista de táxi português, o frio que a Fátima Bernardes estava passando longe do marido, sem um cobertor de orelha. O coitado do William Bonner ficou no Brasil ralando, sobrecarregado de trabalho, tocando o telejornal e segurando a casa com três crianças pra cuidar. E a mulher lá, comendo morangos na primavera européia.


De repente, para alegria da imprensa, o elástico arrebentou e machucou a bunda do Ronaldinho. Pagou cofrinho e foi parar em todos os jornais do mundo. Na falta de assunto, a gente viu a bunda do número 1.


Depois, o Lula em vez de ficar calado, perguntou se o Ronaldão continuava gordo. O atacante, de bate pronto insinuou que o Presidente da República é cachaceiro. Maior baixaria. Claro, se nós estamos aqui ansiosos, imaginem os jogadores lá, há um mês em concentração, sem as Raicas.


Houve uma noite de folga em que alguns foram num bar 'caidaço' da região. Não tinha nada pra fazer, ninguém pra pegar. Umas mocréias pediram pra bater fotos de fãs e saiu nos jornais. Roberto Carlos, que havia declarado que passara a noite no hotel jogando pingue-pongue, quase perdeu a noiva.


Se vida de jogador não é fácil, muito pior é a de jornalista atrás de algum furo. Nos primeiros dias de cobertura só tinha treino. E treino é aquela coisa. Corridinha pra lá, corridinha pra cá, chute a gol com bola parada, lançamento em profundidade. Não dá notícia.


Depois veio um jogo treino... contra um time da 3ª divisão da Suíça! É como roubar doce de criança. O que é que os caras podem comentar de um jogo desses? Que o Kaká tá jogando com a camisa pra fora do short... que o Cafu festejou aniversário com bolo de chocolate... que o Mineiro é gaúcho...


Aí, chegaram naquele ponto de começar a falar sobre a falta de assunto. Sobre o tédio que é viver num país desenvolvido, sem grandes aventuras urbanas, sem tiroteio, valeriodutos, mendigos no sinal... Bom é o Brasil, onde neguinho tem que correr, tem que se virar, tem que saber sambar... Por isso temos o melhor futebol do mundo. É, pode ser. Talvez isso dê uma tese de doutorado. Por enquanto, deu é pra encher lingüiça durante esses primeiros dias sem futebol de verdade.

Mas agora começou. Até que enfim. A bola rolou. Espero que a tese de melhor do mundo se confirme. E que o Ronaldinho Gaúcho mostre tudo o que sabe. Com a bola.
A bunda a gente já viu. É bonita.

Dalva, Minha Mãe

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Minha mãe teve sete filhos e só um não vingou. Os outros, mal ou bem, cresceram e se multiplicaram, como manda a Bíblia.

Dalva é uma santa mulher, jamais disse um palavrão em toda sua vida. Nasceu em Jaguarão, na fronteira, perdeu o pai muito cedo e foi criada com dificuldade por Vó Ramona. Minha avó era uma guria uruguaia que casou com 14 anos “incompletos” e ficou viúva aos 25, com quatro filhas pra cuidar. Só uma não vingou.

Aos 11 anos, minha mãe foi mandada pro internato, um colégio de freiras em Santa Maria. Ao fazer a mala da filha pra viagem, Ramona incluiu umas “toalhinhas” dizendo que ela poderia precisar daquilo em algum momento. E foi só. Dalva considera essa a única conversa sobre educação sexual que teve em toda vida.

Até completar 18 anos, estudou e aprendeu boas maneiras com as noivas de Cristo. Depois, saiu pra rua, encontrou o amor da sua vida e, diz a lenda, casou virgem. Não conheceu outro homem que não fosse meu pai. Acho que ela fez muito bem. Não tinha nada que ficar sassaricando por aí.

Além de criar aquele bando de filhos, Dalva foi professora dedicada e alfabetizou metade da população de Pelotas. Ao se aposentar, passou a desenvolver seu inegável talento artístico, criando obras de tapeçaria, mosaico e pinturas Bauernmalerei, que são disputadas a tapa pelos filhos.

Desde que meu pai se foi, ela assumiu decididamente o controle da tropa. Está sempre com o pensamento na família, que cresce de forma exponencial e hoje tem ramificações até em Barcelona.

Quando não está viajando, fica em seu apartamento cercada de fotos do marido, dos filhos e netos. Ah, sim, e uma fotinha dos genros e noras, num canto de parede, que ela chama debochadamente de “agregados”.

Dali do seu bunker, por telefone, ela comanda a prole. Liga, pergunta por cada um, dá palpites e faz recomendações, sempre com o dedo indicador em pé.

Reza todos os dias, pedindo a Deus que olhe por seus filhos, netos e pelo bisneto que vai nascer. Para os “agregados”, pede saúde e paciência para que possam cumprir bem sua função, que é cuidar dos filhos dela.

Sua grande preocupação é saber se todos estão comendo. Desconfio que passou fome na infância, só isso explica tanta obsessão. Quando quero fazer intriga, digo pra ela que minha mulher não tem me dado comida. É o suficiente. Manda recados pra nora, ameaçando me levar de volta, mesmo com o prazo de validade vencido. A outra responde que me devolve com o maior prazer, desde que seja indenizada pelos serviços prestados. E por aí seguem.

Não que ela desconfie da capacidade de gerenciamento doméstico dos “agregados”. Mas, por via das dúvidas, volta e meia chega, via Sedex, uma caixa com doces de Pelotas – passas de pêssegos, figos cristalizados, pasteizinhos de Santa Clara...

Nunca ensinou os filhos a cozinhar. Diverte-se dizendo que nos criou para sermos intelectuais e não ia perder tempo com coisas menores. O resultado é que até hoje ninguém sabe fritar um ovo.

Certa vez, o Diário Popular foi entrevistá-la e ela declarou que todos os seus filhos são "excepcionais". Rimos muito, reclamando que ela nos chamou de deficientes mentais. Ela diz que não, mas até hoje desconfio que, com seu humor refinado, usou intencionalmente o adjetivo de duplo sentido.

Como são muitos filhos e ela já beira os 80, naturalmente não lembra direito certas passagens da nossa infância. Por isso, se alguém insiste em saber detalhes pessoais como, por exemplo, quando começou a falar, ela responde sempre com uma média aritmética: “Vocês todos começaram a falar mais ou menos com 10 meses”.

Minha mãe conheceu meu pai numa festa de São João, no Centro Português. Como não tinha roupa pra ir ao baile, Vó Ramona descosturou o forro floreado do acolchoado e improvisou um vestido.

O modelito deve ter ficado horrível mas, mesmo assim, meu pai se apaixonou perdidamente.

Era um homem de visão. Apesar da embalagem de pano de acolchoado cheirando a naftalina, ele percebeu que o recheio era de primeira. E era mesmo.

Diarío de Bordo

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Segunda feira
Acordei em alto mar com o sol batendo na cara. Tô com a boca seca. Eu não bebo, mas a sensação é de ressaca. O dia está amanhecendo e só consigo lembrar que ontem...

Domingo, dia anterior
...estávamos na Ilha Grande, na casa da minha irmã. Depois do churrasco meu cunhado convidou todo mundo pra passear de lancha. Tentei argumentar que todos haviam bebido muito, mas fui voto vencido. Entupiram a lancha de gente, latas de cerveja e, não me pergunte como, um grupo de pagode.

Na Praia das Palmas, resolveram descer pra dar um mergulho e comprar mais cerveja. Só sobrou o cara do pandeiro, que dormia atirado num colchonete, na proa. Ou seria a popa?

Como o pessoal resolveu dar uma caminhada pela mata, meu cunhado me pediu para levar a lancha até Lopes Mendes, a praia de mar aberto que fica do outro lado da ilha. Quando tentei explicar que nunca dirigi uma lancha, já haviam se mandado.

Só lembro que quando fiz a curva do Farol do Castelhano, dei de frente com um vento sudoeste vindo na minha direção em alta velocidade e comecei a rezar o Pai Nosso, que é a única oração que ainda lembro inteira.

Segunda feira, de novo
De volta para o presente. O sol que queimava minha cara aumentou. Bem como o volume do ronco do cara do pandeiro. Procurei uma garrafa d’água, mas só encontrei uma lata de cerveja. Quente. Não tem tu, vai tu mesmo.

Olhei para estibordo (ou seria bombordo?) e só vi mar. Olhei pro outro lado, seja lá o nome que se dá pra ele, e também só enxergava mar. Que exagero de oceano! Pra que fazem um negócio tão grande assim? Não sei pra quê tanta água. E salgada.

Aquele sol na moleira e a situação de estar cercado de água por todo lado sem poder beber, foram me deixando ainda mais sedento. E impaciente.
Foi quando o pagodeiro acordou:
- Olha aí gente! Deixa comigo! Solo de pandeiro!
Tentou levantar, cambaleou e vomitou no meu pé.

Sábado, 2 dias atrás
Ou serão 3 dias? Quem me garante que hoje é 2a feira? A sensação quando acordei era de uma 2a feira, mas agora comecei a questionar minha posição no tempo. Minha posição no espaço eu tenho certeza: estou no meio do Oceano Atlântico. Ou seria o Pacífico?

De volta ao passado. No sábado, quando chegamos na marina pra pegar a lancha, o marinheiro comentou com meu cunhado que havia consertado o rádio. Bingo! É só eu ligar o rádio e gritar: SOS, SOS! Como se viu no filme do Titanic. Só espero que o resgate seja mais rápido.

Segunda feira, ou melhor, dia de hoje, que eu imagino seja uma 2a feira
Tentei ligar o rádio, mas o troço não funcionava. Resolvi pedir ajuda aos universitários, no meu caso, um pagodeiro embriagado.

- Deixa comigo! Parada de rádio é comigo mesmo, merr mão!!!

Pegou o microfone e saiu gritando pra uma platéia imaginária:

- Olha a Mangueira aí gente!!! Bora tamborim! Bora cavaquinho!

Uma onda mais agitada balançou a lancha. O puxador de samba engraçadinho, improvisando sobre o movimento do chão que não parava quieto, tentou brincar de mestre sala, se enroscou nas próprias pernas, perdeu o equilíbrio e acabou arrancando o fio espiralado que ligava o rádio transmissor ao aparelho.

Minha paciência esgotou. Peguei o pandeiro e enfiei na testa dele. O cara cambaleou, deu 2 passos pra trás, tropeçou no isopor vazio e caiu de costas dentro do mar.

Foi quando ouvi, em inglês, uma voz com som de megafone:
- Mãos na nuca! Largue sua arma, cucaracho! Aqui é a Guarda Costeira dos Estados Unidos da América. Você tem todo o direito de ficar calado... Caso você não tenha advogado, etc etc...

Não sei, não. Tô começando a achar que eu bebi.

Amanhã, ou melhor, tomorrow
Como é que eu, só de bermuda e sem documentos, vou explicar que não sou cubano e que, apesar de todas as evidências, pandeiro é um instrumento musical?

Drogas

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Cheguei em casa decidido, com aquela idéia na cabeça. Após o jantar, reuni a mulher e os filhos:

-Tá na hora da gente ter uma conversa sobre drogas.

No meio daqueles seis olhos arregalados, puxei uma matéria que havia encontrado numa revista e comecei a ler em voz alta:

-Cannabis Sativa, também conhecida como cânhamo, é uma planta muito antiga. Há milhares de anos, os chineses já usavam para extrair uma fibra, que depois virava tecido para confecção de roupas. As caravelas, na época em que Cabral descobriu o Brasil, usavam velas feitas dessa fibra. É uma planta que também serve de remédio. Para tratamento do glaucoma, do câncer...

Foi quando meu moleque interrompeu:

-Essa Cannabis aí não é a maconha?

-Isso mesmo. Cannabis Sativa, é o nome científico da coisa. Tô aqui lendo isso, pra vocês poderem entender a importância dessa planta. E continuei:

-Um século atrás, quase 100% do papel usado no mundo era feito dela. Os primeiros jeans foram produzidos com fibras de cânhamo. Dá pra fazer sapato, roupas, tinta, combustível, chocolate e até shampoo.

E aí minha filha, fazendo graça, mandou:

-Tá, já deu pra entender. Agora vamos pra aula prática: como enrolar um baseado.

Depois de rirmos muito, completei:

-Achei que era importante a gente poder conversar em família sobre as drogas. Vocês estão numa idade em que começam a experimentar de tudo por curiosidade e precisam estar bem informados.

Minha mulher entrou no papo:

-É interessante como uma planta de tanta importância se transformou em erva proibida. O cigarro e o álcool acabam com a saúde de qualquer um e estão por aí, liberados.

Fomos adiante, tentando explicar a eles que o problema não é apenas o efeito da droga em si, mas a dependência que cria e toda a barra pesada que a coisa envolve. O consumo de drogas realimenta uma rede criminosa de tráfico que contribui, cada vez mais, para o aumento da violência nas grandes cidades.

Já era fim de noite, eles começaram a ficar cansados e foram dormir. No dia seguinte tinham aula cedo. Meu filho me deu um beijo de boa noite:

-Aí pai, valeu! Amanhã vou chegar na escola com essa novidade. Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil numa caravela de maconha!!! Mó onda aêee...

Kledir Ramil

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