A arte de esquecer

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Chegamos em Aracaju, Sergipe, para uma apresentação. Ginásio lotado. As luzes apagaram e entramos no palco sob um estrondo de gritos, palmas e assobios. Primeiros acordes, acendem os spots, Kleiton vai até o microfone abre os braços e grita:

- É um prazer estar aqui em Araçatuba!!!
Foi a maior vaia que já ouvi em toda minha vida. Rapidamente peguei meu microfone e tentei consertar:
- Ele ainda está em Araçatuba. Eu estou aqui com vocês em Aracaju!

Parece brincadeira, mas é verdade. Muitas vezes, no meio da correria do showbizz, a gente acorda num quarto de hotel e não lembra nem em que cidade está.

Tudo bem, não se justifica a gafe do Kleiton, mas ele andava cansado, a gente havia passado por várias cidades, inclusive por Araçatuba uns dias antes... Tá bom, tá bom, ele é meio desligado mesmo. Do tipo que bota açucar na sopa e escova os dentes com creme de barbear.

Quando começa a contar uma piada, eu já fico por perto pois ele sempre esquece o final e me pede ajuda. É assim desde criança. Desenvolvemos então uma técnica de contar anedotas a dois. Ele começa e eu termino.

Para explicar seus esquecimentos, Kleiton se diverte recorrendo à teoria de que os grandes gênios não podem ficar se preocupando com pormenores, pois o tempo todo têm problemas de grande magnitude para resolver. Questões como as experiências com células-tronco embrionárias, os avanços da nanotecnologia e o significado da existência humana frente ao universo infinito.

E invariavelmente, para ilustrar a teoria, cita aquela história do Einstein que vinha caminhando pela rua e foi interrompido por um aluno. Depois de alguns minutos de conversa, ao se despedir, perguntou para que lado estava caminhando. Não lembrava mais se estava indo pra Universidade ou voltando pra casa.

Há pouco tempo, Kleiton descobriu um livro chamado a Arte de Esquecer, de Iván Izquierdo, e ficou fascinado. A obra faz uma apologia do esquecimento como faculdade vital para o equilibrio emocional e cognitivo. Este seria o aspecto mais notável da memória, pois permite que não naufraguemos num turbilhão cerebral de recordações desnecessárias. Ou seja, esquecemos para poder pensar com clareza, para não enlouquecer.

Estávamos em um grupo de amigos, tomando um café da Fnac e Kleiton comentava entusiasmado que esse livro era a sua redenção. Agora havia uma explicação científica, um estudo abalizado da neuropsicologia sobre o comportamento supostamente aéreo que acompanha as pessoas especiais.

De repente, levantou e foi até a livraria. Voltou feliz com um exemplar de A Arte de Esquecer debaixo do braço, pois finalmente havia encontrado o livro para comprar.

Luciana, sua mulher, caiu na risada.

- Mas Kleiton, A Arte de Esquecer?!? Você comprou esse mesmo livro semana passada!!!

Ele diz que é mentira, mas ela jura que ele esqueceu que já havia comprado o livro e há um outro exemplar igualzinho na mesa de cabeceira.

Coisa de gênio.

ANOTA AÍ: nessa quarta-feira, dia 4, tem Kleiton & Kledir no Citibank Hall em São Paulo. Não se preocupe que ele vai. Temos uma pessoa na equipe só pra cuidar disso.

Kledir Ramil

A Máquina de Sonhos

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Há pouco tempo, lançaram nos Estados Unidos uma máquina de programar sonhos. Você escolhe o tema, os detalhes, o clima, liga o aparelho e pronto. Dorme como um anjo.

Estávamos em excursão pelo interior de São Paulo e comentei a notícia com o Kleiton, meu irmão, que é um estudioso do assunto. Ele me disse que é possível fazer isso sem a ajuda de aparelhos e me ensinou a técnica. Consiste em ficar colocando na mente durante o dia, através de pensamentos de repetição, aquilo que se gostaria de sonhar à noite. Ou seja, você perde o dia, mas em compensação ganha um sono bacana, tranquilo, sem pesadelos.

Resolvi fazer uma experiência e passei o dia inteiro pensando e falando na Luana Piovanni. Até entrei na internet para fazer uma fixação de imagem. Encontrei umas fotos lindas dela de biquíni na Praia de Ipanema e tive que fazer um esforço de concentração para armazenar tanta informação importante. À noite, com tudo aquilo na cabeça, fiz uma oração a Santo Antônio e fui dormir.

Para minha surpresa, a coisa funcionou. Sonhei que estávamos num set de filmagem, em Hollywood. Luana e eu éramos os protagonistas de uma nova comédia romântica e rodávamos uma cena caliente. Muy caliente. Cama redonda, lençóis de seda, aquelas coisas. Quando o diretor gritou “corta”, em inglês, profissionalmente me dirigi ao trailler para descansar e estudar o texto da cena seguinte.

Mas Luana, confundindo os limites entre atriz e personagem, invadiu meu trailler enlouquecida de amor e de desejo, a fim de fazer da ficção, realidade. Tentei conversar, chamá-la de volta à razão, afinal estávamos ali a trabalho, mas ela estava descontrolada.

Debaixo de um calor californiano, no meio de cenas sobrepostas que pareciam coisa de cinema - um drama, dentro de um filme, dentro de um sonho - um telefone começou a tocar insistentemente. Acordei suando, em pleno verão de Ribeirão Preto. Atendi e ouvi a voz de João Schmidt, meu produtor:

- Bom dia! Temos uma hora para estar no aeroporto!
Respirei fundo e me espreguicei. Levantei calmamente, preparei meu chimarrão, li o jornal, tomei meu banho frio e desci para o saguão do hotel. Ao encontrar meu produtor, fui seco e direto:

- Você está despedido!

Kledir Ramil

A Palavra Mais Bonita

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A palavra mais bonita da língua popular brasileira é arco-íris. É leve, luminosa e tem um som maravilhoso. Adágio, erva cidreira, amígdalas, serenata e morango também são bonitas, mas arco-íris é a minha preferida.

Os planetas em geral têm belos nomes: Terra, Júpiter, Vênus, Urano... Sol e Lua, com seus nomes curtos e definitivos, formam um casal especial. Carregam esse simbolismo de masculino-feminino e não só resistem ao tempo, como são usados para medir a passagem dele.

As cores também foram bem batizadas. Azul, lilás, preto, branco, verde. Até vermelho, que é uma palavra forte e agressiva, combina com a cor que representa. Minha única discordância é com o amarelo. Sempre achei que merecia um nome melhor.

Certas palavras não é que sejam bonitas, mas são simpáticas. É o caso de pipoca, camelo, mocotó, caneca, galocha e perereca. Algumas são quase boas, mas parece que têm um r no lugar errado: crocodilo, lagartixa. Outras têm um r a mais: próprio e frustrado. Segundo a sabedoria popular, cérebro deveria se chamar célebro e no pronome nós está faltando um i.

Há palavras pequenas muito bem construídas, como bola, tatu, aço, raio, coco, uva. Há outras que são compridas, mas bem equilibradas: paralelepípedo, sonoplastia, velocidade, dicionário, caleidoscópio, literatura. E há as de tamanho médio, que formam a base de nossa agradável língua: selvagem, primavera, órbita, hortelã, liberdade, perímetro, lágrima, destino, pigmento.

O corpo humano tem coisas belas, para compensar outras que não quero nem citar. Boca, pernas, dedos, cabelos, olhos, lábios. São todos lindos, especialmente os do corpo feminino.

Alguns verbos são bonitos e fáceis de praticar: espreguiçar, seduzir, envolver, cantar, saborear, esquecer. Já o verbo amar é simples e direto, mas muito difícil de ser dito e realizado.

Algumas palavras interessantes são desperdiçadas em papéis menores: meretriz, coliformes, migalhas. Outras são confusas, como guarda-chuva. Guarda-roupa faz sentido, mas guarda-chuva? Em espanhol se diz paraguas, que é mais lógico. Céu e paraíso são ótimos. Já purgatório é muito pior do que inferno, pelo menos no nome.

Um hábito que não entendo é por que sempre agradecemos, dizendo obrigado. A palavra é bonita, mas a idéia é ruim. Outra que até hoje ninguém me explicou, é por que se escreve muito e se lê muinto.

As notas musicais são perfeitas: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Mas, se você precisar usar um sustenido ou uma semi-fusa, a coisa desafina.

Delírio, sonhos, algodão, sabiá, oceano são belas palavras fugidias. Já fugidia é uma palavra horrorosa.

Uma detalhe fascinante, na linguagem em geral, são as palavras homônimas ou polisêmicas. São vocábulos de dupla personalidade, que acumulam funções completamente diferentes. Banco pode servir para guardar dinheiro ou para sentar; manga de camisa ou fruta; andar, verbo ou piso de prédio. Piso, por sua vez, pode ser também do verbo pisar. São, do verbo ser ou de santo. E mais: nó, salto, canto etc. Lewis Carrol brinca, com maestria, com esse jogo de significados em Alice no País das Maravilhas.

A criação de novas palavras é o que faz a evolução de uma língua. Eu, por exemplo, estou há dias com uma palavrinha simpática que inventei: miloca. Mas não sei o que fazer com ela. As gírias também são renovadoras. Uma palavra que hoje tá na rua, na boca do povo, amanhã pode estar num romance ou até num discurso de posse da Academia Brasileira de Letras. É isso aí!

Gosto de vocábulos objetivos, de frases sem meias-palavras. Adjetivos são para deixar uma idéia mais clara, não para enfeitá-la. Essa admiração por uma linguagem direta, substantiva, me aproximou das siglas: MPB, SOS, TPM, CQD, RFFSA, CBF. É informação concentrada, compactada. Se você passar um zip, cada uma delas vai abrir um mundo infinito de curiosidades. Só não recomendo mexer na FEBEM.

 

Kledir Ramil

A Pílula da Felicidade

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Minha mulher foi fazer uma consulta, para tratar de sua enxaqueca, e o doutor chegou à conclusão que ela precisava tomar antidepressivo. Agora virou moda! Tudo que é médico acha que o paciente tem que tomar um comprimido desses pra dar um up, pra segurar a barra do dia-a-dia.

O problema é que minha mulher já é acelerada por natureza. Não sei de onde o cara tirou essa idéia. O resultado é que ela entrou num estado de euforia permanente, e começou a apresentar um comportamento de risco. Risco dela, da família e da sociedade em geral. Acordava às 5 da manhã. Fazia esteira, lendo o jornal e vendo tevê. Ia pra cozinha, ligava todos os aparelhos, preparava o café de todo mundo, adiantava o almoço, o jantar, batia um bolo e misturava açaí com granola no liquidificador. Aí, chamava todo mundo, com Rolling Stones tocando em alto volume no som da sala, e começava a sessão de ginástica.

Tentei consolar meus filhos:
- Não se preocupem, são os comprimidos. Vou falar com o doutor.

Ninguém agüentava mais. Eu andava com o corpo dolorido de tanto exercício, e não podia nem sentir cheiro de açaí.

A coisa só parou quando o doutor se tocou do equívoco e mudou a medicação. O novo antidepressivo deixou ela aplastada. Vivia com sono, dormindo pelos cantos.

A casa ficou triste, sem graça. Fizemos um abaixo-assinado pedindo a volta dela ao seu estado normal, que é aquele grau de insanidade civilizada, sob um certo controle.

Depois da invenção do Prozac, todo mundo começou a tomar esse negócio como se fosse uma vitamina que estivesse faltando no organismo. É como se Deus, na hora de criar Adão, tivesse esquecido de colocar a pilha de nove volts.

Hoje, qualquer situação é desculpa. Se alguém quer emagrecer, antidepressivo. Quer engordar, antidepressivo. Se quer relaxar, se quer ficar ligado, o remédio é sempre o mesmo, para qualquer sintoma. Não é à-toa que é chamada de “a pílula da felicidade”.

Tá todo mundo tomando. E se você não toma, fica fora do tom.

Fui a uma festa animadíssima, pura alegria. O único infeliz era eu. Parecia que ninguém tinha contas pra pagar, problemas no escritório e filhos pra criar. Lembrei de Thomas Morus e sua ilha utópica. Se não me engano, lá também tinha um negócio pra tomar. Como era mesmo o nome?

Essa idéia do elixir da felicidade acompanha o homem desde os primórdios da civilização. E como a curiosidade mata, resolvi experimentar.

Inventei uma dor no braço, fui no meu clínico geral e saí com uma receita de antidepressivo. Comecei a tomar e me deu um baixo astral do cacete. Jurei que o mundo era mesmo uma merda e até andei pesquisando algumas técnicas de suicídio. Just in case.

Como se não bastasse, brochei. Sexo já era. Me bateu uma paranóia. Será que gastei minha cota com antecedência? Será que preciso de um outro tipo de comportamento, mais condizente com a minha faixa etária?

Liguei pro médico e ele me tranqüilizou, o tal comprimido diminui o apetite sexual. Ah, bom, achei que era eu! É culpa do remédio. Parei na hora. Joguei a caixinha fora.

Não consigo entender essa gente. Estão rindo do quê? Ninguém come ninguém e vivem às gargalhadas.


Kledir Ramil

Abandono de Emprego, A Saga Continua

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Como eu estava contando semana passada, fomos recolhidos de uma ilha deserta por um pessoal bacana, de iate, que nos levou para uma mansão em Fort Lauderdale, na Flórida.

A primeira coisa que fiz, depois de tomar um banho e comer alguma coisa, foi ligar pra Dona Ester, minha patroa. Imaginei que ela devia estar preocupada. Afinal, eu nunca mais dei sinal de vida.

Acontece que a mulher estava ensandecida. Não queria ouvir minhas explicações. Me ameaçou com processo judicial, por abandono de emprego. Pô, passei o maior sufoco: abdução por alienígenas, desastre aéreo, naufrágio, tubarões, etc etc e ela não quis nem saber. Pô, mulher estressada!

Pra piorar, no momento em que eu estava falando com ela, caiu a ligação. É que o Wilma passou atropelando tudo. Não, o Wilma não é um travesti, é uma dessas furaconas com nome feminino que, assim como algumas mulheres, estão cada vez mais descontroladas e imprevisíveis.

Pois bem, o Wilma (é assim mesmo que se diz, com o artigo masculino) arrancou o telhado da casa em que estávamos e também o encanamento, os fios elétricos e o cabo telefônico. Por isso, caiu a ligação. Mas, Dona Ester se ofendeu, achou que eu tinha batido com o telefone na cara dela.

Imagina se eu, um cara educado, iria cometer uma grosseria dessas! Ainda mais com uma mulher sensível como Dona Ester.

Voltando ao assunto. Destelhada a mansão, a situação foi ficando insuportável, pois chovia a cântaros. Parecia que haviam despejado as Cataratas do Iguaçu em cima da gente. E não era só água. Caía raio, galho de árvore, lata de lixo... Veio voando um cortador de grama, uma vaca charolesa e até um
truck
, um desses caminhões enormes que carregam gasolina. Um perigo!

Devido à situação calamitosa, corremos para o abrigo disponível, o banheiro da suíte do casal americano que tão generosamente nos havia salvo e hospedado em sua residência, na Flórida.

O local usado por eles para se protegerem dessas furaconas, que sempre passam por lá enlouquecidas, é a banheira do
bathroom
. Ficamos ali, socados numa
jacuzzi
por mais de três horas, eu, minha mulher, meus dois filhos e uma casal de estranhos que, apesar de muito simpático, não cheirava bem.

Os caras estavam há três dias no mar, pescando, tomando cerveja, pegando sol... E ainda não tinham tomado banho. A coisa foi ficando insustentável. Eu não conseguia respirar. Sou alérgico a cheiros fortes, especialmente morrinha-de-gente-estranha-amontoada-comigo-num-box-fechado. Minha mulher rezava a Deus, pedindo pra que não caísse nenhuma vaca na nossa cabeça. Eu pedia que, se fosse cair alguma coisa, que caísse dinheiro. De preferência, em dólares. Meu guri estava adorando a aventura. Gritava: “Radical, radical!!!! Uhuuu!!! Rock and roll!!!!”. A guria chorava, pois havia perdido um
piercing
na confusão.

Foi quando pedi emprestado o celular do gringo e liguei novamente pra Dona Ester, minha patroa:

- Alô - tive que gritar - alôoo!!!!! Dona Ester!!! Sou eu, o colunista que naufragou no Caribe. Não, Dona Ester, tudo bem. Só queria que a senhora entendesse que estou com problemas. Tô aqui dentro da banheira com um casal de americanos, minha mulher e meus dois filhos... Peraí, peraí... Caiu uma bicicleta do céu...
Shit!!! Yes, it's a bike! I can´t believe!!!
Alô, Dona Ester. A situação tá muito complicada. Sim, eu sei que tá ruim pra todo mundo. Imagino que está difícil aí pra senhora... Mas, é culpa do Wilma... Não, não é um travesti. Não, a senhora não entendeu. Não estou com nenhum travesti dentro da banheira. O Wilma é uma furacona...
Oh,

shit... It's a alligator, yes... Help!!! Help!!! Excuse me, Mrs. Ester...
O
bathroom
está sendo invadido por um bando de
alligators
. Como é que fala em português? Isso... Jacaré... Crocodilo, sei lá... Esses bichos de boca grande... Xô!!! Sai pra lá jacaré!!!
Please, Mrs. Ester,
liga aí pro 911 e pede socorro... Não, eu não bebi nada, a senhora sabe que eu não bebo, Dona...
Helloooo!!!
Alôoooo!!! Dona Ester!!!

Pô, mulher grossa! Desligou o telefone na minha cara.

O pior é que, nessa loucura toda, perdi minha carteira e não tenho bilhete aéreo. Não sei como vou conseguir voltar pra casa. Acho que vou ligar pra Dona Ester, pra ver se ela me manda uma passagem de volta pro Brasil.

Uma não, quatro. Tem a família toda.

E só viajamos de classe executiva.

Kledir Ramil

Aí, Tio!

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No início eles te chamam de tio. Você não gosta, acha que vai ficar parecendo que já está meio velho. O que posso dizer é que você deve aproveitar essa fase. Daí pra frente a coisa só piora. Isso de chamar de tio vem da infância, uma idade em que se imagina que o mundo é uma grande família. Essa fase inocente vai mais ou menos até a pré-adolescência, um fenômeno perturbador que acontece cada vez mais cedo na raça humana.

Os norte-americanos estabeleceram que os adolescentes são aqueles moleques, situados numa faixa de idade que termina com o sufixo Teen: thirteen, fourteen, fifteen... até nineteen, ou seja, dos treze aos dezenove. Por isso são chamados de “teenagers”.

Aqui no Brasil, nós temos uma faixa que termina com o sufixo Ze: onze, doze, treze, quatorze, quinze. É uma zona nebulosa, entre a pré e a adolescência propriamente dita. Quando você se dá conta, eles já estão “se achando”, “se sentindo”. É uma fase perigosa porque eles pensam que já sabem tudo. Pensam que sabem atravessar a rua, pensam que sabem mexer com dinheiro, pensam que estudaram o suficiente pra prova.

E pra complicar ainda mais, esse é o momento em que você tem que começar a soltar a corda. Mas até que ponto? Como achar o meio termo? Se segurar demais, eles ficam loucos. Se deixar a coisa correr solta, nunca mais controla. Sempre que é preciso encontrar a medida certa em algum assunto, lembro daquele político dando instruções a seu motorista para escapar do povo na rua: “nem tão rápido que pareça que estamos fugindo, nem tão devagar que pareça provocação”.

No final dessa fase conturbada, lá pelos 14, 15 anos, eles começam a te chamar de “cara”. Aí é preciso ter paciência. Respire fundo e pense duas vezes antes de começar a chutar as paredes.

Geralmente é nessa época que seu filho resolve que vai colocar um piercing na língua. Aí você diz que “não e não e não”. Ele ameaça fugir de casa. Você finge que não está nem aí. Ele diz “então tá”, bate a porta e some. Você fica desesperado. Liga pro celular e só dá caixa postal. Deixa mil recados e nada. Ele aparece lá pelo fim da tarde e vai direto pra cozinha tomar um Nescau. Na boa. Sem piercing.

- “Onde você andava?”

- “Tava na casa do Pedro”

- “Ah, sei. Já fez o dever de casa?”.

Então chega o dia em que param de te chamar de cara e começam a te chamar pelo nome. Aí você está acabado. Perdeu. Eles chegaram à conclusão que você é igual a eles, não há diferença. Em geral não estão com a razão. Eles são muito melhores. E vão fazer o mundo andar pra frente. É nessa hora que você sente saudade do tempo em que eles te chamavam de tio.
Mas aí já é tarde.

 

Kledir Ramil

As Aparências Enganam?

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Certa vez, Kleiton e eu estávamos montando um show e, na abertura, resolvemos incluir a leitura em sânscrito de um mantra indiano. Como ninguém sabia como aquilo deveria ser pronunciado, Benjamim Santos, o diretor do espetáculo, resolveu procurar Antônio Houaiss. O grande filólogo e intelectual era, provavelmente, uma das poucas pessoas que entendiam de sânscrito no Brasil.
Ao ser perguntado como era a pronúncia exata daquelas palavras estranhas, Houaiss caiu na risada e se saiu com uma pérola:
"Pode dizer de qualquer jeito, ninguém sabe falar sânscrito no Brasil".
É claro que foi uma brincadeira do professor que, em seguida, ensinou como deveria ser entoado o mantra.

Lembrei dessa história pois estamos vivendo tempos estranhos, em que não importa o que você fez, mas o que as pessoas acham que fez. Não importa a coisa em si, mas a imagem da coisa. Ou seja, a aparência é mais importante do que o conteúdo. A embalagem vale mais que o produto.
Por isso, o marketing e a propaganda têm ocupado cada vez mais espaço na nossa sociedade, inclusive nas campanhas eleitorais. Criam-se histórias que não necessariamente correspondem à verdade. Tanto faz. O que interessa é vender o produto, vencer a eleição, faturar algum.
Chegamos a um ponto em que muita gente acha que pode agir errado, desde que ninguém saiba disso. Mas, felizmente, também há muita gente que pensa o contrário. Aí, depende só de você, da sua consciência, do rigor com que leva a sério seus princípios e valores morais. Você pode se negar a entoar de maneira incorreta um mantra indiano para milhares de pessoas ou, no outro extremo, abrir um valerioduto para escoar dólares roubados.
Manter uma postura digna, dentro de uma sociedade de consumo desenfreado, onde as pessoas são medidas pelo tamanho do extrato bancário, está cada vez mais difícil.
Ao mesmo tempo, é preciso tomar cuidado. Não é o suficiente fazer a coisa certa e não ligar para o que os outros estão pensando. A imagem é importante sim, pois senão corre-se o risco de que a história seja registrada de maneira equivocada. E a versão se torne mais conhecida do que o fato em si. Aquela tal artimanha muito usada de contar uma mentira tantas vezes, até que ela acabe virando realidade.
Enfim, o ideal é tentar construir sua vida com uma boa embalagem e um conteúdo de qualidade.

César, o imperador de Roma, um dia repreendeu Cleópatra. Roma comentava, à boca pequena, que ela levava uma vida libertina.
Cleópatra deu de ombros e disse para César não dar ouvidos a isso. Tudo não passava de boatos.
Foi então que o imperador deu uma aula de comportamento a sua mulher:
"Para a mulher de César, não basta ser recatada. É preciso parecer recatada".

Kledir Ramil

 

Blitz

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Meu filho me ligou pra ir buscá-lo na saída do cinema:
-Aí pai, geral vai dormir aí em casa hoje.
-Geraldo? Que Geraldo?
-Geral, pai. A turma toda, a galera.
Cheguei na frente do cinema, abri a porta do carro e entraram oito. Meninos e meninas. Dois na frente e o resto amontoado, uns por cima dos outros, no banco de trás.
Poucas quadras adiante, fui parado numa blitz.
- Documentos!
O policial era um sujeito corpulento, com cara de quem comeu e não gostou. Entreguei os papéis, ele deu uma examinada, olhou pra dentro do carro e falou:
- Doutor, o senhor sabe que esse veículo é pra cinco passageiros, né? Mas, pelas minhas contas, tem nove pessoas aí dentro.
Tentei fazer uma piada, pra ver se descontraía a conversa:
- Não são pessoas, seu guarda, são adolescentes.
O policial não achou a menor graça e acrescentou:
- Tem mais: o IPVA tá atrasado, a vistoria não foi feita... Tamo com um problema sério aqui, meu senhor. Vamo ter que recolher o veículo.
Desci do carro, pra tentar uma aproximação:
- Meu amigo, veja a minha situação: tô cansado, trabalhei o dia inteiro, tô com o carro cheio. A garotada com fome...
Me fez sinal para acompanhá-lo e caminhou em direção à viatura. No volante da caminhonete estava outro ainda mais corpulento e mal-humorado.
- Sargento. O cidadão aqui tá todo irregular, mas é gente boa. Tamo chegando aqui, junto à chefia, pra ver se a gente podíamos resolver os problema aqui mesmo.
O sargento me olhou de cima abaixo e resmungou:
- Positivo. E o que é que o senhor tá propondo?
- Olha meu amigo...
E ele me interrompeu:
- Meu amigo é o cacete! Eu aqui não sou amigo de ninguém, sou a autoridade policial. Tô escutando, pra ver se vai dar pra quebrar o seu galho.
- Certo, senhor Sargento. O que eu gostaria de propor é que Sua Excelência me diga como é que nós podemos resolver isso.
Pela primeira vez, o sargento esboçou um sorriso.
- Também não precisa exagerar com esse negócio de Excelência. Conversa aí com meu assistente, deixa uma cervejinha e a gente faz de conta que não viu nada. Mas, já vou adiantando que aqui neste bairro de bacanas uma cervejinha não sai por menos de 200 paus.
- Quer dizer que o senhor, a autoridade policial, está me propondo o pagamento de uma propina pra me deixar ir embora. É isso? E eu é que sou o fora da lei.
O tempo fechou:
- Olha aqui cidadão, eu não tô querendo saber o que é que você pensa. Tá todo irregular e ainda vem levantando a voz, querendo dar lição de moral.
Apontou pro parceiro e rosnou:
- Pode escrever e recolher. Desacato à autoridade. E antes dá uma geral.
E virou pra mim:
- E aqui, quando a gente dá uma geral, sempre encontra alguma coisa.

Fui parar na delegacia. Eu e a gurizada. Minha mulher foi me buscar com o advogado e mais uma amiga de carro, pra conseguirmos transportar todo mundo dentro da lei. Sim, meu carro ficou detido.
No caminho pra casa, ainda tive que ouvir:
- Aí pai, por que você não molhou a mão do guarda?

Depois de tomar um banho, peguei o telefone e fiz várias ligações. Tive que explicar a cada pai e a cada mãe que, apesar de constar do Boletim de Ocorrência, não agredi o policial com uma chave de roda, não sou usuário de drogas e não carrego arma no porta-luvas. E que, sim, sou contra pagar propina para policial, por uma questão de princípios.
A maioria achou que eu não precisava ser tão radical, e poderia ter resolvido o problema de forma mais simples. Ou seja, com uma cervejinha.
Como é que o mundo vai melhorar, se não tiver um cara como eu servindo de exemplo pra essas crianças?

Kledir Ramil

 

Bolinha de Gude

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Na era paleolítica, quando eu era uma criança caminhando sobre a Terra e ainda não haviam inventado o Play Station, jogava-se bolinha de gude.

Bolinha de gude, como o nome indica, era uma bola pequena, de mais ou menos 1,5 cm de diâmetro. A palavra gude vem do provençal Gode, e quer dizer exatamente “pedrinha redonda, lisa”.

Eram bolinhas de vidro, em geral transparentes, com desenhos variados, uma mais bonita do que a outra. Verdes, azuis, amarelas... Havia umas com flores dentro, mas os garotos achavam que aquilo era coisa de mulherzinha. Não pegava bem.

A Bocha era uma bolinha exageradamente grande e proibida nas disputas, pois quebrava as pequenas. Assim como a Esfera de Aço, o terror dos terrenos baldios, onde eram montados os nossos campos de batalha.

Além das tradicionais de vidro, havia também bolinhas de osso, de madeira e até de cobre, mas eram raras. Com o uso, todas elas iam ficando meio lascadas. Perdiam em beleza, mas ganhavam em eficiência.

Há alguns anos, quando meu filho chegou na idade certa, dei de presente pra ele a minha caixa de bolinhas de gude, que eu guardava como uma relíquia desde a infância. Tentei ensiná-lo a jogar, mas ele não ficou muito interessado. Acabou deixando de lado e voltando pro computador.  

Acho que deviam criar um jogo virtual com bolinhas digitais. Pelo menos, seria uma forma de manter acesa uma tradição que vem desde o tempo dos egípcios, gregos e romanos. De qualquer forma, vou continuar guardando minha caixa velha. Quem sabe a moda volta no futuro, e algum neto se interesse por elas.

Voltando ao jogo. Em alguns lugares, ele era conhecido como Bulita e consistia basicamente em acertar, com a sua, a bolinha dos outros. A coisa podia ser “às brinca” ou “às ganha” (ou às vera). Nesse caso, quem era acertado, perdia a bolinha.

Por isso, cada um carregava um saquinho cheio, que ia crescendo ou minguando, dependendo da destreza pessoal. Ou então do tamanho da mesada. É claro que as bolinhas compradas no armazém da esquina não tinham o mesmo valor daquelas conquistadas em campo. Cada uma dessas era um troféu, com sua história particular, nome do perdedor e algumas mentiras inventadas, para valorizar ainda mais o feito.

Havia algumas técnicas de como segurar e lançar as bolinhas.

Basicamente, apoiava-se a bolinha entre os dedos polegar, do meio e a ponta do indicador. Ou seja, entre o dedão, o pai de todos e o fura-bolo. Com uma leve pressão do polegar, a bolinha de vidro era arremessada em velocidade na direção do alvo, a coitada da bulita do outro.

Quem não tinha muita intimidade com o jogo e elegância no trato, costumava usar uma técnica conhecida como cu de galinha. E virava motivo de gozação. Era preciso estar preparado para enfrentar a crueza das ruas.

Lá no sul, o tipo de jogo mais comum era o Imba. Um buraco cavado na areia, que funcionava como zona neutra, de onde se partia para acertar os concorrentes.

O Triângulo era mais sofisticado. Desenhava-se um polígono de três lados, com um pedaço de pau na areia, e em cada vértice do triângulo era colocada uma bolinha. Quem conseguisse acertar e fazê-la sair  além dos limites do desenho, levava.

Uma das situações mais desagradáveis era quando se estava vencendo e, de repente, aparecia um marmanjo mais velho, com cara de marginal, e gritava:

- Levante!

Roubava todas as bolinhas, botava no bolso e ia embora.

Foi nessa época que comecei a me dar conta que o mundo era injusto, e viver não ia ser fácil.

Kledir Ramil


Bom de Mira

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Fabianne ia ser mamãe de novo. O marido Roberto, completamente bobo, ligou pra todo mundo pra contar. Zé Geraldo atendeu a ligação e perguntou, só de sacanagem, se ele estava desconfiado de alguém. Que maldade! Tem gente que perde o amigo, mas não perde uma boa piada.

Roberto já tinha dado provas do que é capaz com o nascimento de uma princesa chamada Isabella. Com esse novo golaço, em tão pouco tempo, começou a ser chamado de Robertão Bom de Mira. Sei que mineiro trabalha em silêncio, mas ninguém esperava uma artilharia tão fulminante.

Eu estava achando tudo muito estranho. Ele andava quieto, sem dar notícia. Foi quando descobri que o casal estava escondido em um paraíso tropical, uma dessas praias afrodisíacas em que ou você engravida alguém ou alguém acaba te engravidando. Foi no que deu.

Quando ele me ligou pra contar a novidade, meus votos foram de que a criança tivesse a cara da mãe, a simpatia da mãe, a inteligência da mãe. Mas lembrei que as leis da natureza são soberanas e seus 23 cromossomos de pai seriam acomodados em alguma função honrosa. Desde que não comprometessem a harmonia do todo.

Ele não precisava se preocupar, sua contribuição seria utilizada de um jeito ou de outro. Sempre há alguma coisa pra fazer, além do narizinho, da cor dos olhos e do QI. São órgãos de pouca visibilidade, mas não menos importantes, como a vesícula biliar, as glândulas salivares e o intestino grosso. É um trabalho duro, porém honesto.

A montagem desse quebra-cabeça genético, na hora do processo de criação, é um disputa acirrada. É como montar um ministério, ninguém quer pegar aquele com baixo orçamento. Mas na mesa de negociações, se você quiser um filho com o cabelo igual ao seu, vai ter que agüentar as orelhas do avô materno, e assim por diante.

A concepção tem vários métodos. O melhor ainda é a inseminação natural, através da tradicional prática do sexo. Pode não ser o mais eficiente, mas com certeza é o mais gostoso.

E na hora da correria, o homem em geral perde essa batalha por cargos importantes. Por pura ansiedade, quer logo partir pros finalmentes, sem pensar nas conseqüências. Como se o método em si fosse o próprio objetivo do acasalamento.
As mulheres, sempre mais inteligentes e espertas, ficam fazendo charme e acabam levando vantagem nessa distribuição de pesos e medidas. Isso sem falar dos 9 meses seguintes e da fase de amamentação, onde nossa participação fica reduzida a uma espécie de ordenança a serviço de “Sua Majestade, a Rainha Mãe”.

Apesar de tudo, acho uma bênção essa poderosa influência feminina na fabricação de filhos. É por isso que o mundo anda pra frente.

Eu mesmo confesso que olho para os meus filhos e vejo apenas a minha mulher. Graças a Deus. Meu trabalho foi mais subliminar, de fundamentos básicos, por assim dizer. Quando ouço alguém falar: “é a cara da mãe”, acrescento rapidamente: “e o caráter do pai”.

Fico fazendo brincadeiras com essas coisas, pois todos nós sabemos que não é possível determinar nem negociar os detalhes genéticos dos descendentes. Por enquanto.

Tem uma história que ficou famosa e ilustra muito bem esse assunto. Sarah Bernhardt, entusiasmada com o brilho intelectual de Bernard Shaw, propôs a ele fazerem um filho:

“Imagina uma criança com a minha beleza e a tua inteligência”.

Ao que Shaw retrucou, sabiamente:

“O problema é que ela pode nascer feia como eu e burra que nem você”.

Kledir Ramil

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