GAZETA DOS TOLOS 47- 07.07.2010.
Gazeta dos Tolos 47
Especial sobre o Direito Autoral






Direito Autoral: finalmente o pessoal
começa a se mexer. Toda essa armação silenciosa feita nos escalões medios do MinC (com o papo modernoso dos Crerative Commons motorizado pela SGAE) , com eventos pagos com dinheiro público ano passado em Porto Alegre, entidades fantasmas se autoproclamando defensoras de músicos, bobos desubicados falando de orelhada, advogados da FGV com "autoridade" no assunto, nenhum compositor dirigente de classe presente, tudo isso começa a gerar o efeito/contrário, como se diz na sinuca. Estou há anos falando para as moscas aqui no RS, desde as oficinas sobre Direito Autoral que dei na Cooperativa dos Músicos no Clube de Cultura, desde a Ouvidoria da SADAIC que representei no Brasil por dois anos, desde o primeiro artigo que publiquei no Diario do Sul em 1988, desde a Comissão Parlamentar da Camara de Vereadores de Porto Alegre, desde o Plenario do Comite Latinoamericano da CISAC no Rio de Janeiro em 1989: quem quer derrubar o direito autoral são as grandes corporações de midia que já não estão pagando o que é norma internacional comum, acompanhadas nos últimos anos dos portais, das telefonicas e dos provedores, que adoram usar a música e dependem dela, mas não querem retribuir o fator que talvez mais ajude no seu negócio. Pergunto : MTV paga Dirieito de Autor ? E por ai vai a valsa...





Artistas se unem
em manifestação contra a proposta de mudança da lei de direitos autorais, em 02/07/2010.


Artistas brasileiros reclamam que não foram consultados pelo MinC e conquistam apoio de astro da música internacional.


Nesta semana, artistas se reuniram na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, para protestar contra a iniciativa do Ministério da Cultura (MinC) de alterar a atual lei de direitos autorais brasileira (9.610/98). Entre os artistas presentes estiveram Sandra de Sá, Rick (da dupla Rick e Renner), Danilo Caymmi, Fernando Brant, Nei Lopes, Pery Ribeiro, João Roberto Kelly, Silvio Cesar, Walter Franco, Billy Blanco, Doris Monteiro, Carlos José, Selma Reis, Altair Veloso, Joelma, Helen de Lima, Paulinho Rezende, Tchê do Swingue, Lady Francisco, Humberto Tavares, Paulo Cesar Feital, Genaro da Bahia, Zé Bahiano, Chico Xavier, entre outros. Robin Gibb, do grupo Bee Gees, e presidente da CISAC (Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores), enviou, via vídeo, sua solidariedade aos artistas brasileiros, manifestando-se contra as iniciativas do Ministério da Cultura do Brasil em interferir na gestão dos direitos dos artistas brasileiros. A CISAC representa em todo o mundo cerca de 2,5 milhões de autores.

O evento também contou com a presença de outros representantes do segmento cultural como a professora Silmara Chinelatto, Professora de Direitos Autorais da USP, Dalton Morato, advogado da Associação Brasileira de Direito Reprográficos, o produtor, pesquisador e historiador da MPB, Ricardo Cravo Albin, e alguns dirigentes de sociedades de direito autoral.
A iniciativa do MinC causou polêmica na classe artística, principalmente por dar ao Ministério o poder de decidir sobre a utilização das obras artísticas. Assim, quando um titular de direito vetar a utilização de uma música de sua propriedade, o MinC terá o poder de decidir, em nome do “acesso à cultura”, pela utilização e pela o pagamento dos direitos será feito ao Ministério. Os artistas explicaram que não são contra a disseminação da cultura. Mas consideram que esta é uma obrigação do Estado, e foram taxativos ao afirmarem que isso deve ser feito através de políticas públicas que não prejudiquem os seus direitos autorais, tão duramente conquistados e preservados na lei que se encontra vigente.

Os artistas que participaram do encontro foram unânimes no combate à proposta de ingerência do Governo. “Só quero colocar meu trabalho onde acredito e quero ter o direito de receber por isso. A proposta do MinC é uma ditadura, autoritária demais”, afirmou Selma Reis, atriz e cantora. Para Sandra de Sá, a principal questão a ser discutida foi o fato do Ministério não ter consultado a classe artística. Indignada, a cantora pediu desculpas, mas desabafou: “A classe artística tem que se unir! Temos que ir a Brasília defender nossos direitos e dizer ao Ministro que a classe artística nunca pediu ao Governo que a gestão de direitos autorais fosse mudada. ”
De acordo com Dalton Morato, não existe lei no mundo que traga penalidades ao autor como as prescritas na proposta do MinC. “É uma lei cara-de-pau”, afirmou. Para outra especialista no assunto, Dra. Silmara Chinelatto, o projeto de lei do MinC não trata o artista como um trabalhador, o que é de se admirar quando o presidente da República é do Partido dos Trabalhadores. “Quem compensará o autor pelo acesso à cultura?”, indagou.

“O Ministério da Cultura teve sete anos para elaborar o projeto de lei e agora nos dá 45 dias para análise e manifestações. Esse Ministério é fascista”, relatou o compositor Fernando Brant, afirmando que o projeto é fundamentalmente inconstitucional. Danilo Caymmi compartilha do mesmo pensamento. “O Projeto de Lei do MinC é ideológico, radical e contra a liberdade de expressão. Os que dependem da execução pública de suas músicas serão os mais prejudicados”, posicionou-se. “Todos nós somos donos de nós mesmos. Somos amparados pela Constituição. Temos que fazer valer os nossos direitos. Não é o governo que manda na gente”, manifestou-se Rick, da dupla sertaneja Rick e Renner. O sambista Nei Lopes traçou um comparativo entre o projeto de lei atual e a forma em que a lei de 1998 foi implementada. “A lei autoral em vigor foi discutida por anos, foi um debate prolongado e que ouviu toda a classe artística, o que não ocorre no presente momento”.
A conclusão da classe é que o anteprojeto de lei não foi feito em benefício dos artistas, mas a favor de provedores de sinais de conteúdo e daqueles que utilizam a música para benefício de seu próprio negócio, resistindo ao pagamento do direito autoral. Indignados, os artistas também afirmam que as alterações propostas violam a Constituição Federal, os Tratados e Convenções Internacionais firmados para o Brasil, além da Convenção Universal dos Direitos Humanos. “O mais importante dessa questão é que nenhum artista foi consultado. O Projeto de Lei é um desrespeito a todos àqueles que trabalham com direito autoral. Sou do tempo em que só existiam três sociedades de música. Conquistamos tudo palmo a palmo, a sangue e a suor”, relembrou João Roberto Kelly, famoso compositor de marchinhas carnavalescas. “O MinC quer brincar com a lei. O Projeto de Lei está mal colocado e sem embasamento jurídico e de vida”, completou. “A inadimplência é muito séria. Diante desta proposta do MinC, que está contra os autores, proponho que o próprio Ministério da Cultura seja extinto”, sintetizou o músico e compositor Billy Blanco.

O evento não poderia terminar de outra maneira a não ser com música. A cantora Joelma transformou em canção a indignação dos artistas presentes. “Tira a mão do meu direito / quem anda direito sou eu/ tira a mão do meu dinheiro / quem manda nele sou eu”. Também houve apresentação da cantora Morana, que participa do projeto “MPB nas escolas”, do Instituto Cravo Albin e do Governo do Estado do Rio de Janeiro, levando a crianças e adolescentes a história da música brasileira em versão cantada. A apresentação terminou com “palhinha” de Sandra de Sá e Joelma, com a interpretação de “Carinhoso”, de Braguinha e Pixinguinha.

Reproduzido conforme o original, com informações e opiniões de responsabilidade do veículo.
Publicado por felipe.santos no saite Sonoris Causa.







Ronaldo Bastos

com sua trajetória excepcional de compositor e ativista cultural, mandou este texto que reproduzo na íntegra.

"PALPITE INFELIZ".


Bem que Dona Ivone Lara avisou para pisar devagarinho o chão sagrado
da música brasileira. Eles são deliberadamente surdos e estão cuspindo
nele. Vão pagar por isso. Noel também avisou: “Quem é você que não
sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz”.


O MINC é o palpite mais infeliz do governo Lula. Um desastre completo:
mandam uma lei que a classe não demandou para consulta pública às
vésperas de uma eleição e no dia do primeiro jogo do Brasil na Copa,
mas não publicam nenhuma opinião discordante. Se o Presidente tivesse
algum respeito por nós, já teria demitido essa gentalha há muito
tempo. A galera da música e a sociedade civil deve revidar, com
múltiplas ações de agitação e propaganda, esta agressão contra a nossa
soberania.


O Ministério da Cultura, que uma articulação memorável da música
brasileira, de Roberto Carlos a Herbert Vianna, foi fundamental para
criar, é hoje o nosso inimigo principal: ministério da incompetência,
do cinismo, da arrogância, da falsidade, da armação, do ressentimento
e da intervenção do Estado numa seara que não é da sua competência.
Eles pensaram que dourando a pílula com uma fingida modernidade
poderiam nos empurrar goela abaixo aquele novelho fascismo de
esquerda, arauto da barbárie. Quanta empáfia revelada no rosto de um
baiano triste e biografia obscura! É triste ver essa gente, que no
final dos anos 60, nós deixamos para trás na poeira da caretice e do
sectarismo, retornar das catacumbas com a pretensão de nos ensinar o
que devemos fazer com a nossa vida e a nossa arte.


Podemos dizer de muitas maneiras. Escolho as primeiras que me vem à
cabeça : “Cê tá pensando que eu sou loki, bicho? ”, “Mas que nada, sai
da minha frente que eu quero passar”, ”Gente é pra brilhar, não pra
morrer de fome” e por aí vai. E olha que nós estamos falando de um
setor organizado da economia, que cria empregos, gera divisas, paga
impostos e é , junto com o futebol, a cara do Brasil para o mundo.

Eles se acham os tais mas são manés. Não passarão!


Ronaldo Bastos.








MARISA GANDELMAN |

ADVOGADA E DIRETORA EXECUTIVA DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES


Depois de muitos anos de conversas, insinuações e ameaças o Ministério da Cultura publicou e colocou em consulta pública o texto de um anteprojeto de lei que altera a lei dos Direitos Autorais. A publicação se deu no dia do primeiro jogo da Copa do Mundo, demonstrando a intenção de aproveitar o período durante o qual convergem os interesses para outro assunto para dar início à contagem do prazo da consulta.

O anteprojeto altera a lei vigente na sua estrutura, na sua própria inteligência e raciocínio, na maneira como entendemos e tratamos o direito que o autor tem sobre sua criação. Além disso, nos atinge diretamente na parte que limita radicalmente a liberdade de associação dos autores e titulares, conseqüentemente, de todo nosso sistema de gestão coletiva de direitos autorais. Sendo assim, é claro, atinge o sistema ECAD e coloca o exercício do direito dos titulares que representamos, bem como a nossa atividade em cheque.


Ao ler o texto do anteprojeto percebemos que autores, titulares de direitos autorais, bem como nós todos que nos dedicamos à defesa dos interesses dos titulares que representamos e tiramos do sistema de gestão coletiva o nosso sustento honestamente, somos tratados como vilões, como egoístas que só olham para seus próprios interesses de forma inescrupulosa e para o prejuízo do público.Mentiras covardes que soam como música nos ouvidos de todos aqueles que querem ter acesso às obras criadas pelos autores, porém, julgam ser desnecessário, ou até mesmo condenável, remunera-los por isso.


Estamos mobilizados e devemos pensar sobre tudo isso. Informem os autores e titulares que nos procurarem para perguntar detalhes do que está se passando. Digam a eles que a UBC está em estado de alerta, a diretoria dedicada a estudar o anteprojeto e a procurar todos os caminhos possíveis para evitar que chegue ao Congresso na forma de projeto de lei a ser apreciado e votado pelo legislativo. Lutaremos em defesa dos interesses dos nossos titulares, procuraremos o apoio dos legisladores e de todos aqueles que se sensibilizem pela causa. Autores precisam também se mobilizar e ficar em estado de alerta e se convocados, devem colaborar participando de encontros, debates, ou outros atos que venhamos a organizar.


Fiquem de olho! Nossa frase de ordem: Autor, defenda-se do seu inimigo, o Ministério da Cultura."


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FERNANDO BRANT |

AUTOR E PRESIDENTE DA UNIÃO BRASILEIRA DE COMPOSITORES


COM MEDO DE SER INFELIZ | O ESTADO DE MINAS


Tenho medo, nojo e ódio de qualquer ditadura. Era um menino, nos idos de 1964, e passei mais de vinte anos sofrendo com a convivência diária com a ignorância e a violência do regime militar. Eu o combati com as armas que tinha e me pareciam justas: idéias e canções. Hoje me arrepio diante do descaso dos governantes brasileiros em abrir os documentos que restaram daquela época, para que os filhos e netos de minha geração saibam do que aconteceu neste país maravilhoso. Para que tenham consciência de que aquilo não pode voltar a ocorrer. Aprendi a louvar a democracia como o maior dos bens da política e da cidadania.


O atual governo, o do Lula, é dono de muitas contradições. Tem acertos e erros como qualquer outro, anterior ou posterior. Mas na minha área, a de autor de canções, ele tem sido um desastre. Quem fala pela catástrofe não é o Presidente, mas o Ministro que ele nomeou e o Ministério que está sob sua direção. Ministério da Cultura, que odeia a música brasileira, a nossa maior e mais influente bandeira, ao lado do futebol, no mundo.


Há sete anos e meio, os burocratas daquela repartição vêm ameaçando os autores e artistas brasileiros com uma mudança na lei que nos protege. E nunca houve uma reivindicação, nesse sentido, da classe dos autores.


O direito autoral, talvez eles não saibam, esta lá na Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU, é um desses direitos. A revolução francesa também assim o considerava. Direito autoral é sinônimo de civilização.


O contrário, e é o que o Ministério do Lula defende, é a barbárie. Imagine Lula o que o Gonzaguinha diria dessa investida de sua administração contra as idéias que ele defendeu com tanto ardor enquanto esteve entre nós.


Depois de sete anos de idas e vindas, de ameaças, no dia do primeiro jogo do Brasil na Copa, apresentaram o monstro, para que pudéssemos opinar sobre ele durante quarenta e cinco dias.


Dei uma boa olhada e vi que era um monstro. Um amontoado de asneiras de incompetentes. Seus auxiliares, Lula, são cínicos, pois dizem uma coisa quando pretendem outra. São mentirosos, pois na nossa frente falam algo que desmentem a seguir. Ignorantes, chamam de taxa o direito autoral. Taxa é coisa de Estado. Direito Autoral é remuneração pela utilização de nosso trabalho. Não gostam da Constituição, por isso pensam que podem intervir em nosso direito, que é privado e não público, apesar do que diz o artigo 5º XVIII: “a criação de associações independe de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento.”


E querem criar uma autorização compulsória, contra a vontade do autor, mesmo existindo a determinação constitucional que diz que “ aos autores pertence o direito ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­exclusivo de utilizar suas obras”. E eles não param por aí.


O Ministro e seus moçoilos da Fundação Getúlio Vargas dizem ser moderno o que pretendem. Eles são o atraso e a barbárie. Para eles, autor nada vale.


Valem as telefônicas e as empresas que querer usar as obras sem pagar. E aí eu me pergunto: para que atiçar e maltratar os artistas, em plena campanha eleitoral?


Queremos apenas fazer nossa música e viver dela. Nos deixem em paz.


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NELSON MOTTA |

JORNALISTA AUTOR


HARMONIAS E DISSONÂNCIAS | O ESTADO DE SÃO PAULO

Todos gostam de música, muitos fazem dinheiro com ela, ninguém imagina a vida sem ela, mas como os seus criadores podem viver do seu trabalho? O assunto interessa não só aos compositores, porque envolve liberdade de associação e de expressão, quando se discute se o Estado deve participar da arrecadação e distribuição de direitos autorais no Brasil.

Aqui, a arrecadação é feita por um escritório central, o ECAD, criado, administrado e controlado por sociedades privadas de autores musicais, como a UBC, SICAM e outras. O ECAD cobra direitos dos que usam as músicas para ganhar dinheiro com elas (rádio, TV, shows, festas, publicidade, clubes) e os repassa às sociedades, que os distribuem entre seus autores, proporcionalmente à quantidade de execuções públicas de cada música no período monitorado.

É um sistema correto e efetivo, que dá a cada um a sua parte pela utilização comercial de sua criação. Nos Estados Unidos e na Europa funciona muito bem. Se aqui há falhas, falcatruas ou ineficiência, o problema é de gestão e fiscalização, e deve ser resolvido entre o ECAD e as sociedades que representam os compositores, intermediados pela Justiça. O Estado não entende nada disso, e já morde 25% de impostos sobre direitos autorais sem tocar uma nota.

Quando se canta o velho refrão de uma sociedade arrecadadora estatal, ouve-se cabide de empregos, aparelhamento partidário, altos custos e burocracia. No mundo moderno, as sociedades de autores são empresas comerciais, que fazem tudo para ganhar o máximo de dinheiro para seus associados. Como qualquer empresa, competem no mercado, buscam eficiência administrativa, novas tecnologias, prestam contas, são auditadas, podem ser processadas e liquidadas legalmente. O que é que o Estado tem a ver com isso?

Pode soar como pleonasmo ou redundância, mas é uma evidência: quem tem a autoridade é o autor, quem criou é que decide o que se faz ou se deixa de fazer com a sua criação.

Cabe à Justiça julgar os conflitos com base na legislação (que precisa ser modernizada), e ao Estado, garantir os direitos e o cumprimento da lei. Já é muito.


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OS PERIGOS NA REVISÃO DOS DIREITOS AUTORAIS


FONTE: O GLOBO - RIO DE JANEIRO/RJ - 27/06/10


O anteprojeto de alteração da Lei de Proteção aos Direitos Autorais, do Ministério da Cultura, em audiência pública até 27 de julho, não é apenas mais uma iniciativa de regulação por parte do governo. Está em questão, na realidade, um tema fundamental em qualquer sociedade moderna: a amplitude do respeito à propriedade dos conteúdos e a remuneração de seus produtores. Depende do maior ou menor respeito ao direito autoral o estágio de desenvolvimento das nações.


Não é por acaso que o mais pujante sistema produtivo já criado pela Humanidade, em termos de produção propriamente dita e também em inovação (pesquisa e tecnologia), se baseia no reconhecimento da propriedade privada em geral e, em particular, na segurança jurídica concedida a empreendedores, inventores e artistas para usufruir suas obras. A proposta de mudanças nesta lei, portanto, tem de ser examinada e debatida com a atenção e profundidade necessárias. Mesmo porque o MinC, no governo Lula, se notabiliza por ser um pólo de pensamento dirigista e intervencionista. Foi assim com Gilberto Gil à frente do ministério, continuou da mesma forma sob as rédeas de Juca Ferreira.


E o anteprojeto faz jus à cultura estatista fermentada nestes sete anos e meio de MinC. Para os mal informados, qualquer coisa que se faça para vigiar o Ecad, sigla, com razão, considerada pelos músicos sinônimo de descaminhos, merece apoio.


Depende. Devido ao viés ideológico do MinC, o anteprojeto está contaminado de ideias como ado "controle social" - sempre este chavão - do artista sobre sua obra. Também devido a cacoetes ideológicos, propõe-se que o Estado aja para mediar a relação entre produtores de conteúdo e os "intermediários" ou "atravessadores", entendidas como tais as empresas privadas quevivem de difundir conteúdos. Mais uma vez, entram na mira do MinC os grupos de comunicação, assim como editoras, gravadoras etc.


A proposta de mudanças chega a se arriscar em áreas delicadas, como a da propriedade de notícias, centro de grande conflito mundial entre produtores e difusores de conteúdos (mídia impressa, TVs e rádios) e mecanismos de busca, como Google, máquinas de ganhar dinheiro com mercadoria alheia, capturada e distribuída sem a devida remuneração. Pois, para o MinC, "as notícias diárias que têm o caráter de simples informações de imprensa" não estarão protegidas pela lei debados direitos autorais. Trata-se de preocupante dispositivo.


O curioso é que o mesmo projeto que visa a defender direitos do produtordeconteúdos amplia os casosem que qualquer obra pode ser utilizada sem a autorização do autor. Equando procura defender os autores, o faz de tal forma que os fragiliza. É o que acontecerá caso venha a ser aprovado o artigo pelo qual os direitos do autor poderão ser renegociados no futuro, "em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis". O sucesso inesperado de um livro, por exemplo. Se o conceito tem lógica, colocá-lo em uma lei pela qual o Estado pretende intervir no relacionamento entre produtores e difusores deconteúdos significa estreitar o mercado para os autores, devido à insegurança jurídica criada. Repete-se asíndrome daCLT: a protetorados trabalhadores que trava o crescimento do emprego formal, tais os custos existentes para o empregador.


Raul Ellwanger

www.raulellwanger.com.br

O programa Galpão Crioulo apresenta dia 11 de julho uma homenagem a Mercedes Sosa (RBS TV, canal 12) .


Raul Ellwanger
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