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“Todo
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o exemplo vindo de seus pais, |
| A MPB Gaúcha
Obra
original disponível em: Autoria: Rogério Ratner |
A IMPORTÂNCIA DO NEGRO NA FORMAÇÃO MUSICAL BRASILEIRA Por:
Loma Berenice Gomes Pereira "Somos culturalmente sincréticos, o que equivale dizer que hoje não somos nem uns – os originários; nem os outros – os conquistadores, mas que somos uns/outros, nosotros, nós outros marcados pela diferença na qual se radica nossa especificidade." "Ela nos remete a uma complexa relação entre classes, etnias e nações, um terreno mal explorado de necessária e urgente elucidação, não só como demanda teórica como empírica; não só como tarefa intelectual como política" Aldyr Garcia Schlee
O continente sul americano é o mais rico do planeta em diversidade étnica, e a história destaca o Rio Grande do Sul como um dos mais importantes pólos culturais. Entretanto, a falta de educação básica do nosso povo evidencia conflitos diante do pluralismo mal compreendido. Muito embora toda barbárie praticada contra o negro, as traições e a intrujice denunciem chaga aberta a refletir nevralgia nas relações inter raciais, o negro "aguerrido e bravo" não se permitiu calar a voz, nem deixou de expressar seus dons artísticos ou abafou o couro dos tambores, já que nossa participação efetiva para o desenvolvimento desta nação é tão evidente que nem a incineração de nossos documentos de identidade (1889) pôde apagar. Oportuno salientar que a contribuição do negro na formação de uma nova pátria, que prometia o paraíso na terra, não se limitou aos heroísmos de guerra daquela Porto Alegre constantemente sitiada ou das fronteiras ameaçadas por invasores oportunistas. Nosso povo ergueu esta cidade ainda na senzala, teve participação efetiva para o desenvolvimento cultural e econômico, entretanto, deserdado cresceu às margens* da nobreza escravista , lá nos Campos da Várzea ( Ilhota, Areal da Baronesa e Cidade Baixa) e na Colônia Africana (Redenção, Bom Fim, Rio Branco, Mont'Serrat, Auxiliadora, Três Figueiras). Posteriormente, nasceram os bairros Navegantes, Santana, Partenon, Vila Santa Luzia, Vila Maria da Conceição, dos Marítimos, Jardim, cruzeiro, Rubem Berta, Grande Pinheiro, Cohab Cavalhada, Restinga e Jardim Dona Leopoldina, bairros que evidenciam um amplo território demarcado pela exclusão social. A amplitude territorial não é de admirar, já que durante 300 anos de tráfico foram trazidos para o Brasil cerca de 4 milhões de indivíduos negros, bem como, também não admira a formação de expressivo número de Quilombos. Conforme palavras do primeiro Presidente do Quênia, JOMO KENYATTA, em 1938, "O Africano é condicionado, por seculares instituições culturais e sociais, a uma liberdade da qual a Europa tem uma idéia muito restrita. Daí, não é de sua natureza aceitar a escravidão para sempre. Ele sabe que tem que lutar incessantemente pela sua emancipação", e a história registrada na literatura vem comprovar essa luta. *Os "nobres" residiam no centro de Porto Alegre. A Jornalista Silvia Abreu relata em publicação inserida no livro Negro em Preto e Branco de Irene Santos que "... no período colonial, escravos e negros livres constituíam a maior parte dos conjuntos instrumentais atuantes" e Maria Elizabeth Lucas em seu artigo Classe Dominante e Cultura Musical no RS: do amadorismo à profissionalização (...) conclui que "ex escravos negros e mestiços livres continuam a predominar como profissionais de música em diversas regiões do país, e o Rio Grande do Sul não fugia a isto". O MAÇAMBIQUE (expressão rítmica dançada e rezada em verso e cantoria) denota a memória cultural do negro e tem origem na heroína NZINGA MBANDI NGOLA, Rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI e XVII (1587 – 1663), cuja memória tem desafiado o processo diluidor da amnésia. Para efetivar suas conquistas e defender seu povo dos portugueses, sabendo possuir um exército menos preparado para enfrentar iminente guerra contra a colonização portuguesa da campanha do então Governador João Corrêa de Souza (1621), Nzinga Mbandi aceitou o pedido de casamento do Rei Congo, desde que ela fosse a soberana, com o firme propósito de unificar e fortalecer seus exércitos. Ela não só venceu a guerra como obteve respeito dos portugueses, com os quais estabeleceu relação comercial em larga escala, ao ponto de, estrategicamente, aceitar ser batizada Ana de Souza e difundir a religião católica em seu reino. Nzinga Mbandi Ngola é conhecida e cultuada no Brasil, particularmente no litoral de nosso estado através do Maçambique, bem como em Minas Gerais semelhante culto é denominado Moçambique, em festa religiosa inserida também estrategicamente, nas datas de Nossa Sra. do Rosário e São Benedito. Seu nome, posteriormente aportuguesado para Rainha Ginga, garante a tradição até os dias de hoje da hereditariedade da coroa, bem como da festa que se realiza anualmente. Enquanto o tambor de maçambique mantinha acesa a chama da ancestralidade em praticamente toda região litorânea ao norte do RS, também em Tapes , o sopapo esquentava os ânimos no litoral sul. O ritmo candombe foi banido do estado e adotado pelos uruguaios; o samba e o maxixe, proibidos pela polícia, e a milonga, um lamento africano, hoje compõe o cancioneiro tradicional gaúcho. A partir do ano de 1870, com a diversidade étnica, Porto Alegre tornou-se um importante pólo cultural de linhas européias. Para uma população de 40 mil habitantes, a capital gaúcha contava com seis bandas: a "União Brasileira", a "Firmeza" e a "Esperança", seguidas pela "Euterpe", "Sete de Setembro" e a "Corporação Musical do João Ferreira Lima", já com a inserção de músicos negros. Em 1880 apareceram os grupos de "Rancho", a exemplo do "Cubanos", dirigido por Domingos Porto, que saía pelas ruas da capital, entre o Natal e o Dia de Reis (06/01), tocando e cantado versos que diziam muito da Cultura africana. Em 1880, Domingos Porto abandonou a direção do Cubanos para seguir figurando nas festividades com um samba chistoso e original chamado "Ah! Que Vai!", tendo reunido sob sua batuta os melhores músicos da época para formar o conjunto "Negros-Minas", cujos integrantes saíam às ruas travestidos, como o próprio nome sugere. Em 1885, três grupos lhe seguiam a trilha: O "Moçambique", sob a direção do músico Feliciano Vieira, discípulo do Maestro Medanha; os "Baianos" e os "Benguelas", conjunto formado inteiramente por negros. Foi por essa época que o samba entrou na lista negra
Conforme registros literários pesquisados pelo músico Hardy Vedana, data de 1888 uma polca composta por C.Villela, que nos transmite a idéia do grau de conhecimento dos músicos da época. O nascimento de Lupicínio Rodrigues, em 1914, nos remete à histórica efervescência musical dos Campos da Várzea abrangente à Colônia Africana. Em 1920, a capital gaúcha já se destacava no cenário nacional por ser considerada arrojada culturalmente para a época. Com o surgimento do Centro Musical, criado por 30 músicos com o objetivo de difundir a música e defender os interesses da classe, com sede nos altos do Café Colombo, no mesmo ano deram vida à primeira Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, já com a inclusão do negro (ainda que palidamente). Todavia, podemos constatar que a miscigenação proporcionou um florescimento musical significativo para a cidade, e os negros granjearam destaque junto à sociedade negra e branca, a exemplo do "Conjunto Regional Espia Só", criado em 1923 pelo músico Albino Rosa , o qual assinava a direção musical e tocava flauta; além do 1º violão de seis cordas executado por Binga; Marino dos Santos, no cavaquinho e bandola; Paulino Mathias, 2º violão; Veridiano Farias ao violino; Severo, no Ganzá e Herald Alves, na caixa clara. O músico Hardy Vedana observa que, 'o violino junto com piano e flauta eram os instrumentos da moda". Albino Rosa sonhava mais, queria crescer, ser famoso! Corria o ano de 1926 quando conheceu e fez amizade com Pixinguinha e o famoso "Batutas" (um grupo que já fazia grande sucesso na França) por ocasião de um contrato com a Cervejaria Brahma para uma série de apresentações no Parque de exposições Menino Deus. Ele não perdeu nenhuma noite de show, muito menos a oportunidade de admirar as qualidades musicais do Batutas. Analisou sua formação, observou o repertório e as novidades em matéria de instrumentos e arranjos. Uma vez criados laços estreitos com os marinheiros que trabalhavam nos vapores da Companhia Costeira de Navegação que fazia a rota Rio – Porto Alegre, Albino tratou de encomendar novos instrumentos e partituras para proceder às reformulações em seu conjunto regional, que passou a chamar-se "Jazz Espia Só", com a seguinte formação: Albino (sax e flauta); Marino dos Santos (sax alto e soprano); João Luiz (pistão); Oswaldino Peixoto (trombone de pisto, posteriormente trombone de vara); Herald Alves ficou na bateria; Severino de Souza (baixo-tuba); Armindo Alves (banjo); Luiz Alves (pandeiro, afoxé e ganzá) e, por fim, o cantor Leopoldo Carvalho a se valer de um megafone para ampliar a voz. Particularmente, considero este grupo um marco na história da música desenvolvida aqui no sul. Albino Rosa derrubou as barreiras do preconceito nas sociedades recreativas que mantinham as portas fechadas para os músicos negros, fizeram estrondoso sucesso de público além de receberem cachês dignos, de acordo com os valores vigentes. Como Albino, inúmeros músicos foram literalmente registrados nas páginas do tempo, cruzaram fronteiras e fomentaram coragem e realização pessoal àqueles que ainda garimpavam seu espaço e aos que estavam por vir. É possível destacar nomes ilustres como: Marcelino Corrêa (grande mestre de música, que foi professor de Hardy Vedana); o ritmista e cantor Caco Velho (descoberto pelo maestro Paulo Coelho) foi sucesso aqui no sul, Rio de janeiro e Paris - montou uma boate chamada "Mocambo" na capital francesa, gravou um disco e por lá se estabeleceu; Lupicínio Rodrigues, Nelson Lucena, Ernani Oliveira, João Pena; o multi instrumentista Veridiano Farias, que mais tarde tornou-se médico e hoje é nome de rua no bairro Petrópolis; o próprio Maestro Joaquim José Medanha – autor do Hino Riograndense, foi mestre da capela da catedral Metropolitana por 35 anos e exerceu a função de regente na maioria das festas religiosas, espetáculos teatrais e saraus; a cantora Oracina Corrêa, sucesso em Paris, na Argentina, no Rio de janeiro, onde fez diversos shows, tendo ainda participado de filmes feitos pelos estúdios da Cinédia e Atlântida. Depois, radicou-se no Egito como proprietária de Hotel; dos cantores Bruno Thomas, Zé Carlos, Carmen Del Campo, Dalila, Branca de Neve, Maria Helena Andrade, Maria Helena Montier; Lourdes Rodrigues, Zilá Machado, Johnson, a Nega Lú – barítono da OSPA: os instrumentistas Pantera do Trombone; Mamão, fagotista da OSPA que radicou-se em São Paulo para a Orquestra Sinfônica da paulicéia; Mutinho, baterista de Toquinho e Vinícius e mais uma lista enorme de celebridades negras do mundo da música que abrilhantaram os palcos dos cafés que na década de 20 possuíam música ao vivo à altura das cidades européias, dos cassinos e cabarés, executando choros, polcas, havaneiras, valsas, tangos, schottisch, marchas e o charleston. Quero citar aqui uma curiosidade. O violonista Gesse Silva, incansável defensor da autenticidade da música de Lupicínio Rodrigues, dizia que a predominância musical brasileira era o choro; que o samba vem do choro e por sua vez é descendente do lundu e do maxixe, salvaguardando as origens no maracatu e no xaxado. O Samba, aguardava o relaxamento da proibição, correndo feito manso riacho nos fundos dos quintais, chuleando temporais... enquanto isso, os músicos iam conquistando terreno e sendo contratados para animar o cinema mudo, festas campestres, pic-nics, bailes vespertinos, festas religiosas; para a animação dos bailes das Sociedades Recreativas, a exemplo da Sociedade Floresta Aurora, fundada em 31 de dezembro de 1872; da Sociedade Bailante Satélite Portoalegrense, fundada em 1902 (estas se mantém até hoje); Nós Os Democratas, entre outras, além das festas que se realizavam no Salão Ariopa (Ilhota), do Salão da Cabral e, ainda, a Sociedade Germânia (primeira a abrir as portas aos músicos negros). Havia também a Sociedade Caixeral, do Comércio, As Margaridas, Venezianos, Esmeralda, Menestréis, Os Vagalumes e da Sociedade de Philosofia. Podemos constatar a infinidade de espaços que propiciavam a atuação dos músicos, sem que nos esqueçamos dos áureos tempos em que o Rádio chegou as casas, tendo o sucesso garantido principalmente pelos Departamentos Musicais a exemplo da Gaúcha (fundada em 1927), da Rádio Farroupilha (1935), Difusora inaugurada nessa mesma época) e, posteriormente, a Rádio Itaí na década de 40. Fora da capital portoalegrense, as emissoras da vizinha Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo, tornaram-se rotas obrigatórias já que, como as nossas, abrilhantavam sua programação com música ao vivo e programas de auditório garantindo aos músicos um promissor mercado de trabalho com os melhores cachês de mercado. Tal efervescência marcou época dos anos 30 aos 50 e com o advento da televisão, surgiram repetidoras a partir do centro do país: as orquestras e os músicos perderam espaço para o disco de vinil; os músicos negros, em maior parte, foram dispensados "por estarem em desacordo com o padrão estético imposto por esse novo veículo" e com a nova proposta de comunicação com vistas na globalização ( hoje sabemos), atravessamos uma terrível decadência cultural a qual abriu enorme cratera para a invasão de alguns gêneros musicais de qualidade duvidosa oriundos da América do norte. Nossa literatura é vasta em fatos e acontecimentos inerentes as nossas orígens que merecem evidência e elucidação. O Brasil é vasto e o povo negro espraiado de norte a sul. Nosso Pai Maior nos conferiu a oportunidade de espalhar sementes e gêneros distintos através da própria dádiva. Nos conferiu beleza, sensibilidade e sabedoria. Tal qual é, a aplicação da lei nº 10639 é um direito adquirido pelo Movimento Negro para a raça negra com vistas na expansão do ensino irrestrito da cultura africana, no sentido do resgate da nossa dignidade e cidadania; e quem sabe amenizar a carga invisível como o racismo velado que ainda pesa sobre nossos ombros. A transposição de maciços muros levantados pela supremacia branca transcorridos séculos de indiferença, é meta a ser alcançada. A Igreja Católica quase nos convenceu de que não temos alma, provavelmente, para justificar a selvageria praticada contra nosso povo. Entretanto, nem o racismo nas escolas, nas universidades ou ambientes de trabalho tem o poder de apagar das páginas da história os feitos de grandes homens e mulheres negros presentes em todos os seguimentos da sociedade, a exemplo dos baianos Antonio Pereira Rebouças, nascido no ano de 1798 e amadurecido Jurista e parlamentar político; de André Pinto Rebouças, bacharel em engenharia e professor universitário a despeito de ter nascido no ano de 1838; do arquiteto, entalhador e escultor barroco Aleijadinho; de José do Patrocínio; Pixinguinha; Nelson Cavaquinho; Neri Caveira; Francisco Braga: Donga; Geraldo Pereira; Elizeth Cardoso; Lupicínio Rodrigues; Lima Barreto; Castro Alves, o poeta dos escravos; Machado de Assis; Alexandre Dumas; do Almirante negro João Cândido; do martírio de Anastácia; a exemplo de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe; de Martin Luther King; Ângela Davis; Zumbi dos Palmares; Seu Pretinho, o Moleque Tião; Carlos Santos; Carlos Alberto Barcellos, o Roxo; Ivaldo Roque; Rubens Santos; Bedeu; Leleco Telles; Joaquim Lucena pai e neto; Adão Alves de Oliveira, o seu Lelé; Hemetério Barros; das modelos Julie Jorge e Olívia; Tesourinha; Soneca; Bataclã; Everaldo; de Armando Hipólito dos Santos e tantos outros negros que já partiram deixando marcas indeléveis na história do Rio Grande do Sul, do Brasil e do Mundo. Há que se reconhecer e pleitear o respeito pela diversidade. Cada etnia trouxe para este recanto do Brasil um torrão de seu país; e se Deus não nos quisesse reunir, nos teria mantido enraizados na pátria de origem. Ao
consultarmos milênios da história da humanidade, podemos
constatar que "as lições Divinas foram confundidas
e resultaram ensangüentadas todas as bandeiras cristãs".
Havia sim a proposta de uma nova terra com base em novas fórmulas
administrativas e de convivência já que as anteriores
não vingaram. Todavia, "o homem branco da Europa, prejudicado
por uma educação espiritual condenável e deficiente
desejoso por entregar-se ao prazer fictício dos sentidos"
procurou eximir-se dos trabalhos pesados. E, em face à lei
do livre arbítrio regido pelos sagrados imperativos da responsabilidade
individual, em sua sede nociva de gozo, varreu de seu "pseudo"
estudo religioso o mandamento que diz "amai-vos uns aos outros". A salvação do planeta, em todos os sentidos e direções, exige vontade política além da ação em larga escala fundamentada na educação. O papel do artista é comunicar; transcender fronteiras e intercambiar conhecimentos, com meta na abolição desse paradoxal pré-conceito germinado na ignorância, e promover a paz nesta nação mestiça por contingência.
Referências: Jazz em Porto Alegre – Hardy Vedana editora LPM/ Funarte Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da população Negra de Porto Alegre - Organização Irene Santos - Fumproarte/PMPOA Memória da Negritude – Calendário Brasileiro da Africanidade - Néia Daniel Ministério da Cultura/Fundação Cultural Palmares Presença Negra no RS – Nei Lopes e Aldyr Garcia Schlee - Coletânea Caderno Porto e Vírgula - Edição especial Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho – Francisco Cândido Xavier |
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Considerações
sobre as letras de músicas feitas para festivais.
Por:
Paulo de Freitas Mendonça
Os festivais do Rio Grande do Sul recebem em média de 400 a 500 músicas em cada triagem, alguns mais outros menos. Sem entrar no mérito do grau de descontentamento ainda existente por alguns autores que não classificam suas composições, temos que abordar alguns dos porquês da rejeição de certas concorrentes em relação a outras que alcançam êxito. Os compositores, quando jurados, estão analisando tecnicamente as obras ali expostas à avaliação. Este fato ocorre sem que os mesmos tenham conhecimento de quem são os autores. Ora, algumas obras se sobressaem das demais pelo seu potencial artístico. Em hipótese alguma quero dizer que sejam em sua totalidade perfeitas. Há casos de classificações de canções que não convencem os jurados em alguns dos quesitos, mas são forçadas a figurar por questão regulamentar que exige um número determinado de selecionadas. Isto não é regra. Há vezes, por outro lado, que sobram músicas consideradas boas pelos avaliadores, também por este mesmo critério. Outro fator que deve ser considerado é o artigo do regulamento que permite um número máximo de um autor ou parceria. Há festivais que tendem a dar uma linha considerada mais autêntica para as músicas que vão a palco e outros menos. Com relação às letras este conceito não foge muito do que com a melodia. Cabe imediatamente uma pergunta: o que é uma letra autenticamente gaúcha? Aqui se faz necessário o esclarecimento de que a linguagem poética de letra de música é aquela que consegue um maior imediatismo de entendimento do que os versos de um poema. No entanto não se pode confundir facilidade de compreensão com pobreza poética. Há questões universais que devem ser observadas na criação literária das músicas, sob pena de serem consideradas obras menores. Aristóteles classifica a poesia na categoria abstrata e o poema no campo formal. Já René Wals diz que o poeta se expressa por imagens. Segundo Massaud Moisés, “o verso pode encerrar poesia, mas também pode exprimir qualquer outro tipo de conhecimento”. Então compreendemos que há músicas cujas letras estão carregadas de poética e outras desprovidas dela. Como uma canção é o conjunto de letra e melodia, acrescido de arranjos instrumental e vocal, às vezes ela se consagra mesmo com deficiência poética. Poesia no texto versificado é mímese, imitação da ação. É a-narrativa. É a ebulição interior, sem começo, meio ou fim, portanto sem história, sem enredo. Na instauração do Romantismo (Sec. XVII) as epopéias deixam de circular e a poesia épica assume caráter tipicamente poético, ou seja, não narrativo. Neste período houve a transformação das epopéias em romance. Os ingredientes romancescos servem à expressão das metáforas. É necessário que o autor se expresse inteligentemente, experimentando tensões, dando ritmo, cadência, sonoridade, observando a metrificação, utilizando-se de sinalefas quando necessário, empregando rimas ricas ou raras quando possível, entendendo em que subgênero poético esta compondo. Ao se converter no primeiro leitor de sua letra o compositor deve analisar sua obra sob critérios técnicos. Passado o momento da inspiração, chega o da catarse. Deve evitar em uma construção poética a utilização de palavras que não acrescentem sonoridades à obra. Elas vão dar a cadência e gerar sensação de emotividade no ouvinte. Há autores que afirmam que a sonoridade da palavra possui maior efeito num verso do que seu sentido. Da mesma forma que Alan Poe afirma que se há uma espingarda no conto ela deve atirar, penso que o letrista não deve colocar palavras sem uma forte significância sonora na letra. Pois a alternância de sílabas longas e breves, ou tônicas e átonas, pausas, e elevações e quedas da voz é formadora da cadência, não do ritmo como pensa a maioria dos estudiosos. O ritmo caracteriza-se pelas sonoridades puras. A sucessão modulada oferece uma sensação musical. É a fusão entre a emotividade, a musicalidade e a carga semântica. Gera uma expectativa na sensibilidade e na inteligência do ouvinte. É subjetiva, por isso varia em cada um e muitas vezes no mesmo, dependendo do espírito do momento. O ritmo cada pessoa encontra numa cena mental. Talvez esteja nesta questão o fato de que dois musicistas associem melodias diferentes para a mesma letra. Sem divagar muito em conceitos teóricos é imprescindível que entendamos que a letra autêntica nos parâmetros da cultura gaúcha não necessariamente seja a que mais se reporte a uma cena de campo. Ela não precisa ser jocosa. Apenas pode ser. Ela perde valor poético se for muito descritiva. Há uma espécie de convenção não escrita no Rio Grande do Sul de que a prosa poética musicada seja o mais autêntico da canção gaúcha. Sabemos que a expressão prosística difere da poética em seus conceitos. A prosa descreve o universo geográfico plausível, enquanto que o poema e a letra de música com elevado grau poético criam seus universos próprios, uma espécie de geografia virtual pela sintaxe, pelo nexo semântico entre as imagens. A poesia no texto versificado é a arte da descrição do eu poético. No momento em que a letra de música descreve a geografia exterior real ela empobrece o fenômeno poético. A poesia não comunica o que se sente, mas a contemplação do que se sente. E a melhor forma desta contemplação é a utilização de metáforas. Segundo Aristóteles “a trivialidade e a vulgaridade serão evitadas por meio do termo dialetal, da metáfora, do vocábulo ornamental, enfim de tudo que afasta da linguagem corrente.”. Não pretendo alongar-me mais na descrição de outros problemas que “derrubam” concorrentes na triagem como erros de concordância verbal, imagens equivocadas, algumas vezes absurdas, tampouco abordar as constantes inadequações entre letra e melodia. Tampouco
pretendo ditar formulas milagrosas que definam o que é autêntico
ou não, o que é correto ou não. Apenas levanto
questões para que outros estudiosos, provavelmente com maiores
conhecimentos que os meus dêem luz a um debate sadio para que
possamos refletir sobre a verdadeira arte poético-musical do
Rio Grande do Sul. Ao encerrar este breve comentário afirmo
que não compreendo a música gaúcha como definitiva.
Temos apenas 300 anos de história no Estado, 500 no país
e pouco mais de 50 de tradicionalismo e de 30 de nativismo. Nossa
cultura poética e musical está em plena formação
e precisa ser discutida e estudada. Seria muito cômodo pensar
que está tudo pronto, ademais a cultura de um povo não
é estática, assim como o ser humano que é uma
eterna fonte de aprendizado. Encontre este e outros interessantes artigos de Paulo de Freitas Mendonça em Mala de Garupa do Jornal do Nativismo - Clique aqui. |
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RAINHA GINGA - MEMÓRIA E IDENTIDADE MAÇAMBIQUEIRA
Artigo escrito para publicação no Livro "Raízes de Capão da Canoa". Por:
Francisca Dias O Maçambique é o maior elo de ligação fundamental com a vida da comunidade negra, situada nos municípios de Osório, Maquiné, Santo Antônio da Patrulha, Palmares do Sul, Terra de Areia e adjacências, no Litoral Norte, no Estado do Rio Grande do Sul. Com o ritual religioso e afro-católico, quando são expressas as devoções aos santos católicos, a comunidade negra de Morro Alto participa das festas que exaltam, agradecem e celebram a fé em torno de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito. Dentre as personagens desta cerimônia religiosa, sobretudo, da dimensão que incorpora as heranças dos escravos africanos e brasileiros, a principal é a Rainha Ginga. Por meio das ações, dos pensamentos e da memória advinda dos ancestrais africanos, as rainhas gingas perpetuaram a cultura, os valores e a identidade da comunidade negra de Osório. Os reis e as rainhas africanos, muitas vezes, eram também sacerdotes que não somente foram reverenciados como intermediários entre os homens, mas como deuses eles mesmos. Os reis representam a renovação dos valores comunitários da história de um povo, desde os tempos imemoriais e históricos. Nzinga Mbandi Ngola, rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI-XVII (1587-1663), foi uma das mulheres e heroínas africanas cuja memória tem desafiado o processo diluidor da amnésia, dando origem a um imaginário cultural na diáspora tal como no folclore brasileiro com o nome de Ginga. A rainha Nzinga Mbandi, filha do rei de Angola, formou um pequeno exército, a fim de combater e conquistar o reino de seu irmão Ngola Mbandi, que havia matado seu filho por interesse de terras e sucessão. A rainha conseguiu reunir várias tribos e fez acordo com os portugueses, em troca do seu apoio, convertendo-se, estrategicamente, à religião católica, quando recebeu o nome de Ana de Souza. Mais tarde, renegou a fé cristã, embora tenha contribuindo para a difusão e a afirmação do catolicismo na África. Não obstante, expulsou aos portugueses invasores de suas terras. A história desta soberana negra chegou ao Brasil, sobretudo por meio das embaixadas nas Congadas, dos cortejos e dos bailados do Maçambique. Em Osório, as diversas rainhas Gingas com o pálio real de cor azul; com as sucessivas coroas que acrescentavam aos seus corpos físicos uma capacidade transcendental de unificar uma comunidade étnico-cultural afro-brasileira para além das suas dimensões geográfico-territorial. Em verdade, fica enfatizado o caráter político, uma vez que elas agregam um valor emocional cuja unidade é a pátria, as tribos e as nações africanas. A coroa que elas portam está profundamente associada à identidade de grupo da comunidade negra, consolidada pela rede de parentesco consangüíneo e ritual.
A rainha seguinte, por sucessão, foi Maria Tereza Joaquina de Oliveira que reinou , entre 1950 e 1978. De acordo com muitos dos antigos maçambiqueiros, Maria Tereza era uma figura altiva, imponente e carismática. O maior orgulho da rainha Ginga Maria Teresa Joaquina de Oliveira era o fato de ter sido coroada pelo cardeal Dom Vicente Scherer. Ela afirmou o seguinte: "O Dom Vicente Scherer me disse, 'tu é quem manda, tu que governa e eles não podem fazer nada sem tu. Tu és quem ficou no lugar da africana. Eles botaram a guerra com a africana porque a festa da africana era mais bonita do que as dos brancos. Os brancos faziam a festa, negro não fazia. Mas a africana tinha Nossa Senhora do Rosário em casa [...] então a rainha guerreou e venceu a guerra como tu (Maria Tereza) venceste esta coroa hoje'". Ao final das sábias palavras, o nobre arcebispo colocou a coroa na cabeça de Maria Tereza. Apesar da idade avançada, demonstrava muita lucidez e grande capacidade de julgamento. No passado, no âmbito da comunidade negra de Morro Alto, as rainhas tinham o poder delegado pelos integrantes de resolver todos os conflitos, podendo até mesmo ordenar a prisão daquele que tivesse sido responsabilizado por alguma transgressão. Ela indicava os festeiros para a festa de Nossa Senhora do Rosário. Esta rainha veio a falecer com 111 anos. Tomásia Sérgio de Oliveira, natural de Maquiné, herdou o cargo de sua mãe, Maria Tereza. Esta rainha tinha um temperamento muito diferente de sua antecessora, uma vez que era tímida e simples. No entanto, ao desfilar com o manto azul e sua coroa prateada, desfilava silenciosa e majestosa, ao lado do rei, e sempre acompanhada de sua pajem. Ela reinou entre 1978 e 1992. Quando a rainha Ginga Maria Tereza faleceu, em 1992, suas filhas abriram mão do cargo, o qual caberia a qualquer uma delas na linha sucessória. Dona Maria de Oliveira, uma das suas filhas, em 1986, já havia declarado o seguinte: "Isso é coisa dos antigos, dos mais velhos. Mesmo assim, eu não quero passar o trabalho que a mãe passa". Atualmente, a rainha Ginga é dona Severina Maria Francisca Dias, também chamada pelos parentes maçambiqueiros de "Sibirina". Severina Dias foi coroada, na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em 1992, pelo padre Aloysio, cujo reinado mantém até hoje. Ela nasceu em Morro Alto. Com 20 anos, Dona Severina Dias trabalhou como cozinheira, por dois anos, na antiga Rodoviária de Osório, sob a administração do Sr. Alexandre Renda, pai do atual prefeito de Osório Sr. Eduardo Renda. Depois, mudou-se para Osório, em 1970, trabalhou em muitos bares e prestou serviços domésticos a muitas famílias. É funcionária pública aposentada, pela antiga CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações). Com a condição de ter sido pajem das duas rainhas anteriores, Maria Teresa, desde 1971; e Tomázia, de 1978 até 1992. No tempo de Tomázia, de quem era prima, ela foi muito ativa, uma vez que cuidava da recepção aos convidados, além de representar a rainha Ginga em muitos "pagamentos de promessas". A rainha Ginga dona Severina Dias possui um amplo saber das rezas, dos cantos do Maçambique. Por meio da intercessão de Nossa Senhora do Rosário, ela acolhe os pedidos por milagres e curas; acolhe os agradecimentos e distribui as bênçãos aos fiéis católicos do Maçambique. Por muitos anos, Severina realizou muitos partos domésticos, tanto em Morro Alto como em Osório. Em tais ocasiões, portava uma estatueta que representava a imagem da Nossa Senhora do Bom Parto. Aliás, quadros com imagens sacras é o que não faltam em sua residência, tais com de Santa Luzia, Santa Catarina, São Jorge e Santa Bárbara, atestando o seu grande fervor católico. Domina um amplo conhecimento acerca de ervas medicinais, por isso, muitas pessoas recorrem a ela, valendo-se da sua sabedoria. Ela é, indubitavelmente, a detentora da memória do sagrado e de grande parte da história da comunidade negra do Morro Alto e dos ofícios religiosos do Maçambique. Certamente na passagem do tempo, na reafirmação e na construção da memória, ocorrem continuidades, rupturas, descontinuidades e reinvenções. Para finalizar, vejamos como ela reproduz a narrativa que consolida o mito de fundação da festa do Maçambique, e que vem sendo repassada de rainha Ginga para rainha Ginga: "Eu sei que a falecida Maria Teresa contava assim: que isso aí, os brancos, eram o senhor. O senhor...os negros não festejavam, os negros era só pra trabalhar e os brancos tinham a festa...foram à festa e tinha uma menina, decerto era filha de algum abençoado.! Diz que foi e disse assim: - 'Meu pai, por que os brancos se divertem e os negros não? Os coitadinhos puxando carreta de cana, carreta de lenha, tocado a guiada, tocado a prego, eles não se divertem? E...:- 'Não, minha filha; é assim: os negros é prá trabalhar.' E ela: - 'Não, pode ser assim!' [...] Aí ela foi e disse assim: -'Vou fazer uma festa, meu pai.' Ele: - 'Quem sabe? Será que vai dar certo?' - 'Vou experimentar! Aí fez, a primeira festa, né? A primeira festa, não foi logo avante, não deu. Ela logo em seguida disse pro pai: - 'Eu vou tornar a fazer outra. Os nossos negros todos, vai se divertir ou não vai se divertir?' Adonde ela fez o maçambique. Decerto o outro santo...decerto não aceitou né, aí, ela puxou a Nossa senhora do Rosário. E continuou o maçambique."
"Aí diz que ele foi e disse: - 'Pode ler, pode ler, pra todo mundo ver.' Decerto pra ler alto, né? Aí ele leu, diz - 'Olha, Nossa Senhora do Rosário tá te convidando pra tu ser festeiro dela e tu fazer a festa dela.' Aí soltou o outro e deu liberdade pra ele na hora, ele deu a liberdade. Daquele dia em diante ele não ia trabalhar mais pra eles, né, ele ia trabalhar só pra fazer a festa da Nossa Senhora e queria uma festa boa! Então adonde que os negros tiveram festa foi devido à Nossa Senhora do Rosário."
BRANCO,
Estelita de Aguiar et. Al. Maçambique - Coroação
de reis em Osório, Comissão Gaúcha do Folclore,
Porto Alegre, RS, 1999;
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| A ORDEM DOS MÚSICOS EM QUESTÃO por:
Julio Medaglia
Existem determinadas profissões que, por oferecerem riscos à sociedade, são controladas por instituições que se situam acima do profissional. O Conselho de Medicina (CRM) ou o Conselho de Engenharia e Arquitetura (CREA), por exemplo, deveriam zelar não apenas pela qualidade dos serviços profissionais prestados por seus associados como, de alguma forma, assumir certa responsabilidade, caso um médico ou engenheiro venha a cometer um ato questionável. Isto é o que se deveria esperar dos mais de 30 conselhos profissionais que se conhecem neste Patropi. Na prática, porém, esses conselhos estão mais preocupados em "regulamentar" profissões, em criar "reservas de mercado" e em instituir entidades que arrecadam bilhões, que cuidar de desempenhos profissionais. Prédios continuam caindo e erros médicos acontecendo — inclusive com o autor destas mal traçadas que, por pouco, não estaria aqui para escrevê-las — sem que se haja posicionamentos ou condenações por parte desses conselhos. Alguns chegam a ter meio milhão de associados, gerando, no todo, receitas no valor de dois bilhões, fato que torna essas instituições mais poderosas que muitos governos ou "superempresas". Nós,
músicos profissionais, também nos deparamos com uma
tal de "Ordem", ávida pela cobrança das anuidades,
e dos — pasmem! — 10% das bilheterias de shows. Porém,
a função e a natureza dos seus serviços prestados,
em 40 anos de existência, ainda são uma grande incógnita.
Em primeiro lugar, pelo fato de a nossa profissão não
oferecer risco à sociedade. Segundo, porque o próprio
funcionamento da atividade regulamenta a atuação do
músico. Mecanismos naturais da ação profissional
se encarregam de expelir o mau elemento. E se um instrumentista desafinar,
o máximo que pode ocorrer é ele não ser mais
contratado, sem que isso provoque uma hecatombe "a la Sérgio
Naya". Além do mais, a outorga da "profissionalização"
que é dada pelo carimbo da Ordem em nossa área é
uma coisa absolutamente questionável. Um médico, para
atuar profissionalmente, tem de estudar vários anos e, concluído
o curso, está em condições de prestar seu serviço.
Dois analfabetos que cortam cana no interior do país, de repente,
aproximam-se de um microfone, soltam a voz — como já
ocorreu — e, do dia para a noite, se transformam nos mais bem
pagos profissionais da música popular — independentemente,
portanto, de qualquer regulamentação ou preparação
profissional. Felizmente,
após quarenta anos de profunda letargia de uma classe tão
numerosa como criativa — a do músico brasileiro —
movimentos questionadores desse "status quo" começam
a ocorrer em todo o país. Mandados de segurança se multiplicam
e essa saudável tomada de consciência do músico
vai seguramente desembocar numa investigação já
tardia sobre as funções e procedimentos da Ordem, inclusive
numa possível sindicância para averiguar o destino dos
milhões que foram arrecadados em nome de uma alegada "regulamentação
profissional". E nesse "rolo compressor", que parece
em curso, certamente haverá lugar, também, para se entender
os artifícios que permitiram a uma direção da
instituição, colocada no poder pela Revolução
de 64, lá permanecer por mais de quatro décadas. |
Só
de Sacanagem - Texto e de Elisa Lucinda - por Ana Carolina |
| FOLCLORE - OUTRO PRISMA Por:
Paulo de Campos Encaro - sem ter aqui, a intenção de ser didático - o Folclore como ciência. Folclore é o estudo das manifestações populares. Folk = povo; lore = conhecimento, cultura. Esse termo foi criado pelo arqueólogo inglês William John Thoms (1803-1885), pesquisador da cultura popular européia. Em 22 de agosto de 1846, ele publicou um artigo com o título "Folk-lore", na revista The Athenaeum, propondo a criação do termo. Não confundir, portanto, com tradicionalismo. O folclore não é estático, pelo contrário, é dinâmico e está em constante renovação. Um fato, para ser considerado folclórico, deve ter algumas, senão todas, destas características: funcionalidade; espontaneidade; intemporalidade; oralidade e anonimato. No texto de apresentação do site http://www.folcorebrasileiro.com.br/ está registrado que: “ ... O Brasil possui um dos folclores mais ricos de todo o mundo. São danças, festas, comidas, obras de arte, superstições, comemorações e representações que, pelos quatro cantos do país, exaltam a nossa cultura. Se o Sul e o Sudeste brasileiros são regiões em que as manifestações folclóricas têm ocorrido com menor intensidade, por causa da crescente industrialização das cidades, no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste do país as tradições se manifestam cada vez mais vivas. Há muito tempo elas fazem parte da vida de muitas pessoas ...” E é aqui que eu pretendo chegar: O Rio grande do Sul tem um folclore rico, mas que praticamente não é conhecido. Por estar sendo confundido com tradicionalismo, e com o “culto às tradições” imposto, de cima para baixo, por um sistema patriarcal e retrógrado. Isso era afirmado, já em 1985, quando fiz o curso Pós-graduação em Folclore, e entre meus mestres estava o folclorista Paixão Cortes, o Mestre em Antropologia Antonio Augusto Fagundes, o Especialista em Arte-Educação e Folclore/Educação José Roberto Diniz de Moraes, Ney Paranhos, Norton Correa, Helio Moro Mariante, os historiadores Paulo Vicentini e Harry Bellomo, e o inesquecível folclorista Glauco Saraiva (este foi meu professor de Teoria Geral de Folclore, na faculdade dois ou três anos antes). Na disciplina Festas e Folguedos ministrada pelo Paixão, eu descobria, impressionado, que entre as poucas manifestações folclóricas vigentes, as mais fortes estavam no Litoral Norte do Estado. Falava ele, nas Cavalhadas, nos Ternos de Reis, nas Cantigas de Oi-la-rai, nos Maçambiques, nas Congadas, nas Folias do Divino. Mostrava ele, que essas sim, eram manifestações puras e espontâneas do povo. Ocorre, que também estas estão definhando. Por falta de incentivo e de apoio. A população em geral nem consegue ter informação ou conhecimento de quando e onde a maioria desses autos folclóricos acontecem. Alegro-me ao ver que grupos de jovens como o da Invernada de Dança Adulta do Estância da Serra, estão sendo corajosos e inovadores ao agregar a suas apresentações, coreografias e músicas litorâneas de reinterpretação folclórica. Alegro-me ao ver nos festivais, compositores como Paulinho DiCasa, Marcelo Maresia, Kako Xavier, Beto Bollo, Jociel Lima, Cássio Ricardo, Ivan Therra, Mário Tressoldi, Paulinho Oliveira, Marco Araujo, Renato Júnior, Mário DuLeodato, Chico Saga, entre tantos outros, seguidores dos passos dados, primeiramente, por Ivo Ladislau e Carlos Catuípe, na pesquisa do verdadeiro folclore litorâneo de influência afro-açoriana, resgatando e reinterpretando ritmos, melodias, harmonias, instrumentos, historias, lendas, contos, crendices, indumentárias. Alegro-me ao ver a preocupação, destas e de outras pessoas, em registrar também os fatos atuais do momento que vive o litoral. Pois como disse, o folclore não é estanque, muito menos, coisa do passado. Repare, que uso as palavras “reinterpretação”, “resgate” e “pesquisa” quando me refiro ao que essas pessoas citadas acima estão fazendo. Portanto, não são eles os personagens nem os agentes das manifestações folclóricas. E sim, os negros maçambiqueiros, os cantadores de ternos, os agricultores e os pescadores que ainda cantam as suas cantigas de trabalho, enfim, as pessoas humildes e espontâneas que trazem em si, toda essa carga cultural. Alegro-me sim, por aqueles, estarem valorizando, pesquisando, resgatando, reinterpretando e trazendo ao conhecimento de toda uma população, a existência de tais manifestações ainda tão puras. Alegro-me, ao perceber o interesse e a satisfação dos meus alunos de Educação Artística do Ensino Médio Estadual quando são informados sobre a riqueza e a pureza cultural existente neste nosso litoral. Portanto, a cultura popular do Norte, Nordeste e Centro-Oeste é conhecida por ter apoio, respeito e divulgação. (Mesmo que a mídia seja, na maioria das vezes apenas veiculada pelos canais de TV por assinatura ou por redes educativas.). E, porquê não a nossa também? ... É possível! Acho que estão sendo dados os primeiros passos para que isso se torne realidade! ... Texto publicado em janeiro de 2002 no Portal Litoralnorters e no Jornal Revisão, depois, em 2006, no Portal Festivais do Brasil. Hoje, o movimento cultural de influência afro-açoriana do Litoral norte do Rio Grande do Sul, já alcança pequenas repercussões a nível nacional e também nas Ilhas Açorianas e nas comunidades de língua portuguesa do Canadá. E, claro, no próprio RS. |
Enfim,
música nas escolas outra vez!
por:
Julio Medaglia Folha
de São Paulo, segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Dizia, não com estas palavras, que o brasileiro deveria ser municiado de informações musicais sólidas, pois poderia ficar refém dessa máquina, seguramente mais preocupada em comercializar seus produtos que em prestar serviços à cultura nacional. Não se tem notícias de um raciocínio tão coerente e premonitório como esse, sobretudo quando se observa a realidade cultural atual. Esse bombardeio via satélite, promovido por uma indústria cultural que se expande na mesma proporção em que baixa o nível artístico da produção, ocorre internacionalmente, direcionando o público no sentido de um frenético "consuma e descarte" que, tratando de bens comuns, pode funcionar, mas, quando aplicado à criação artística, promove verdadeira devastação na sensibilidade humana. Inicialmente apoiado pelo interventor federal em São Paulo, tenente João Alberto, Villa fez uma longa viagem ao interior de nosso Estado - carregando um piano consigo! -, iniciando uma verdadeira caravana em prol da divulgação e do ensino de uma música de qualidade. Com o bom resultado da experiência/aventura, o grande educador Anísio Teixeira, então secretário de Educação do Rio, criou para Villa uma Superintendência da Educação Musical e Artística. Próximo do poder central, Villa fez seu projeto chegar a Getúlio. O ditador, encantado com as manifestações de massa do ufanismo patriótico nazifascista da Europa, viu nas concentrações corais de Villa o instrumento ideal para promover algo semelhante no Brasil. Assim, decretou a obrigatoriedade do ensino musical no país. Em seguida, criou-se o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico para a formação de professores, o qual Villa dirigiu até sua morte, em 1959. Por mais que se possa ter criticado componentes daquele projeto, o canto orfeônico prestou inestimáveis serviços à formação do brasileiro. Com a criação do "Guia Prático", harmonização de 137 cantos populares das diversas regiões, Villa fazia com que o Brasil se conhecesse por meio da música e, ao vocalizá-los, que o jovem se autodisciplinasse. Nessas aulas chegava ao jovem também a informação de um universo musical amplo, assim como o conhecimento da música dos grandes mestres. Em 1972, o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, prestou um desserviço à nação ao extinguir o ensino musical nas escolas, provavelmente temendo o poder feiticeiro, talvez subversivo da música. Nestes
36 anos, não faltaram empenhos para trazer de volta o ensino
musical ao jovem, já que essa forma de expressão é
a que mais acompanha o ser humano na vida. Surge agora o debate de como conduzir a criação de um currículo. Teme-se que comissões de endiabrados alquimistas se reúnam por décadas para a elaboração de um monstrengo pedagógico, enquanto outros, sabedores da urgência da aplicação desse ensino, optem pela criação de algo prático e imediato. Sou da opinião de que se crie uma comissão mínima para debater o assunto, com apoio do Ministério da Cultura, e se elabore um currículo prático e compacto de no máximo dez páginas. Para que, com ele, um músico de formação razoável - sem mil diplomas, licenciaturas ou mestrados! - possa entrar numa sala de aula e exibir vídeos, CDs, fazer as crianças cantarem o "Guia Prático", conhecer os hinos nacionais, tocar instrumentos simples, talvez fabricados por eles mesmos, baseados nas experiências do método Carl Orff. Assim, pode-se abrir a mente dos jovens para muitas vivências sonoras e mostrar-lhes como é grande e colorido o mundo musical universal, bem diferente daquele que ele vê na TV. E que se faça isso rapidamente, antes que o processo de imbecilização coletiva via satélite ganhe essa guerra.
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| O
mais honesto texto " jamais escrito neste país" , como
diria o cara...
VERANEIO
NO R. G. DO SUL
Paulo
Wainberg FONTE: http://www.germinaliteratura.com.br/2008/paulo_wainberg.htm |
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