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Essa pergunta foi à vencedora em um congresso sobre vida sustentável:

“Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos...
Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?”

Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro de casa e recebe o exemplo vindo de seus pais,
torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos, inclusive em respeitar o planeta onde vive...

A MPB Gaúcha


A MPB feita pelos gaúchos, desde o final dos anos 70, vem sendo denominada, de um
modo universal, como MPG (Música Popular Gaúcha). A sigla nem sempre é
considerada exatamente adequada por vários músicos ligados a tal estética, mas o fato é
que a expressão se consagrou. Tanto é assim que a RBS Discos lançou em 1984 um LP
reunindo diversos artistas da cena de então, que intitulou exatamente como “Música
Popular Gaúcha”.
Uma das razões que podemos apontar para o surgimento desta expressão é que muitos dos
trabalhos assim identificados misturavam elementos da MPB (bossa nova, tropicalismo,
samba, rock, etc.) com referências da chamada música nativa do RS. Assim, a alcunha
viria, de uma certa maneira, sintetizar a idéia da fusão da MPB com o regionalismo
gaúcho. Contudo, em relação a muitos dos artistas que acabaram sendo identificados como
também “pertencentes” à MPG, não se vislumbra tão diretamente esta ligação com o nativismo,
de forma que, a partir daí, vários músicos passaram a considerar a expressão um tanto
limitada. Seja como for, o que ocorre na prática é que o pessoal que conhece a cena
musical gaúcha, ao ser feita a associação de um artista com a MPG, termina identificando,
de algum modo ou de outro, o tipo de música que ele faz, de maneira que a expressão não
deixa de ter uma utilidade corrente, apesar de todos os senões que se lhe possam ser
atribuídos. Com relação ao público que não está habituado com a cena gaúcha, talvez fosse
o caso de referir que, quando é mencionada a expressão MPG, isto corresponde à MPB
feita no Rio Grande do Sul.
É oportuno ressaltar que, sem embargo da formatação característica e muito própria que
diversos ritmos de origens variadas tomaram no âmbito da produção regionalista dos
gaúchos (o schottisch, que virou aqui chote ou xote; a habanera, que virou vanera ou
vanerão, a polka, que aqui se transformou em uma forma bem peculiar de polca, o mesmo
ocorrendo com a valsa, e etc.), a música feita no RS sempre abrangeu um larguíssimo

espectro estilístico. Realmente, a história da música gaúcha, em linhas gerais, compreende
tanto a consolidação das fusões que resultaram nos chamados elementos nativos, quanto a
produção criada a partir de diversos ritmos vicejantes na música brasileira, e, até, na
música internacional. Cumpre, desde logo, apontar para o fato de que no RS também
houve uma forte “Época de ouro do Rádio”, especialmente capitaneada pelas Rádios
Farroupilha, Gaúcha e Difusora, além de várias outras emissoras pela capital e do
interior do estado, no período, a grosso modo, que vai dos anos 30 até os 60 do século
XX. Afora isto, as rádios do centro do país, tal como a Rádio Nacional, a Mayrink Veiga
e a Tupi, eram muito ouvidas aqui, de forma que as estações gaúchas suportavam a
concorrência direta das mais afamadas emissoras do Brasil, e os
músicos/compositores/cantores sofriam grande influência da produção musical elaborada
especialmente no centro do país. Naquele período, a exemplo do que ocorria no cenário
nacional, os compositores gaúchos faziam muitos sambas, boleros, tangos, sambas-canção,
valsas, bossa nova, etc., e os músicos da noite tocavam todos estes ritmos, e ainda mais o
jazz, o foxtrote, a rumba, e o que mais fosse. Há também uma forte tradição da música
erudita no RS, por conta da convivência entre as diversas etnias européias radicadas no
Estado, sendo que as imigrações italiana e alemã causaram especialmente um grande
impacto neste sentido. Assim, o Rio Grande do Sul sempre sofreu uma constante
influência dos mais diversos referenciais, tanto nacionais, como internacionais, em sua
produção musical, o que vai de encontro ao “mito” - que de uma certa forma ainda grassa na
cultura brasileira - do gaúcho como elemento “fechado” e isolacionista.
Mas, retomando-se o nosso foco, impende ressaltar que a chamada MPG consolidou-se
especialmente em paralelo à formatação da própria MPB em nível nacional, desde que esta,
naturalmente, seja entendida, em um sentido mais estrito, como a música popular surgida
a partir dos festivais da canção, muito embora a sigla propriamente dita tenha se
universalizado mais exatamente nos anos 70.
Conforme já referimos, dentro do espectro da assim chamada MPG, verificamos uma
grande diversidade, pois cada artista tem um enfoque muito particular. De fato, a MPG
abrange, em linhas gerais, não apenas os artistas ligados à mencionada fusão dos ritmos
gaúchos com a MPB, mas também outros que fazem uma MPB de viés mais “universal”, e
outros, ainda, que têm um viés ainda mais próxima do pop. O que não significa

absolutamente que aqueles que apresentam, em sua obra, uma maior identificação com os
ritmos “regionais”, também não dêem atenção, em alguma medida, aos elementos musicais
“universais” no conjunto de sua obra, e vice-versa. Contudo, e sem embargo, acreditamos
ser válido lançarmos mão do expediente de apontar músicos identificados como
pertencentes às principais “tendências” da MPG, invocando alguns nomes de artistas
atualmente atuantes, e também outros que não estão mais em cena, mesmo que tão
somente para efeitos de exposição.
Da tendência “regionalista” da MPG poderíamos apontar nomes tais como: Almôndegas (e,
em decorrência, seus ex-integrantes, tais como Kleiton e Kledir e Pery Souza), Vitor
Ramil, Cao Trein, Sérgio Napp, Bebeto Alves, Rebenque, Neto Fagundes, Pentagrama,
Jerônimo Jardim, Mário Barbará, Raul Ellwanger, Loma, Canto Livre, Cordas e Rimas,
Grupo Folk, Victor Hugo, Fogaça, Status, Marco Araújo, Sérgio Rojas, Sérgio Napp,
Tambo do Bando, Vinícius Brum, Leandro Cachoeira, Mercado Livre, Cantadores do
Litoral, só para ficarmos em algumas referências.
Da tendência “universal”, podemos citar: Saracura (e seus respectivos ex-integrantes, em
carreiras-solo), Nelson Coelho de Castro, Gélson Oliveira, Elaine Geissler, Cláudio
Levitan, Fernando Ribeiro/Arnaldo Sisson, Cláudio Vera Cruz, Fausto Prado/ Caetano
Silveira, Glória Oliveira, Nando Gross, Galileu Arruda, Nando D’ávila, Ângela Jobim,
Maria Rita Stumpf, Paulo Gaiger, Lúcia Helena, Metamorfose, Grito Latino, Mercado
Livre, Pedro Guisso, Antônio Villeroy, Geraldo Flach, Susana Maris, Adriana Calcanhotto,
Maria Lúcia, Yoli, Toneco, Zé Caradípia, Sá Brito, Fernando Corona, Opus, Carlinhos
Hartlieb, Ana Mazzotti, Beto e Jorge Herrmann, Emergência, Flávio Bicca Rocha, Giba
Giba, Léo Ferlauto, Nanci Araújo, Zé Flávio, Adriana Marques, Arthur de Faria,
Simone Rasslan, Toneco, Wanderley Falkenberg, Gil Gérson, Hique Gomes, Grupo
Semente, Marcelo Delacroix, Alessandra Verney, Silvana Cruz, Edu Natureza, Marisa
Rotenberg, Grupo Ensaio, Carlos Patrício, Mário Falcão, Glei Soares, Henrique
Wendhausen, Karine Cunha, Bando Barato pra cachorro, Cuidado que mancha, Vanessa
Longoni, Adriana Deffenti, Auriu Irigoite, Renato Mendonça/Dedé Ribeiro, Dudu Sperb,
Flora Almeida, Márcio Celi, Nó de Taquara, Alex de Souza, Alexandre Vieira, Quintal de
Clorofila, Necka Ayala, Flávio Adônis, Gallia, Rodrigo Piva, Daisy Folly, Café Acústico,
Raul Boeira, Lu Barros, Tribufu, Ita Arnold, Muni, Léa Cintra, etc.

Da tendência mais “pop”, podemos indicar: Papas da Língua, Nei Lisboa, Lúcia Severo,
Rafael Brasil, Harmadilha, Danni Calixto, Rosa Franco, Miscelânea K, Anahatta, Émerson
Ribeiro, Jah Mai, Monica Tomasi, Juliano Courtois, Mutuca, Midian Almeida,
Couro/cordas/e cantos, Luciana Pestano, Complexo de Épico, Gilberto Travi, Anahatta,
Luciana Costa, Hermes Aquino, Deio Escobar, Cláudio Vera Cruz, Luíza Kaspari, Annie
Perec ... (e, modestamente, até este que vos fala).
É claro que estes nomes são apenas alguns, mesmo porque seria impossível listar as centenas
de artistas relacionados à MPB no RS num mero artigo. Com efeito, cabe ressaltar que vale
muito a pena conhecer os diversos sites/blogs/rádios que rodam ou abordam a MPB dos
gaúchos, e, em cujas páginas certamente pode-se obter um panorama mais amplo desta
cena. Podemos indicar alguns endereços muito legais, tais como, por exemplo: o “portal do
rock gaúcho”, a rádio “buzina do gasômetro”, o site “bandas gaúchas”, o blog “bandas do rock
gaúcho forever”, o blog “música da boa”, o blog do jornalista Emílio Pacheco, a rádio “no
cabo”, a FM Cultura; ou mesmo procurar em sites nacionais, como “trama virtual”, “palco
mp3”, “clique music”, ou internacionais, como “my space” e “last fm”, etc., que vai se encontrar
músicas e referências a autores/cantores gaúchos. Isto, naturalmente, afora as publicações
da imprensa convencional, tais como a Zero Hora, o Correio do Povo, o Jornal O Sul, o
Jornal do Comércio, os jornais do grupo ABC, a revista Aplauso, todos com sites na
internet. E, ainda, os jornais alternativos Fala Brasil, Vaia, Usina do Porto, Extra Classe,
entre outros. Além, é claro, de visitar os sites pessoais mantidos por diversos artistas, que
geralmente são fáceis de achar: ou são “www. o nome do artista.com.br”, ou, procurando-se
o nome no Google, logo aparecem.

Obra original disponível em:
http://www.overmundo.com.br/banco/a-mpb-gaucha

Autoria: Rogério Ratner
Data 19/6/2009

A IMPORTÂNCIA DO NEGRO NA FORMAÇÃO MUSICAL BRASILEIRA

Por: Loma Berenice Gomes Pereira
Cantora, produtora e agente cultural

"Somos culturalmente sincréticos, o que equivale dizer que hoje não somos nem uns – os originários; nem os outros – os conquistadores, mas que somos uns/outros, nosotros, nós outros marcados pela diferença na qual se radica nossa especificidade." "Ela nos remete a uma complexa relação entre classes, etnias e nações, um terreno mal explorado de necessária e urgente elucidação, não só como demanda teórica como empírica; não só como tarefa intelectual como política" Aldyr Garcia Schlee

O continente sul americano é o mais rico do planeta em diversidade étnica, e a história destaca o Rio Grande do Sul como um dos mais importantes pólos culturais. Entretanto, a falta de educação básica do nosso povo evidencia conflitos diante do pluralismo mal compreendido.

Muito embora toda barbárie praticada contra o negro, as traições e a intrujice denunciem chaga aberta a refletir nevralgia nas relações inter raciais, o negro "aguerrido e bravo" não se permitiu calar a voz, nem deixou de expressar seus dons artísticos ou abafou o couro dos tambores, já que nossa participação efetiva para o desenvolvimento desta nação é tão evidente que nem a incineração de nossos documentos de identidade (1889) pôde apagar.

Oportuno salientar que a contribuição do negro na formação de uma nova pátria, que prometia o paraíso na terra, não se limitou aos heroísmos de guerra daquela Porto Alegre constantemente sitiada ou das fronteiras ameaçadas por invasores oportunistas. Nosso povo ergueu esta cidade ainda na senzala, teve participação efetiva para o desenvolvimento cultural e econômico, entretanto, deserdado cresceu às margens* da nobreza escravista , lá nos Campos da Várzea ( Ilhota, Areal da Baronesa e Cidade Baixa) e na Colônia Africana (Redenção, Bom Fim, Rio Branco, Mont'Serrat, Auxiliadora, Três Figueiras). Posteriormente, nasceram os bairros Navegantes, Santana, Partenon, Vila Santa Luzia, Vila Maria da Conceição, dos Marítimos, Jardim, cruzeiro, Rubem Berta, Grande Pinheiro, Cohab Cavalhada, Restinga e Jardim Dona Leopoldina, bairros que evidenciam um amplo território demarcado pela exclusão social.

A amplitude territorial não é de admirar, já que durante 300 anos de tráfico foram trazidos para o Brasil cerca de 4 milhões de indivíduos negros, bem como, também não admira a formação de expressivo número de Quilombos.

Conforme palavras do primeiro Presidente do Quênia, JOMO KENYATTA, em 1938, "O Africano é condicionado, por seculares instituições culturais e sociais, a uma liberdade da qual a Europa tem uma idéia muito restrita. Daí, não é de sua natureza aceitar a escravidão para sempre. Ele sabe que tem que lutar incessantemente pela sua emancipação", e a história registrada na literatura vem comprovar essa luta.

*Os "nobres" residiam no centro de Porto Alegre.

A Jornalista Silvia Abreu relata em publicação inserida no livro Negro em Preto e Branco de Irene Santos que "... no período colonial, escravos e negros livres constituíam a maior parte dos conjuntos instrumentais atuantes" e Maria Elizabeth Lucas em seu artigo Classe Dominante e Cultura Musical no RS: do amadorismo à profissionalização (...) conclui que "ex escravos negros e mestiços livres continuam a predominar como profissionais de música em diversas regiões do país, e o Rio Grande do Sul não fugia a isto".

O MAÇAMBIQUE (expressão rítmica dançada e rezada em verso e cantoria) denota a memória cultural do negro e tem origem na heroína NZINGA MBANDI NGOLA, Rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI e XVII (1587 – 1663), cuja memória tem desafiado o processo diluidor da amnésia.

Para efetivar suas conquistas e defender seu povo dos portugueses, sabendo possuir um exército menos preparado para enfrentar iminente guerra contra a colonização portuguesa da campanha do então Governador João Corrêa de Souza (1621), Nzinga Mbandi aceitou o pedido de casamento do Rei Congo, desde que ela fosse a soberana, com o firme propósito de unificar e fortalecer seus exércitos. Ela não só venceu a guerra como obteve respeito dos portugueses, com os quais estabeleceu relação comercial em larga escala, ao ponto de, estrategicamente, aceitar ser batizada Ana de Souza e difundir a religião católica em seu reino. Nzinga Mbandi Ngola é conhecida e cultuada no Brasil, particularmente no litoral de nosso estado através do Maçambique, bem como em Minas Gerais semelhante culto é denominado Moçambique, em festa religiosa inserida também estrategicamente, nas datas de Nossa Sra. do Rosário e São Benedito. Seu nome, posteriormente aportuguesado para Rainha Ginga, garante a tradição até os dias de hoje da hereditariedade da coroa, bem como da festa que se realiza anualmente.

Enquanto o tambor de maçambique mantinha acesa a chama da ancestralidade em praticamente toda região litorânea ao norte do RS, também em Tapes , o sopapo esquentava os ânimos no litoral sul. O ritmo candombe foi banido do estado e adotado pelos uruguaios; o samba e o maxixe, proibidos pela polícia, e a milonga, um lamento africano, hoje compõe o cancioneiro tradicional gaúcho.

A partir do ano de 1870, com a diversidade étnica, Porto Alegre tornou-se um importante pólo cultural de linhas européias.

Para uma população de 40 mil habitantes, a capital gaúcha contava com seis bandas: a "União Brasileira", a "Firmeza" e a "Esperança", seguidas pela "Euterpe", "Sete de Setembro" e a "Corporação Musical do João Ferreira Lima", já com a inserção de músicos negros.

Em 1880 apareceram os grupos de "Rancho", a exemplo do "Cubanos", dirigido por Domingos Porto, que saía pelas ruas da capital, entre o Natal e o Dia de Reis (06/01), tocando e cantado versos que diziam muito da Cultura africana.

Em 1880, Domingos Porto abandonou a direção do Cubanos para seguir figurando nas festividades com um samba chistoso e original chamado "Ah! Que Vai!", tendo reunido sob sua batuta os melhores músicos da época para formar o conjunto "Negros-Minas", cujos integrantes saíam às ruas travestidos, como o próprio nome sugere. Em 1885, três grupos lhe seguiam a trilha: O "Moçambique", sob a direção do músico Feliciano Vieira, discípulo do Maestro Medanha; os "Baianos" e os "Benguelas", conjunto formado inteiramente por negros. Foi por essa época que o samba entrou na lista negra

Conforme registros literários pesquisados pelo músico Hardy Vedana, data de 1888 uma polca composta por C.Villela, que nos transmite a idéia do grau de conhecimento dos músicos da época.

O nascimento de Lupicínio Rodrigues, em 1914, nos remete à histórica efervescência musical dos Campos da Várzea abrangente à Colônia Africana.

Em 1920, a capital gaúcha já se destacava no cenário nacional por ser considerada arrojada culturalmente para a época. Com o surgimento do Centro Musical, criado por 30 músicos com o objetivo de difundir a música e defender os interesses da classe, com sede nos altos do Café Colombo, no mesmo ano deram vida à primeira Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, já com a inclusão do negro (ainda que palidamente). Todavia, podemos constatar que a miscigenação proporcionou um florescimento musical significativo para a cidade, e os negros granjearam destaque junto à sociedade negra e branca, a exemplo do "Conjunto Regional Espia Só", criado em 1923 pelo músico Albino Rosa , o qual assinava a direção musical e tocava flauta; além do 1º violão de seis cordas executado por Binga; Marino dos Santos, no cavaquinho e bandola; Paulino Mathias, 2º violão; Veridiano Farias ao violino; Severo, no Ganzá e Herald Alves, na caixa clara.

O músico Hardy Vedana observa que, 'o violino junto com piano e flauta eram os instrumentos da moda".

Albino Rosa sonhava mais, queria crescer, ser famoso!

Corria o ano de 1926 quando conheceu e fez amizade com Pixinguinha e o famoso "Batutas" (um grupo que já fazia grande sucesso na França) por ocasião de um contrato com a Cervejaria Brahma para uma série de apresentações no Parque de exposições Menino Deus. Ele não perdeu nenhuma noite de show, muito menos a oportunidade de admirar as qualidades musicais do Batutas. Analisou sua formação, observou o repertório e as novidades em matéria de instrumentos e arranjos. Uma vez criados laços estreitos com os marinheiros que trabalhavam nos vapores da Companhia Costeira de Navegação que fazia a rota Rio – Porto Alegre, Albino tratou de encomendar novos instrumentos e partituras para proceder às reformulações em seu conjunto regional, que passou a chamar-se "Jazz Espia Só", com a seguinte formação: Albino (sax e flauta); Marino dos Santos (sax alto e soprano); João Luiz (pistão); Oswaldino Peixoto (trombone de pisto, posteriormente trombone de vara); Herald Alves ficou na bateria; Severino de Souza (baixo-tuba); Armindo Alves (banjo); Luiz Alves (pandeiro, afoxé e ganzá) e, por fim, o cantor Leopoldo Carvalho a se valer de um megafone para ampliar a voz.

Particularmente, considero este grupo um marco na história da música desenvolvida aqui no sul.

Albino Rosa derrubou as barreiras do preconceito nas sociedades recreativas que mantinham as portas fechadas para os músicos negros, fizeram estrondoso sucesso de público além de receberem cachês dignos, de acordo com os valores vigentes.

Como Albino, inúmeros músicos foram literalmente registrados nas páginas do tempo, cruzaram fronteiras e fomentaram coragem e realização pessoal àqueles que ainda garimpavam seu espaço e aos que estavam por vir.

É possível destacar nomes ilustres como: Marcelino Corrêa (grande mestre de música, que foi professor de Hardy Vedana); o ritmista e cantor Caco Velho (descoberto pelo maestro Paulo Coelho) foi sucesso aqui no sul, Rio de janeiro e Paris - montou uma boate chamada "Mocambo" na capital francesa, gravou um disco e por lá se estabeleceu; Lupicínio Rodrigues, Nelson Lucena, Ernani Oliveira, João Pena; o multi instrumentista Veridiano Farias, que mais tarde tornou-se médico e hoje é nome de rua no bairro Petrópolis; o próprio Maestro Joaquim José Medanha – autor do Hino Riograndense, foi mestre da capela da catedral Metropolitana por 35 anos e exerceu a função de regente na maioria das festas religiosas, espetáculos teatrais e saraus; a cantora Oracina Corrêa, sucesso em Paris, na Argentina, no Rio de janeiro, onde fez diversos shows, tendo ainda participado de filmes feitos pelos estúdios da Cinédia e Atlântida. Depois, radicou-se no Egito como proprietária de Hotel; dos cantores Bruno Thomas, Zé Carlos, Carmen Del Campo, Dalila, Branca de Neve, Maria Helena Andrade, Maria Helena Montier; Lourdes Rodrigues, Zilá Machado, Johnson, a Nega Lú – barítono da OSPA: os instrumentistas Pantera do Trombone; Mamão, fagotista da OSPA que radicou-se em São Paulo para a Orquestra Sinfônica da paulicéia; Mutinho, baterista de Toquinho e Vinícius e mais uma lista enorme de celebridades negras do mundo da música que abrilhantaram os palcos dos cafés que na década de 20 possuíam música ao vivo à altura das cidades européias, dos cassinos e cabarés, executando choros, polcas, havaneiras, valsas, tangos, schottisch, marchas e o charleston.

Quero citar aqui uma curiosidade. O violonista Gesse Silva, incansável defensor da autenticidade da música de Lupicínio Rodrigues, dizia que a predominância musical brasileira era o choro; que o samba vem do choro e por sua vez é descendente do lundu e do maxixe, salvaguardando as origens no maracatu e no xaxado.

O Samba, aguardava o relaxamento da proibição, correndo feito manso riacho nos fundos dos quintais, chuleando temporais... enquanto isso, os músicos iam conquistando terreno e sendo contratados para animar o cinema mudo, festas campestres, pic-nics, bailes vespertinos, festas religiosas; para a animação dos bailes das Sociedades Recreativas, a exemplo da Sociedade Floresta Aurora, fundada em 31 de dezembro de 1872; da Sociedade Bailante Satélite Portoalegrense, fundada em 1902 (estas se mantém até hoje); Nós Os Democratas, entre outras, além das festas que se realizavam no Salão Ariopa (Ilhota), do Salão da Cabral e, ainda, a Sociedade Germânia (primeira a abrir as portas aos músicos negros). Havia também a Sociedade Caixeral, do Comércio, As Margaridas, Venezianos, Esmeralda, Menestréis, Os Vagalumes e da Sociedade de Philosofia. Podemos constatar a infinidade de espaços que propiciavam a atuação dos músicos, sem que nos esqueçamos dos áureos tempos em que o Rádio chegou as casas, tendo o sucesso garantido principalmente pelos Departamentos Musicais a exemplo da Gaúcha (fundada em 1927), da Rádio Farroupilha (1935), Difusora inaugurada nessa mesma época) e, posteriormente, a Rádio Itaí na década de 40. Fora da capital portoalegrense, as emissoras da vizinha Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo, tornaram-se rotas obrigatórias já que, como as nossas, abrilhantavam sua programação com música ao vivo e programas de auditório garantindo aos músicos um promissor mercado de trabalho com os melhores cachês de mercado.

Tal efervescência marcou época dos anos 30 aos 50 e com o advento da televisão, surgiram repetidoras a partir do centro do país: as orquestras e os músicos perderam espaço para o disco de vinil; os músicos negros, em maior parte, foram dispensados "por estarem em desacordo com o padrão estético imposto por esse novo veículo" e com a nova proposta de comunicação com vistas na globalização ( hoje sabemos), atravessamos uma terrível decadência cultural a qual abriu enorme cratera para a invasão de alguns gêneros musicais de qualidade duvidosa oriundos da América do norte.

Nossa literatura é vasta em fatos e acontecimentos inerentes as nossas orígens que merecem evidência e elucidação. O Brasil é vasto e o povo negro espraiado de norte a sul. Nosso Pai Maior nos conferiu a oportunidade de espalhar sementes e gêneros distintos através da própria dádiva. Nos conferiu beleza, sensibilidade e sabedoria. Tal qual é, a aplicação da lei nº 10639 é um direito adquirido pelo Movimento Negro para a raça negra com vistas na expansão do ensino irrestrito da cultura africana, no sentido do resgate da nossa dignidade e cidadania; e quem sabe amenizar a carga invisível como o racismo velado que ainda pesa sobre nossos ombros. A transposição de maciços muros levantados pela supremacia branca transcorridos séculos de indiferença, é meta a ser alcançada. A Igreja Católica quase nos convenceu de que não temos alma, provavelmente, para justificar a selvageria praticada contra nosso povo. Entretanto, nem o racismo nas escolas, nas universidades ou ambientes de trabalho tem o poder de apagar das páginas da história os feitos de grandes homens e mulheres negros presentes em todos os seguimentos da sociedade, a exemplo dos baianos Antonio Pereira Rebouças, nascido no ano de 1798 e amadurecido Jurista e parlamentar político; de André Pinto Rebouças, bacharel em engenharia e professor universitário a despeito de ter nascido no ano de 1838; do arquiteto, entalhador e escultor barroco Aleijadinho; de José do Patrocínio; Pixinguinha; Nelson Cavaquinho; Neri Caveira; Francisco Braga: Donga; Geraldo Pereira; Elizeth Cardoso; Lupicínio Rodrigues; Lima Barreto; Castro Alves, o poeta dos escravos; Machado de Assis; Alexandre Dumas; do Almirante negro João Cândido; do martírio de Anastácia; a exemplo de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe; de Martin Luther King; Ângela Davis; Zumbi dos Palmares; Seu Pretinho, o Moleque Tião; Carlos Santos; Carlos Alberto Barcellos, o Roxo; Ivaldo Roque; Rubens Santos; Bedeu; Leleco Telles; Joaquim Lucena pai e neto; Adão Alves de Oliveira, o seu Lelé; Hemetério Barros; das modelos Julie Jorge e Olívia; Tesourinha; Soneca; Bataclã; Everaldo; de Armando Hipólito dos Santos e tantos outros negros que já partiram deixando marcas indeléveis na história do Rio Grande do Sul, do Brasil e do Mundo.

Há que se reconhecer e pleitear o respeito pela diversidade. Cada etnia trouxe para este recanto do Brasil um torrão de seu país; e se Deus não nos quisesse reunir, nos teria mantido enraizados na pátria de origem.

Ao consultarmos milênios da história da humanidade, podemos constatar que "as lições Divinas foram confundidas e resultaram ensangüentadas todas as bandeiras cristãs". Havia sim a proposta de uma nova terra com base em novas fórmulas administrativas e de convivência já que as anteriores não vingaram. Todavia, "o homem branco da Europa, prejudicado por uma educação espiritual condenável e deficiente desejoso por entregar-se ao prazer fictício dos sentidos" procurou eximir-se dos trabalhos pesados. E, em face à lei do livre arbítrio regido pelos sagrados imperativos da responsabilidade individual, em sua sede nociva de gozo, varreu de seu "pseudo" estudo religioso o mandamento que diz "amai-vos uns aos outros".

Agora é inútil requerer milagres ou clamar a ação da polícia.

A salvação do planeta, em todos os sentidos e direções, exige vontade política além da ação em larga escala fundamentada na educação.

O papel do artista é comunicar; transcender fronteiras e intercambiar conhecimentos, com meta na abolição desse paradoxal pré-conceito germinado na ignorância, e promover a paz nesta nação mestiça por contingência.

Referências:

Jazz em Porto Alegre – Hardy Vedana editora LPM/ Funarte

Negro em Preto e Branco – História Fotográfica da população Negra de Porto Alegre - Organização Irene Santos - Fumproarte/PMPOA

Memória da Negritude – Calendário Brasileiro da Africanidade - Néia Daniel Ministério da Cultura/Fundação Cultural Palmares

Presença Negra no RS – Nei Lopes e Aldyr Garcia Schlee - Coletânea Caderno Porto e Vírgula - Edição especial

Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho – Francisco Cândido Xavier

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Considerações sobre as letras de músicas feitas para festivais.

Por: Paulo de Freitas Mendonça
Jornalista, poeta, compositor, pajador
e estudioso da cultura poético-musical
do Rio Grande do Sul.

Os festivais do Rio Grande do Sul recebem em média de 400 a 500 músicas em cada triagem, alguns mais outros menos. Sem entrar no mérito do grau de descontentamento ainda existente por alguns autores que não classificam suas composições, temos que abordar alguns dos porquês da rejeição de certas concorrentes em relação a outras que alcançam êxito.

Os compositores, quando jurados, estão analisando tecnicamente as obras ali expostas à avaliação. Este fato ocorre sem que os mesmos tenham conhecimento de quem são os autores. Ora, algumas obras se sobressaem das demais pelo seu potencial artístico. Em hipótese alguma quero dizer que sejam em sua totalidade perfeitas. Há casos de classificações de canções que não convencem os jurados em alguns dos quesitos, mas são forçadas a figurar por questão regulamentar que exige um número determinado de selecionadas. Isto não é regra. Há vezes, por outro lado, que sobram músicas consideradas boas pelos avaliadores, também por este mesmo critério. Outro fator que deve ser considerado é o artigo do regulamento que permite um número máximo de um autor ou parceria.

Há festivais que tendem a dar uma linha considerada mais autêntica para as músicas que vão a palco e outros menos. Com relação às letras este conceito não foge muito do que com a melodia. Cabe imediatamente uma pergunta: o que é uma letra autenticamente gaúcha? Aqui se faz necessário o esclarecimento de que a linguagem poética de letra de música é aquela que consegue um maior imediatismo de entendimento do que os versos de um poema. No entanto não se pode confundir facilidade de compreensão com pobreza poética. Há questões universais que devem ser observadas na criação literária das músicas, sob pena de serem consideradas obras menores.

Aristóteles classifica a poesia na categoria abstrata e o poema no campo formal. Já René Wals diz que o poeta se expressa por imagens. Segundo Massaud Moisés, “o verso pode encerrar poesia, mas também pode exprimir qualquer outro tipo de conhecimento”. Então compreendemos que há músicas cujas letras estão carregadas de poética e outras desprovidas dela. Como uma canção é o conjunto de letra e melodia, acrescido de arranjos instrumental e vocal, às vezes ela se consagra mesmo com deficiência poética.

Poesia no texto versificado é mímese, imitação da ação. É a-narrativa. É a ebulição interior, sem começo, meio ou fim, portanto sem história, sem enredo.

Na instauração do Romantismo (Sec. XVII) as epopéias deixam de circular e a poesia épica assume caráter tipicamente poético, ou seja, não narrativo. Neste período houve a transformação das epopéias em romance. Os ingredientes romancescos servem à expressão das metáforas.

É necessário que o autor se expresse inteligentemente, experimentando tensões, dando ritmo, cadência, sonoridade, observando a metrificação, utilizando-se de sinalefas quando necessário, empregando rimas ricas ou raras quando possível, entendendo em que subgênero poético esta compondo.

Ao se converter no primeiro leitor de sua letra o compositor deve analisar sua obra sob critérios técnicos. Passado o momento da inspiração, chega o da catarse.

Deve evitar em uma construção poética a utilização de palavras que não acrescentem sonoridades à obra. Elas vão dar a cadência e gerar sensação de emotividade no ouvinte. Há autores que afirmam que a sonoridade da palavra possui maior efeito num verso do que seu sentido. Da mesma forma que Alan Poe afirma que se há uma espingarda no conto ela deve atirar, penso que o letrista não deve colocar palavras sem uma forte significância sonora na letra. Pois a alternância de sílabas longas e breves, ou tônicas e átonas, pausas, e elevações e quedas da voz é formadora da cadência, não do ritmo como pensa a maioria dos estudiosos. O ritmo caracteriza-se pelas sonoridades puras. A sucessão modulada oferece uma sensação musical. É a fusão entre a emotividade, a musicalidade e a carga semântica. Gera uma expectativa na sensibilidade e na inteligência do ouvinte. É subjetiva, por isso varia em cada um e muitas vezes no mesmo, dependendo do espírito do momento. O ritmo cada pessoa encontra numa cena mental. Talvez esteja nesta questão o fato de que dois musicistas associem melodias diferentes para a mesma letra.

Sem divagar muito em conceitos teóricos é imprescindível que entendamos que a letra autêntica nos parâmetros da cultura gaúcha não necessariamente seja a que mais se reporte a uma cena de campo. Ela não precisa ser jocosa. Apenas pode ser. Ela perde valor poético se for muito descritiva. Há uma espécie de convenção não escrita no Rio Grande do Sul de que a prosa poética musicada seja o mais autêntico da canção gaúcha. Sabemos que a expressão prosística difere da poética em seus conceitos. A prosa descreve o universo geográfico plausível, enquanto que o poema e a letra de música com elevado grau poético criam seus universos próprios, uma espécie de geografia virtual pela sintaxe, pelo nexo semântico entre as imagens. A poesia no texto versificado é a arte da descrição do eu poético. No momento em que a letra de música descreve a geografia exterior real ela empobrece o fenômeno poético.

A poesia não comunica o que se sente, mas a contemplação do que se sente. E a melhor forma desta contemplação é a utilização de metáforas. Segundo Aristóteles “a trivialidade e a vulgaridade serão evitadas por meio do termo dialetal, da metáfora, do vocábulo ornamental, enfim de tudo que afasta da linguagem corrente.”.

Não pretendo alongar-me mais na descrição de outros problemas que “derrubam” concorrentes na triagem como erros de concordância verbal, imagens equivocadas, algumas vezes absurdas, tampouco abordar as constantes inadequações entre letra e melodia.

Tampouco pretendo ditar formulas milagrosas que definam o que é autêntico ou não, o que é correto ou não. Apenas levanto questões para que outros estudiosos, provavelmente com maiores conhecimentos que os meus dêem luz a um debate sadio para que possamos refletir sobre a verdadeira arte poético-musical do Rio Grande do Sul. Ao encerrar este breve comentário afirmo que não compreendo a música gaúcha como definitiva. Temos apenas 300 anos de história no Estado, 500 no país e pouco mais de 50 de tradicionalismo e de 30 de nativismo. Nossa cultura poética e musical está em plena formação e precisa ser discutida e estudada. Seria muito cômodo pensar que está tudo pronto, ademais a cultura de um povo não é estática, assim como o ser humano que é uma eterna fonte de aprendizado.

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A RAINHA GINGA - MEMÓRIA E IDENTIDADE MAÇAMBIQUEIRA
Artigo escrito para publicação no Livro "Raízes de Capão da Canoa".

Por: Francisca Dias
Coordenadora do Grupo Religioso e Cultural Maçambique de Osório

O Maçambique é o maior elo de ligação fundamental com a vida da comunidade negra, situada nos municípios de Osório, Maquiné, Santo Antônio da Patrulha, Palmares do Sul, Terra de Areia e adjacências, no Litoral Norte, no Estado do Rio Grande do Sul. Com o ritual religioso e afro-católico, quando são expressas as devoções aos santos católicos, a comunidade negra de Morro Alto participa das festas que exaltam, agradecem e celebram a fé em torno de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito.

Dentre as personagens desta cerimônia religiosa, sobretudo, da dimensão que incorpora as heranças dos escravos africanos e brasileiros, a principal é a Rainha Ginga. Por meio das ações, dos pensamentos e da memória advinda dos ancestrais africanos, as rainhas gingas perpetuaram a cultura, os valores e a identidade da comunidade negra de Osório. Os reis e as rainhas africanos, muitas vezes, eram também sacerdotes que não somente foram reverenciados como intermediários entre os homens, mas como deuses eles mesmos. Os reis representam a renovação dos valores comunitários da história de um povo, desde os tempos imemoriais e históricos.

Nzinga Mbandi Ngola, rainha de Matamba e Angola nos séculos XVI-XVII (1587-1663), foi uma das mulheres e heroínas africanas cuja memória tem desafiado o processo diluidor da amnésia, dando origem a um imaginário cultural na diáspora tal como no folclore brasileiro com o nome de Ginga. A rainha Nzinga Mbandi, filha do rei de Angola, formou um pequeno exército, a fim de combater e conquistar o reino de seu irmão Ngola Mbandi, que havia matado seu filho por interesse de terras e sucessão. A rainha conseguiu reunir várias tribos e fez acordo com os portugueses, em troca do seu apoio, convertendo-se, estrategicamente, à religião católica, quando recebeu o nome de Ana de Souza. Mais tarde, renegou a fé cristã, embora tenha contribuindo para a difusão e a afirmação do catolicismo na África. Não obstante, expulsou aos portugueses invasores de suas terras.

A história desta soberana negra chegou ao Brasil, sobretudo por meio das embaixadas nas Congadas, dos cortejos e dos bailados do Maçambique. Em Osório, as diversas rainhas Gingas com o pálio real de cor azul; com as sucessivas coroas que acrescentavam aos seus corpos físicos uma capacidade transcendental de unificar uma comunidade étnico-cultural afro-brasileira para além das suas dimensões geográfico-territorial. Em verdade, fica enfatizado o caráter político, uma vez que elas agregam um valor emocional cuja unidade é a pátria, as tribos e as nações africanas. A coroa que elas portam está profundamente associada à identidade de grupo da comunidade negra, consolidada pela rede de parentesco consangüíneo e ritual.


A primeira Rainha Ginga, da qual se obteve algum registro, foi dona Maria Lima, que era chamada, popularmente, de "dona Maria Gorda". Ela era parteira, tinha uma personalidade forte e teria reinado entre 1922 e 1935. Sua sucessora foi Maria Vergilina da qual nada foi referido pelos mais velhos, além do nome, e que teria reinado entre 1935 e 1950.

A rainha seguinte, por sucessão, foi Maria Tereza Joaquina de Oliveira que reinou , entre 1950 e 1978. De acordo com muitos dos antigos maçambiqueiros, Maria Tereza era uma figura altiva, imponente e carismática. O maior orgulho da rainha Ginga Maria Teresa Joaquina de Oliveira era o fato de ter sido coroada pelo cardeal Dom Vicente Scherer. Ela afirmou o seguinte: "O Dom Vicente Scherer me disse, 'tu é quem manda, tu que governa e eles não podem fazer nada sem tu. Tu és quem ficou no lugar da africana. Eles botaram a guerra com a africana porque a festa da africana era mais bonita do que as dos brancos. Os brancos faziam a festa, negro não fazia. Mas a africana tinha Nossa Senhora do Rosário em casa [...] então a rainha guerreou e venceu a guerra como tu (Maria Tereza) venceste esta coroa hoje'". Ao final das sábias palavras, o nobre arcebispo colocou a coroa na cabeça de Maria Tereza. Apesar da idade avançada, demonstrava muita lucidez e grande capacidade de julgamento. No passado, no âmbito da comunidade negra de Morro Alto, as rainhas tinham o poder delegado pelos integrantes de resolver todos os conflitos, podendo até mesmo ordenar a prisão daquele que tivesse sido responsabilizado por alguma transgressão. Ela indicava os festeiros para a festa de Nossa Senhora do Rosário. Esta rainha veio a falecer com 111 anos.

Tomásia Sérgio de Oliveira, natural de Maquiné, herdou o cargo de sua mãe, Maria Tereza. Esta rainha tinha um temperamento muito diferente de sua antecessora, uma vez que era tímida e simples. No entanto, ao desfilar com o manto azul e sua coroa prateada, desfilava silenciosa e majestosa, ao lado do rei, e sempre acompanhada de sua pajem. Ela reinou entre 1978 e 1992. Quando a rainha Ginga Maria Tereza faleceu, em 1992, suas filhas abriram mão do cargo, o qual caberia a qualquer uma delas na linha sucessória. Dona Maria de Oliveira, uma das suas filhas, em 1986, já havia declarado o seguinte: "Isso é coisa dos antigos, dos mais velhos. Mesmo assim, eu não quero passar o trabalho que a mãe passa".

Atualmente, a rainha Ginga é dona Severina Maria Francisca Dias, também chamada pelos parentes maçambiqueiros de "Sibirina". Severina Dias foi coroada, na Catedral de Nossa Senhora da Conceição, em 1992, pelo padre Aloysio, cujo reinado mantém até hoje. Ela nasceu em Morro Alto. Com 20 anos, Dona Severina Dias trabalhou como cozinheira, por dois anos, na antiga Rodoviária de Osório, sob a administração do Sr. Alexandre Renda, pai do atual prefeito de Osório Sr. Eduardo Renda. Depois, mudou-se para Osório, em 1970, trabalhou em muitos bares e prestou serviços domésticos a muitas famílias. É funcionária pública aposentada, pela antiga CRT (Companhia Riograndense de Telecomunicações).

Com a condição de ter sido pajem das duas rainhas anteriores, Maria Teresa, desde 1971; e Tomázia, de 1978 até 1992. No tempo de Tomázia, de quem era prima, ela foi muito ativa, uma vez que cuidava da recepção aos convidados, além de representar a rainha Ginga em muitos "pagamentos de promessas". A rainha Ginga dona Severina Dias possui um amplo saber das rezas, dos cantos do Maçambique. Por meio da intercessão de Nossa Senhora do Rosário, ela acolhe os pedidos por milagres e curas; acolhe os agradecimentos e distribui as bênçãos aos fiéis católicos do Maçambique.

Por muitos anos, Severina realizou muitos partos domésticos, tanto em Morro Alto como em Osório. Em tais ocasiões, portava uma estatueta que representava a imagem da Nossa Senhora do Bom Parto. Aliás, quadros com imagens sacras é o que não faltam em sua residência, tais com de Santa Luzia, Santa Catarina, São Jorge e Santa Bárbara, atestando o seu grande fervor católico. Domina um amplo conhecimento acerca de ervas medicinais, por isso, muitas pessoas recorrem a ela, valendo-se da sua sabedoria. Ela é, indubitavelmente, a detentora da memória do sagrado e de grande parte da história da comunidade negra do Morro Alto e dos ofícios religiosos do Maçambique.

Certamente na passagem do tempo, na reafirmação e na construção da memória, ocorrem continuidades, rupturas, descontinuidades e reinvenções. Para finalizar, vejamos como ela reproduz a narrativa que consolida o mito de fundação da festa do Maçambique, e que vem sendo repassada de rainha Ginga para rainha Ginga:

"Eu sei que a falecida Maria Teresa contava assim: que isso aí, os brancos, eram o senhor. O senhor...os negros não festejavam, os negros era só pra trabalhar e os brancos tinham a festa...foram à festa e tinha uma menina, decerto era filha de algum abençoado.! Diz que foi e disse assim: - 'Meu pai, por que os brancos se divertem e os negros não? Os coitadinhos puxando carreta de cana, carreta de lenha, tocado a guiada, tocado a prego, eles não se divertem? E...:- 'Não, minha filha; é assim: os negros é prá trabalhar.' E ela: - 'Não, pode ser assim!' [...] Aí ela foi e disse assim: -'Vou fazer uma festa, meu pai.' Ele: - 'Quem sabe? Será que vai dar certo?' - 'Vou experimentar! Aí fez, a primeira festa, né? A primeira festa, não foi logo avante, não deu. Ela logo em seguida disse pro pai: - 'Eu vou tornar a fazer outra. Os nossos negros todos, vai se divertir ou não vai se divertir?' Adonde ela fez o maçambique. Decerto o outro santo...decerto não aceitou né, aí, ela puxou a Nossa senhora do Rosário. E continuou o maçambique."


Ela contou, ainda, de que a primeira festa teria dado certo , uma vez que havia um negro no palanque. Este estava condenado à morte, porém Nossa Senhora do Rosário mandou um enviado, a fim de convidá-lo para ser festeiro da Santa. Nesse meio tempo, o carrasco ironizava e ria do escravo, quando alguém indicou a chegada de um mensageiro. O enviado questionou das razões para matar uma pessoa e mandou parar. A seguir, chamou por aquele que estava condenado à morte. Solto o escravo, foi pedido a ele que lesse a carta, ao que ele retrucou, dizendo que não sabia ler. O homem pediu licença para ler a carta. E, assim, continuou a narração a rainha Ginga Severina:

"Aí diz que ele foi e disse: - 'Pode ler, pode ler, pra todo mundo ver.' Decerto pra ler alto, né? Aí ele leu, diz - 'Olha, Nossa Senhora do Rosário tá te convidando pra tu ser festeiro dela e tu fazer a festa dela.' Aí soltou o outro e deu liberdade pra ele na hora, ele deu a liberdade. Daquele dia em diante ele não ia trabalhar mais pra eles, né, ele ia trabalhar só pra fazer a festa da Nossa Senhora e queria uma festa boa! Então adonde que os negros tiveram festa foi devido à Nossa Senhora do Rosário."


É por estas razões expostas acima e devido às múltiplas memórias acumuladas, é que as rainhas gingas são o cerne da vida do maçambique. Devendo, por isso, serem admiradas e respeitadas.


BIBLIOGRAFIA

BRANCO, Estelita de Aguiar et. Al. Maçambique - Coroação de reis em Osório, Comissão Gaúcha do Folclore, Porto Alegre, RS, 1999;
BARCELLOS, Daisy et. Al. Comunidade Negra de Morro Alto - Historicidade, Identidade e Territorialidade, Ufrgs Editora, Porto Alegre, RS, 2004;
GUANDONIN, Manoil Vitório. Maçambique em Osório, Palestrina, Capão da Canoa, RS, Janeiro, 1986;
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória., Mazza Edições/ Perspectiva, Belo Horizonte, MG, 1997;
MOURA, Maria da Glória da Veiga. Ritmo e Ancestralidade na Força dos Tambores Negros - O currículo invisível da festa, PPG em Educação, Usp, São Paulo, SP, 1997;
SERRANO
SILVA, Marina Raymundo da. Viajando Pelo Município, Associação dos Estudos Culturais, AEC, Osório, RS, 1999;
SOUZA, Marina de Mello e. Reis Negros no Brasil Escravista - História da Festa de Coroação de Rei Congo, Humanitas, Ufmg, Belo Horizonte, MG, 2002;

 

SINTO VERGONHA DE MIM
Rolando Boldrin declama Cleide Canton
(com verso incidental de Rui Barbosa)

A ORDEM DOS MÚSICOS EM QUESTÃO

por: Julio Medaglia
Maestro, crítico musical da Folha de
São Paulo
e apresentador de TVs Educativas.

 

Existem determinadas profissões que, por oferecerem riscos à sociedade, são controladas por instituições que se situam acima do profissional. O Conselho de Medicina (CRM) ou o Conselho de Engenharia e Arquitetura (CREA), por exemplo, deveriam zelar não apenas pela qualidade dos serviços profissionais prestados por seus associados como, de alguma forma, assumir certa responsabilidade, caso um médico ou engenheiro venha a cometer um ato questionável. Isto é o que se deveria esperar dos mais de 30 conselhos profissionais que se conhecem neste Patropi. Na prática, porém, esses conselhos estão mais preocupados em "regulamentar" profissões, em criar "reservas de mercado" e em instituir entidades que arrecadam bilhões, que cuidar de desempenhos profissionais. Prédios continuam caindo e erros médicos acontecendo — inclusive com o autor destas mal traçadas que, por pouco, não estaria aqui para escrevê-las — sem que se haja posicionamentos ou condenações por parte desses conselhos. Alguns chegam a ter meio milhão de associados, gerando, no todo, receitas no valor de dois bilhões, fato que torna essas instituições mais poderosas que muitos governos ou "superempresas".

Nós, músicos profissionais, também nos deparamos com uma tal de "Ordem", ávida pela cobrança das anuidades, e dos — pasmem! — 10% das bilheterias de shows. Porém, a função e a natureza dos seus serviços prestados, em 40 anos de existência, ainda são uma grande incógnita. Em primeiro lugar, pelo fato de a nossa profissão não oferecer risco à sociedade. Segundo, porque o próprio funcionamento da atividade regulamenta a atuação do músico. Mecanismos naturais da ação profissional se encarregam de expelir o mau elemento. E se um instrumentista desafinar, o máximo que pode ocorrer é ele não ser mais contratado, sem que isso provoque uma hecatombe "a la Sérgio Naya". Além do mais, a outorga da "profissionalização" que é dada pelo carimbo da Ordem em nossa área é uma coisa absolutamente questionável. Um médico, para atuar profissionalmente, tem de estudar vários anos e, concluído o curso, está em condições de prestar seu serviço. Dois analfabetos que cortam cana no interior do país, de repente, aproximam-se de um microfone, soltam a voz — como já ocorreu — e, do dia para a noite, se transformam nos mais bem pagos profissionais da música popular — independentemente, portanto, de qualquer regulamentação ou preparação profissional.
Um dado importante e curioso é que a Lei 9.649/98 desvinculou do Poder Público essas instituições, tornando-as entidades de direito privado. Porém, por um astuto artifício, fruto da rica imaginação tupiniquim, elas conseguiram manter as isenções tributárias, reter as funções de fiscalização e de policiamento, algo específico do Poder Público.

Felizmente, após quarenta anos de profunda letargia de uma classe tão numerosa como criativa — a do músico brasileiro — movimentos questionadores desse "status quo" começam a ocorrer em todo o país. Mandados de segurança se multiplicam e essa saudável tomada de consciência do músico vai seguramente desembocar numa investigação já tardia sobre as funções e procedimentos da Ordem, inclusive numa possível sindicância para averiguar o destino dos milhões que foram arrecadados em nome de uma alegada "regulamentação profissional". E nesse "rolo compressor", que parece em curso, certamente haverá lugar, também, para se entender os artifícios que permitiram a uma direção da instituição, colocada no poder pela Revolução de 64, lá permanecer por mais de quatro décadas.
O momento é importante e o fato me parece irreversível.


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Só de Sacanagem
- Texto e de Elisa Lucinda - por Ana Carolina

FOLCLORE - OUTRO PRISMA

Por: Paulo de Campos
Maestro, professor e produtor cultural

Encaro - sem ter aqui, a intenção de ser didático - o Folclore como ciência. Folclore é o estudo das manifestações populares. Folk = povo; lore = conhecimento, cultura. Esse termo foi criado pelo arqueólogo inglês William John Thoms (1803-1885), pesquisador da cultura popular européia. Em 22 de agosto de 1846, ele publicou um artigo com o título "Folk-lore", na revista The Athenaeum, propondo a criação do termo.

Não confundir, portanto, com tradicionalismo. O folclore não é estático, pelo contrário, é dinâmico e está em constante renovação. Um fato, para ser considerado folclórico, deve ter algumas, senão todas, destas características: funcionalidade; espontaneidade; intemporalidade; oralidade e anonimato.

No texto de apresentação do site http://www.folcorebrasileiro.com.br/ está registrado que: “ ... O Brasil possui um dos folclores mais ricos de todo o mundo. São danças, festas, comidas, obras de arte, superstições, comemorações e representações que, pelos quatro cantos do país, exaltam a nossa cultura. Se o Sul e o Sudeste brasileiros são regiões em que as manifestações folclóricas têm ocorrido com menor intensidade, por causa da crescente industrialização das cidades, no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste do país as tradições se manifestam cada vez mais vivas. Há muito tempo elas fazem parte da vida de muitas pessoas ...”

E é aqui que eu pretendo chegar: O Rio grande do Sul tem um folclore rico, mas que praticamente não é conhecido. Por estar sendo confundido com tradicionalismo, e com o “culto às tradições” imposto, de cima para baixo, por um sistema patriarcal e retrógrado.

Isso era afirmado, já em 1985, quando fiz o curso Pós-graduação em Folclore, e entre meus mestres estava o folclorista Paixão Cortes, o Mestre em Antropologia Antonio Augusto Fagundes, o Especialista em Arte-Educação e Folclore/Educação José Roberto Diniz de Moraes, Ney Paranhos, Norton Correa, Helio Moro Mariante, os historiadores Paulo Vicentini e Harry Bellomo, e o inesquecível folclorista Glauco Saraiva (este foi meu professor de Teoria Geral de Folclore, na faculdade dois ou três anos antes). Na disciplina Festas e Folguedos ministrada pelo Paixão, eu descobria, impressionado, que entre as poucas manifestações folclóricas vigentes, as mais fortes estavam no Litoral Norte do Estado. Falava ele, nas Cavalhadas, nos Ternos de Reis, nas Cantigas de Oi-la-rai, nos Maçambiques, nas Congadas, nas Folias do Divino. Mostrava ele, que essas sim, eram manifestações puras e espontâneas do povo. Ocorre, que também estas estão definhando. Por falta de incentivo e de apoio. A população em geral nem consegue ter informação ou conhecimento de quando e onde a maioria desses autos folclóricos acontecem.

Alegro-me ao ver que grupos de jovens como o da Invernada de Dança Adulta do Estância da Serra, estão sendo corajosos e inovadores ao agregar a suas apresentações, coreografias e músicas litorâneas de reinterpretação folclórica. Alegro-me ao ver nos festivais, compositores como Paulinho DiCasa, Marcelo Maresia, Kako Xavier, Beto Bollo, Jociel Lima, Cássio Ricardo, Ivan Therra, Mário Tressoldi, Paulinho Oliveira, Marco Araujo, Renato Júnior, Mário DuLeodato, Chico Saga, entre tantos outros, seguidores dos passos dados, primeiramente, por Ivo Ladislau e Carlos Catuípe, na pesquisa do verdadeiro folclore litorâneo de influência afro-açoriana, resgatando e reinterpretando ritmos, melodias, harmonias, instrumentos, historias, lendas, contos, crendices, indumentárias. Alegro-me ao ver a preocupação, destas e de outras pessoas, em registrar também os fatos atuais do momento que vive o litoral. Pois como disse, o folclore não é estanque, muito menos, coisa do passado.

Repare, que uso as palavras “reinterpretação”, “resgate” e “pesquisa” quando me refiro ao que essas pessoas citadas acima estão fazendo. Portanto, não são eles os personagens nem os agentes das manifestações folclóricas. E sim, os negros maçambiqueiros, os cantadores de ternos, os agricultores e os pescadores que ainda cantam as suas cantigas de trabalho, enfim, as pessoas humildes e espontâneas que trazem em si, toda essa carga cultural.

Alegro-me sim, por aqueles, estarem valorizando, pesquisando, resgatando, reinterpretando e trazendo ao conhecimento de toda uma população, a existência de tais manifestações ainda tão puras. Alegro-me, ao perceber o interesse e a satisfação dos meus alunos de Educação Artística do Ensino Médio Estadual quando são informados sobre a riqueza e a pureza cultural existente neste nosso litoral.

Portanto, a cultura popular do Norte, Nordeste e Centro-Oeste é conhecida por ter apoio, respeito e divulgação. (Mesmo que a mídia seja, na maioria das vezes apenas veiculada pelos canais de TV por assinatura ou por redes educativas.). E, porquê não a nossa também? ... É possível! Acho que estão sendo dados os primeiros passos para que isso se torne realidade! ...

Texto publicado em janeiro de 2002 no Portal Litoralnorters e no Jornal Revisão, depois, em 2006, no Portal Festivais do Brasil. Hoje, o movimento cultural de influência afro-açoriana do Litoral norte do Rio Grande do Sul, já alcança pequenas repercussões a nível nacional e também nas Ilhas Açorianas e nas comunidades de língua portuguesa do Canadá. E, claro, no próprio RS.

Enfim, música nas escolas outra vez!

por: Julio Medaglia
Maestro, crítico musical da Folha de
São Paulo
e apresentador de TVs Educativas.

Folha de São Paulo, segunda-feira, 22 de setembro de 2008


"É preciso abrir a mente dos jovens para muitas vivências sonoras e mostrar-lhes como é grande e colorido o mundo musical universal".


NA DÉCADA de 1930, a carreira internacional de Heitor Villa-Lobos fluía muito bem. Ao ver, porém, a expansão dos meios eletrônicos de massa, o rádio e a gravação de discos, apaixonado pelo Brasil como era, resolveu permanecer aqui para iniciar um projeto de ensino musical nas escolas. Pretendia, assim, proteger nosso povo de um possível ataque maléfico dessa emergente indústria da cultura, que ele chamava de música de repetição.

Dizia, não com estas palavras, que o brasileiro deveria ser municiado de informações musicais sólidas, pois poderia ficar refém dessa máquina, seguramente mais preocupada em comercializar seus produtos que em prestar serviços à cultura nacional. Não se tem notícias de um raciocínio tão coerente e premonitório como esse, sobretudo quando se observa a realidade cultural atual.

Esse bombardeio via satélite, promovido por uma indústria cultural que se expande na mesma proporção em que baixa o nível artístico da produção, ocorre internacionalmente, direcionando o público no sentido de um frenético "consuma e descarte" que, tratando de bens comuns, pode funcionar, mas, quando aplicado à criação artística, promove verdadeira devastação na sensibilidade humana.

Inicialmente apoiado pelo interventor federal em São Paulo, tenente João Alberto, Villa fez uma longa viagem ao interior de nosso Estado - carregando um piano consigo! -, iniciando uma verdadeira caravana em prol da divulgação e do ensino de uma música de qualidade.

Com o bom resultado da experiência/aventura, o grande educador Anísio Teixeira, então secretário de Educação do Rio, criou para Villa uma Superintendência da Educação Musical e Artística. Próximo do poder central, Villa fez seu projeto chegar a Getúlio. O ditador, encantado com as manifestações de massa do ufanismo patriótico nazifascista da Europa, viu nas concentrações corais de Villa o instrumento ideal para promover algo semelhante no Brasil. Assim, decretou a obrigatoriedade do ensino musical no país. Em seguida, criou-se o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico para a formação de professores, o qual Villa dirigiu até sua morte, em 1959.

Por mais que se possa ter criticado componentes daquele projeto, o canto orfeônico prestou inestimáveis serviços à formação do brasileiro.

Com a criação do "Guia Prático", harmonização de 137 cantos populares das diversas regiões, Villa fazia com que o Brasil se conhecesse por meio da música e, ao vocalizá-los, que o jovem se autodisciplinasse. Nessas aulas chegava ao jovem também a informação de um universo musical amplo, assim como o conhecimento da música dos grandes mestres.

Em 1972, o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Educação e Cultura, prestou um desserviço à nação ao extinguir o ensino musical nas escolas, provavelmente temendo o poder feiticeiro, talvez subversivo da música.

Nestes 36 anos, não faltaram empenhos para trazer de volta o ensino musical ao jovem, já que essa forma de expressão é a que mais acompanha o ser humano na vida.
Recentemente, a senadora Roseana Sarney apresentou um projeto que alterava a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, propondo a obrigatoriedade do ensino musical nas escolas. Para surpresa geral, essa proposta foi aprovada rápida e unanimemente no Senado e na Câmara. No dia 18/8, o presidente Lula sancionou esse projeto de lei, dando três anos às comissões de ensino para se adaptarem às exigências pedagógicas estabelecidas nos artigos 1º e 2º dessa lei.

Surge agora o debate de como conduzir a criação de um currículo. Teme-se que comissões de endiabrados alquimistas se reúnam por décadas para a elaboração de um monstrengo pedagógico, enquanto outros, sabedores da urgência da aplicação desse ensino, optem pela criação de algo prático e imediato.

Sou da opinião de que se crie uma comissão mínima para debater o assunto, com apoio do Ministério da Cultura, e se elabore um currículo prático e compacto de no máximo dez páginas. Para que, com ele, um músico de formação razoável - sem mil diplomas, licenciaturas ou mestrados! - possa entrar numa sala de aula e exibir vídeos, CDs, fazer as crianças cantarem o "Guia Prático", conhecer os hinos nacionais, tocar instrumentos simples, talvez fabricados por eles mesmos, baseados nas experiências do método Carl Orff.

Assim, pode-se abrir a mente dos jovens para muitas vivências sonoras e mostrar-lhes como é grande e colorido o mundo musical universal, bem diferente daquele que ele vê na TV.

E que se faça isso rapidamente, antes que o processo de imbecilização coletiva via satélite ganhe essa guerra.

 


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O mais honesto texto " jamais escrito neste país" , como diria o cara...

VERANEIO NO R. G. DO SUL

Para conhecimento nacional e reconhecimento regional:


Está chegando o verão e com ele o veraneio, como chamamos aqui no Sul.
Não sei se vocês, de outros Estados, sabem, mas temos o mais fantástico litoral do País: de Torres ao Chuí, uma linha reta, sem enseadas, baias, morros, reentrâncias ou recortes. Nada!
Apenas uma linha reta, areia de um lado, o mar do outro.
Torres, aliás, é um equívoco geográfico, contrário às nossas raízes farroupilhas e devia estar em Santa Catarina.
Característica nossa, não gostamos de intermediários.
Nosso veraneio consiste em pisar na areia, entrar no mar, sair do mar e pisar na areia.
Nada de vistas deslumbrantes, vegetações verdejantes, montanhas e falésias, prainhas paradisíacas e outras frescuras cultivadas aí para cima.
O mar gaúcho não é verde, não é azul, não é turquesa.
É marrom!
Cor de barro iodado, é excelente para a saúde e para a pele! E nossas ondas são constantes, nem pequenas nem gigantes, não servem para pegar jacaré ou furar onda. O solo do nosso mar é escorregadio, irregular, rico em buracos. Quem entra nele tem que se garantir.
Não vou falar em inconvenientes como as estradas engarrafadas, balneários hiper-lotados, supermercados abarrotados, falta de produtos, buzinaços de manhã de tarde e de noite, areia fervendo, crianças berrando, ruas esburacadas, tempestades e pele ardendo, porque protetor solar é coisa de fresco e em praia de gaúcho não tem sombra. Nem nos dias de chuva, quase sempre nos fins-de-semana, provocando o alegre, intermitente, reincidente e recorrente coaxar dos sapos e assustadoras revoadas de mariposas.
Dois ventos predominam, em nosso veraneio: o nordeste – também chamado de nordestão – e o sul, cuja origem é a Antártida.
O nordestão é vento com grife e estilo... estilo vendaval.
Chega levantando areia fina que bate em nosso corpo como milhões de mosquitos a nos pinicar. Quem entra no mar, ao sair rapidamente se transforma no – como chamamos com bom-humor – veranista à milanesa. A propósito, provoca um fenômeno único no universo, fazendo com que o oceano se coloque em posição diagonal à areia: você entra na água bem aqui e quando sai, está a quase um quilômetro para sul. Essa distância é variável, relativa ao tempo que você permanecer dentro da água.
Outra coisa: nosso mar é pra macho!
Água gelada, vai congelando seus pés e termina nos cabelos. Se você prefere sofrer tudo de uma vez, mergulhe e erga-se, sabendo que nos próximos quinze minutos sua respiração voltará ao normal: é o tempo que leva para recuperar-se do choque térmico.
Noventa por cento do nosso veraneio é agraciado pelo nordestão que, entre outras coisas, promove uma atividade esportiva praiana, inusitada e exclusiva do Sul: Caça ao guardassol. Guardassol, você sabe, é o antigo guarda-sol, espécie de guarda-chuva de lona, colorida de amarelo, verde, vermelho, cores de verão, enfim, cujo cabo tem uma ponta que você enterra na areia e depois senta embaixo, em pequenas cadeiras de alumínio que não agüentam seu peso e se enterram na areia.
Chega o nordestão e... lá se vai o guardassol, voando alegremente pela orla e você correndo atrás. Ganha quem consegue pegá-lo antes de ele se cravar na perna de alguém ou desmanchar o castelo de areia que, há três horas, você está construindo com seu filho de cinco anos.
O vento sul, por sua vez, é menos espalhafatoso. Se você for para a praia de sobretudo, cachecol e meias de lã, mal perceberá que ele está soprando. É o vento ideal para se comprar milho verde e deixar a água fervente escorrer em suas mãos, para aquecê-las.
Raramente, mas acontece, somos brindados com o vento leste, aquele que vem diretamente do mar para a terra. Aqui no Sul, chamamos o vento leste de ‘vento cultural’, porque quando ele sopra, apreendemos cientificamente como se sentem os camarões cozinhados ao bafo.

E, em todos os veraneios, acontece aquele dia perfeito: nenhum vento, mar tranquilo e transparente, o comentário geral é: “foi um dia de Santa Catarina, de Maceió, de Salvador” e outras bichices. Esse dia perfeito quase sempre acontece no meio da semana, quando quase ninguém está lá para aproveitar. Mas fala-se dele pelo resto do veraneio, pelo resto do ano, até o próximo verão.

Morram de inveja, esta é outra das coisas de gaúcho!
Atenta a essas questões, nossa indústria da construção civil, conhecida mundialmente por suas soluções criativas e inéditas, inventou um sistema maravilhoso que nos permite veranear no litoral a uma distância não inferior a quinhentos metros da areia e, na maioria dos casos, jamais ver o mar: os famosos condomínios fechados.
A coisa funciona assim: a construtora adquire uma imensa área de terra (areia), em geral a preço barato porque fica longe do mar, cerca tudo com um muro e, mal começa a primavera, gasta milhares de reais em anúncios na mídia, comunicando que, finalmente agora você tem ao seu dispor o melhor estilo de veranear na praia: longe dela. Oferece terrenos de ponta a ponta, quanto mais longe da praia, mais caro é o terreno. Você vai lá e compra um.
Enquanto isso a construtora urbaniza o lugar: faz ruas, obras de saneamento, hidráulica, elétrica, salão de festas comunitário, piscina comunitária com águas térmicas, jardins e até lagos e lagoas artificiais onde coloca peixes para você pescar. Sem falar no ginásio de esportes, quadras de tênis, futebol, futebol-sete, se o lago for grande, uma lancha e um professor para você esquiar na água e todos os demais confortos de um condomínio fechado de Porto Alegre, além de um sistema de segurança quase, repito, quase invulnerável.
Feliz proprietário de um terreno, você agora tem que construir sua casa, obedecendo é claro ao plano-diretor do condomínio que abrange desde a altura do imóvel até o seu estilo.
O que fazemos nós, gaúchos, diante dessa fabulosa novidade? Aderimos, é claro.
Construímos as nossas casas que, de modo algum, podem ser inferiores às dos vizinhos, colocamos piscinas térmicas nos nossos terrenos para não precisar usar a comunitária, mobiliamos e equipamos a casa com o que tem de melhor, sobretudo na questão da tecnologia: internet, TV à cabo, plasma ou LCD, linhas telefônicas, enfim, veraneamos no litoral como se não tivéssemos saído da nossa casa na cidade.
Nossos veraneios costumam começar aí pela metade de janeiro e terminar aí pela metade de fevereiro, depende de quando cai o Carnaval. Somos um povo trabalhador, não costumamos ficar parados nas nossas praias.
Vamos para lá nas sextas-feiras de tarde e voltamos de lá nos domingos à noite. Quase todos na mesma hora, ida e volta.
É assim que, na sexta-feira, pelas quatro ou cinco da tarde, entramos no engarrafamento. Chegamos ao nosso condomínio lá pelas nove ou dez da noite. Usufruímos nosso novo estilo de veranear no sábado – manhã, tarde e noite – e no domingo, quando fechamos a casa.
Adoramos o trabalhão que dá para abrir, arrumar e prover a casa na sexta de noite, e o mesmo trabalhão que dá no domingo de noite.
E nem vou contar quando, ao chegarmos, a geladeira estragou, o sistema elétrico pifou ou a empregada contratada para o fim-de-semana não veio.
Temos, aqui no Sul, uma expressão regional que vou revelar ao resto do mundo:
-Graças a Deus que terminou esta bosta de veraneio!

Paulo Wainberg
(Sou gaúcho de Porto Alegre e libriano, se é que isso tem alguma relevância, ganho a vida material como advogado e usufruo a vida de verdade como escritor. Livros publicados são dez, os mais recentes: Nem tudo é podre no reino do lixo (romance, Ed. Mercado Aberto), A mãe judia o gênio cibernético e outras histórias (crônicas e contos, Ed. AGE) e Os malditos (romance, Ed. Bertrand). No prelo, a sair em breve, Um outro vagabundo toca em surdina (crônicas, WS Editora). Adoro escrever crônicas, costumo dizer que é quando consigo ser um personagem de mim mesmo, entende? Você não está interessado no meu estado civil, na minha idade e no número do meu CPF. Se quiser saber não tem problema, pergunte que eu conto. Não tenho livro de cabeceira, porque não tem cabeceira na minha cama. O meu domingo perfeito será quando eliminarem as segundas-feiras e o meu sonho de consumo é inconfessável. Eu me acho bonito, sensual, inteligente e modesto e daqui a dez anos não tenho a menor idéia do que estarei fazendo. Sabe o que me tira do sério? Uma boa piada e meu herói da adolescência foi meu pai, mas só descobri isso muitos anos depois. É isso.

FONTE: http://www.germinaliteratura.com.br/2008/paulo_wainberg.htm

 

 
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